Usar a tecnologia para criar uma linguagem de intimidade entre as pessoas foi o ponto de partida para um dos projetos com a assinatura de Kwame Ferreira, as pulseiras Bond Touch que acabam de chegar ao mercado português. Em