No recente concurso nacional de acesso ao ensino superior, as engenharias dominaram a lista de cursos com maior procura e classificações de ingresso mais elevadas. No top 5 dos cursos figuram Engenharia Aeroespacial e Engenharia Física Tecnológica, ambos do Instituto Superior Técnico, e Bioengenharia e Engenharia e Gestão Industrial da Universidade do Porto.

Olhando para os 20 cursos mais procurados e com as notas mais altas, verifica-se que metade é de Engenharia, sendo de destacar também a presença de duas licenciaturas em Matemática.

Isto diz-nos que os jovens portugueses estão a procurar adquirir competências em áreas fundamentais da economia do conhecimento, preparando-se assim para a 4.ª revolução industrial. As novas gerações têm consciência do peso crescente da especialização tecnológica na organização económica e, por consequência, no mercado de trabalho. Logo, direcionam as suas opções académicas para cursos que formam talento tecnológico, tornando-se assim potencialmente apetecíveis para as empresas que competem por brainwear. E são cada vez mais as empresas, em Portugal e no resto do mundo, que procuram capital humano que lhes permita maximizar o potencial tecnológico.

Há, aliás, um défice de talento tecnológico no mundo e em particular na Europa. A evolução tecnológica faz-se hoje a um ritmo bastante mais rápido do que a formação de capital humano, o que cria dificuldades à transformação digital das empresas e, consequentemente, impede-as de crescer e ser mais produtivas e competitivas. Esta realidade promove uma competição à escala global pela captação de talento tecnológico, penalizando as empresas com menos músculo financeiro (e que, por isso, não podem oferecer remunerações muito elevadas) e os países com níveis salariais mais baixos, como é o caso de Portugal.

A capacidade de formar e reter talento tornou-se, assim, um dos grandes fatores competitivos das economias onde há uma intensiva incorporação de tecnologia na cadeia de valor. Neste sentido, o nosso país deve concentrar os seus esforços na criação, atração e fixação de capital humano. Ao contrário do que sucedeu nas anteriores revoluções industriais, Portugal tem condições para acompanhar a evolução da 4.ª revolução industrial. Dispomos de massa crítica, empresas inovadoras, centros de excelência, setores de elevado valor acrescentado, infraestruturas tecnológicas, ambiente tech-friendly… Enfim, o país reúne um conjunto de fatores críticos de sucesso na economia digital, o que é reconhecido também por empresas internacionais que contactam com o nosso ecossistema de inovação.

Mas se é verdade que estamos a formar mais talento tecnológico, como o concurso de acesso ao ensino superior indicia, também não podemos escamotear a permeabilidade do país à emigração qualificada e a sua baixa capacidade para atrair imigrantes com estudos superiores. Continuam a sair de Portugal muitos jovens com elevadas qualificações, seduzidos por melhores perspetivas de carreira e movidos pelo nomadismo que caracteriza os millennials. Este brain drain não é totalmente compensado por um brain gain, sendo os salários e as experiências que podemos proporcionar (novas realidades, novos contactos, visão mais global) os principais óbices à atração de imigração qualificada.

Donde, para além de formarmos talento, temos de saber reter o potencial humano que sai das instituições de ensino superior, cuja qualidade pedagógica e científica é reconhecidamente elevada. Ora, isto exige uma estratégia nacional, que passa necessariamente por dar às empresas condições, incluindo fiscais, para apostarem no capital humano e por atrair investimento internacional que recrute, em Portugal, os seus quadros.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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José Pedro Freitas foi presidente da ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários de abril de 2019 a fevereiro de 2020, tendo sido também vice-presidente desde janeiro de 2017 e integrado os órgãos sociais da Associação, mais concretamente o Conselho Fiscal, nos... Ler Mais