À semelhança do que sucede com os restantes apoios à economia, também as medidas específicas para minorar o impacto da pandemia de Covid-19 no ecossistema empreendedor estão envoltas em burocracia e o financiamento tarda em chegar às start-ups.

É de louvar a sensibilidade demonstrada pelo Governo para as especificidades do empreendedorismo, mas não só um pacote no valor de 25 milhões de euros se afigura escasso (dez mil euros de apoio potencial para cada projeto) como o dinheiro devia entrar nas empresas de forma muito mais simples e célere.

Importa ter em conta que, de acordo com um inquérito realizado pela Aliados Consulting e pela FES Agency, três em cada dez start-ups temem pela continuidade do seu projeto em consequência da pandemia (36,1%) e mais de metade (59%) está a ter impactos negativos com a crise sanitária. De resto, 32,4% regista perdas de vendas superiores a 60%. Estes números traduzem bem a situação delicada em que se encontra o ecossistema português, que é especialmente vulnerável por ser constituído por muitas empresas early stage.

Um dado relevante do mesmo inquérito é que 67,2% das start-ups foi forçada a reduzir custos, de forma a responder às dificuldades de tesouraria provocadas pela pandemia. Esta racionalização das despesas não conduziu, contudo, a uma vaga de despedimentos. Mais de nove em cada dez inquiridas (90,2%) garantem que, por enquanto, não tiveram de despedir em resultado da quebra de vendas. Isto significa que as start-ups estão a ser inteligentes e criativas na redução da sua estrutura de custos.

Diminuir os encargos e simultaneamente melhorar a atividade das empresas é uma tarefa complexa. Mas todas as áreas de uma start-up são, à partida, passíveis de sofrer uma racionalização de custos. No entanto, as pequenas despesas (telecomunicações, energia, seguros, automóveis, economato, etc.), no seu conjunto, representam um custo não negligenciável para as empresas. Além disso, é mais fácil intervir sobre estas despesas, pois em muitos casos não são vitais para o funcionamento das empresas.

Uma boa parte dos custos das start-ups resulta da sua relação com os fornecedores, a qual deve estar sempre a ser avaliada e melhorada. Há que negociar com os fornecedores com regularidade, de forma a otimizar as condições do negócio e a obter prazos de pagamento mais favoráveis. Além disso, as empresas devem consultar regularmente o mercado, ter várias alternativas de fornecedores, estar atentas às renovações automáticas de contratos, trocar serviços ou bens através de parcerias e, claro, contestar sempre os aumentos de preços.

É também pertinente rever o plano de financiamento. Isto significa auscultar o mercado para verificar se se está, de facto, a usufruir dos produtos e serviços financeiros mais adequados à empresa e com os preços mais competitivos. Convém analisar os detalhes dos contratos de crédito, nomeadamente no que diz respeito a taxas e comissões. Há ainda que procurar alternativas ao financiamento tradicional, como o capital de risco, os business angels ou o crowdfunding. Também pode ser uma boa opção o recurso ao leasing na compra de equipamento como material de escritório, sistemas informáticos, mobiliário ou automóveis.

Por fim, importa desenvolver um plano rigoroso de prevenção e controlo de custos. Isto passa, por exemplo, pela adoção de regras rígidas no uso de economato, pela introdução de planos de poupança energética, pela racionalização dos gastos com material informático, pela implementação de sistemas de gestão da qualidade e pela prevalência das comunicações on-line dentro das organizações.

Em suma, há várias medidas para reduzir custos que estão ao alcance das start-ups e podem servir para aliviar a tesouraria até ao efetivo relançamento económico.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais