Ajudar as famílias a poupar na compra dos manuais escolares e contribuir para a sustentabilidade ambiental através da reutilização são os objetivos que movem a Book in Loop. Manuel Tovar, o cofundador do projeto, explicou ao Link To Leaders como funciona este sistema de reutilização de livros e quais os números alcançados em quatro anos de atividade.

Quando nasceu, em 2016, o projeto Book in Loop  assumiu como missão tornar a reutilização dos livros escolares um hábito para os portugueses, e, quatro anos depois, essa tarefa parece estar a cumprir as metas  definidas: no primeiro ano movimentaram cerca de 15 mil livros, em 2017 atingiram a marca dos 60 mil livros escolares trocados na plataforma, e no ano passado chegaram aos 100 mil livros. Este ano, querem atingir os 150 mil livros trocados e envolver mais de 30 mil agregados familiares. A entrega de vouchers começa já a partir de hoje.

Mas como explicou Manuel Tovar, o cofundador do projeto, a estratégia de economia circular que têm vindo a pôr em prática com a reutilização dos manuais escolares é mais abrangente e passa também por promover a reutilização de todos os bens que tenham uma vida útil mais longa do que a necessidade do seu primeiro utilizador. Por isso, a ligação a novos projetos como o BabyLoop, em parceria com a apresentadora Carolina Patrocínio.

A abertura do ano letivo tem apenas um significado no orçamento familiar: um rombo, se não colossal, pelo menos significativo. O que faz a Book in Loop para contrair esta tendência e ajudar as famílias portuguesas?
Somos uma plataforma online de compra e venda de manuais escolares em segunda mão, criada em 2016, ano em que os manuais escolares de uma criança pesavam cerca de 200 euros no orçamento das famílias portuguesas. Surgimos como uma solução inovadora, para permitir que todas as famílias poupassem até 80% nos manuais escolares, com a recolha, seleção e entrega de manuais usados como novos. Desde então, desenvolvemos um processo logístico e tecnológico para promover e auxiliar as famílias na reutilização dos manuais.

Este ano, os manuais escolares vão ser gratuitos para todos os alunos do ensino público, o que é ótimo e nos obrigou a pensar em novas formas de ajudar as famílias e o ambiente, defendendo sempre a lógica da economia circular e da sustentabilidade.
Nos anos anteriores, o nosso foco foi conseguir a maior redução possível dos preços, porque tínhamos de ajudar as famílias a poupar num período difícil e porque esse era o melhor incentivo para a reutilização. Com a medida do Estado, o mercado perdeu, de um momento para o outro, toda e qualquer sensibilidade ao preço e todas as livrarias mudaram as suas políticas comerciais, complementando a sua oferta com outros tipos de vantagens.

Nós também adaptámos a nossa oferta e trazemos vantagens para todos os envolvidos neste processo. Para as famílias, oferecemos um serviço mais completo, que inclui encadernamento dos livros, facilidade de compra e vantagens económicas, já que os pais recebem até 7 euros por cada livro que compram connosco para que possam comprar material escolar ou usar noutras despesas familiares. Estamos também a permitir uma forte poupança ao Estado, fazendo um desconto nas compras públicas entre 15% e 25%, o que representa um potencial de poupança de 30 milhões euros para o erário público, dependendo da adesão à campanha. Adicionalmente, queremos promover a maior ação de reutilização alguma vez feita em Portugal, alertando as famílias para a necessidade de reutilizar e de cuidar do meio ambiente. Ou seja, no fim, ficamos todos a ganhar.

“A nossa perceção é de que a sociedade está sensibilizada para este tipo de questões, mas ainda há um longo caminho a percorrer (…)”

Considera que os portugueses não valorizam a compra de manuais em segunda mão?
Uma iniciativa de reutilização como esta tem um impacto que consideramos muito importante na pedagogia dos alunos e das famílias, no sentido de promover a adoção de novos hábitos de consumo sustentáveis e acreditamos que a sociedade está cada vez mais comprometida com os problemas ambientais. Ainda assim, o Tribunal de Contas alertou, muito recentemente, para a dificuldade das escolas reutilizarem os livros, sobretudo pela inexistência de procedimentos uniformes e precisos para esta troca de manuais, bem como a indefinição em relação aos métodos de controlo dos manuais reutilizados. No último ano, a percentagem de livros reutilizados foi inferior a 4%, um valor quase irrisório.

A nossa perceção é de que a sociedade está sensibilizada para este tipo de questões, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Por isso, atribuímos, na Book in Loop, em média, 100 euros às famílias que decidam entregar-nos os livros dos anos anteriores e encomendar livros reutilizados gratuitos para o próximo ano.

Este ano, e pela primeira vez, os manuais escolares vão ser gratuitos para todos os alunos do ensino público. A Book in Loop associou-se a esta iniciativa do Estado. Como é que vai funcionar? Como é que os pais podem obter os vouchers?
O processo de entrega dos vales é da responsabilidade da Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (Dgeste), sendo que a Book in Loop é uma das livrarias onde podem ser utilizados. Os encarregados de educação devem inscrever-se na plataforma MEGA e validar o seu número de identidade e também o número de identificação fiscal. Quem não tiver acesso à Internet deve dirigir-se à escola onde está matriculado o seu filho e solicitar os vales em papel.

Na Book in Loop, a reserva já pode ser feita, mesmo antes de ter o vale. Depois de feita a reserva online, os livros são atribuídos por ordem de inserção do voucher na plataforma e entregues ao domicílio gratuitamente. Para quem vende, o processo é idêntico: as pessoas inscrevem-se na plataforma, os manuais são recolhidos no domicílio ou deixados no hipermercado Continente mais próximo e, depois, são sujeitos a um processo de verificação da qualidade para poderem voltar a ser utilizados e cruzados com as reservas que foram feitas.

Há algum critério para estabelecer a entrega dos vouchers?
A partir de 9 de julho terá início a distribuição dos vales para os alunos que já este ano tiveram acesso aos manuais gratuitos e que no próximo ano letivo transitam para o ano seguinte. Ou seja, para os estudantes do 2.º, 3.º, 4.º e 6.º ano de escolaridade. Segundo a Dgeste, até 31 de julho o mesmo deve acontecer em relação a todos os alunos dos restantes anos de escolaridade, bem como com os que, estando em ano de continuidade, solicitaram transferência de estabelecimento de ensino.

“A impressão de manuais novos todos os anos é responsável pelo abate de milhares de árvores e é por isto que queremos fazer desta a maior iniciativa de reutilização alguma vez feita em Portugal.”

As famílias portuguesas estão consciencializadas para o facto destes vales atribuídos pelo Estado poderem ser utilizados em lojas em segunda mão? O que é preciso fazer para haver uma maior divulgação do programa de gratuitidade dos manuais escolares?
O programa de gratuitidade tem sido bastante comunicado pelas escolas, mas temos recebido algumas questões relacionadas com a utilização destes vales para comprar livros em segunda mão.

A sustentabilidade está na ordem do dia e todos percebemos a importância de preservar a floresta que ainda nos resta. A impressão de manuais novos todos os anos é responsável pelo abate de milhares de árvores e é por isto que queremos fazer desta a maior iniciativa de reutilização alguma vez feita em Portugal. Para isso damos alguns incentivos às famílias que optem por reutilizar.

É muito importante que cheguemos a mais famílias para conseguirmos também ter um impacto positivo no Orçamento de Estado, e, para isso, precisamos da ajuda de todos para partilhar a iniciativa e trazer mais famílias para este movimento. A Book in Loop é uma das livrarias que se associou a esta iniciativa e tem a particularidade de oferecer vantagens a quem optar pelos manuais em segunda mão. Caso persista alguma dúvida, temos uma linha de apoio às famílias.

Quanto é que as famílias portuguesas podem poupar com a vossa ajuda?
Associada à vertente sustentável, a nossa operação vai manter a poupança como um dos elementos distintivos. Há poupança para quem vende os seus livros, através da recuperação do investimento; há poupança, através de incentivos em material escolar, para quem adquire usados; e há poupança para o ambiente, através da reutilização do manual.

O vendedor recebe sempre 25% do PVP do manual e o comprador recebe um valor fixo por manual, que pode ir até 7 euros, dependendo do escalão do PVP do manual que adquire. Adicionalmente, este ano os portes de envio são grátis e os livros são enviados já encapados, para aumentar a durabilidade. Por cada livro reutilizado que receber, o cliente recebe também um incentivo em cartão Continente, que pode ser utilizado em cadernos de atividades, que não estão abrangidos pelos vales MEGA e material escolar. No total, as famílias podem receber até 100 euros por aluno.

“Este ano queremos mesmo fazer a maior ação de reutilização alguma vez vista em Portugal. Para isso, queremos atingir os 150 mil livros trocados e envolver mais de 30 mil agregados familiares.”

Quantas famílias já recorreram ao vosso serviço?
No primeiro ano de operação, movimentamos cerca de 15 mil livros. Em 2017, quadruplicámos este número e atingimos a marca dos 60 mil livros escolares trocados na plataforma. No ano passado, aproximamo-nos dos 100 mil livros e este ano queremos mesmo fazer a maior ação de reutilização alguma vez vista em Portugal. Para isso, queremos atingir os 150 mil livros trocados e envolver mais de 30 mil agregados familiares.

Com a Book in Loop todos ganham. Quem compra e quem vende livros. Que balanço faz do projeto?
A medida da gratuitidade dos manuais escolares para os alunos do ensino público é muito importante para reduzir os encargos das famílias com a educação, num período particularmente difícil que é o regresso às aulas. No entanto, para que esta medida seja eficiente, tanto do ponto de vista orçamental, como do ponto de vista ambiental, acreditamos que a gratuitidade tem de ser aliada à reutilização.

No último ano contribuímos para a reutilização de 100 mil manuais e este é um número francamente positivo. Com o mundo de vantagens que este ano damos aos pais, acreditamos que conseguimos marcar a diferença e chegar ainda mais longe neste número.

“(…) conseguimos obter para o Estado uma poupança de 20% do valor que iria gastar na compra dos manuais.”

Quanto é que a Book in Loop já ajudou o Estado a poupar até ao momento?
Nos moldes em que a operação vai decorrer este ano, conseguimos obter para o Estado uma poupança de 20% do valor que iria gastar na compra dos manuais. Ou seja, tendo em consideração o valor dos manuais escolares a serem oferecidos, poderemos reduzir a despesa pública em cerca de 30 milhões de euros, valor com algum peso para os cofres do Estado. No entanto, só em setembro, quando terminarmos as entregas, será possível fazer essa contabilização.

“No ano passado atingimos a marca de um milhão de euros de faturação,o que foi um passo importante na validação da nossa abordagem à economia circular (…)”

Quanto faturaram no último ano e quanto preveem faturar este ano?
No ano passado atingimos a marca de um milhão de euros de faturação, o que foi um passo importante na validação da nossa abordagem à economia circular, ao interesse das famílias na nossa proposta de valor e à sustentabilidade do nosso modelo de negócio.
Este ano definimos os nossos objetivos com métricas de impacto ambiental e social, porque queremos fazer deste programa a maior iniciativa de reutilização em Portugal. Queremos envolver 30 mil famílias e reutilizar mais de 150 mil livros, distribuindo 1,5 milhões de euros em benefícios a quem reutilize vendendo os livros do ano anterior e encomendando os do próximo ano.

A Book in Loop sente que pode ver o seu futuro comprometido com a cada vez maior disponibilização de manuais digitais?
Os nossos objetivos são a poupança para as famílias e a sustentabilidade ambiental que a reutilização permite. Vemos com muito bons olhos a utilização de manuais digitais, sempre que se coadune com a prática pedagógica na sala de aula. A economia circular é uma tendência de futuro que não se restringe aos manuais escolares. Nós já colaboramos com as famílias noutras áreas e queremos continuar a alargar o âmbito da nossa iniciativa, deixaremos de promover a reutilização de manuais quando isso deixar de ser relevante, como é hoje, para as famílias e o ambiente.

“Não queremos ficar-nos pelos manuais escolares, mas promover a reutilização de todos os bens que tenham uma vida útil mais longa do que a necessidade do seu primeiro utilizador (…). Em janeiro deste ano lançámos a BabyLoop com a Carolina Patrocínio”.

Por onde passa o futuro da Book in Loop?
A Book in Loop nasceu em 2016 já com o objetivo de tornar a economia circular uma realidade do dia-a-dia dos consumidores portugueses. Não queremos ficar-nos pelos manuais escolares, mas promover a reutilização de todos os bens que tenham uma vida útil mais longa do que a necessidade do seu primeiro utilizador e já temos as ferramentas tecnológicas e os processos de logística inversa para o conseguir.

Em janeiro deste ano lançámos a BabyLoop com a Carolina Patrocínio. Este foi o segundo passo nesta estratégia. A BabyLoop permite, através da sua loja online e aplicações móveis, a compra e a venda de equipamentos de puericultura (carrinhos de bebé, cadeiras para o carro…). Queremos prosseguir neste caminho e chegar a novos mercados em breve.

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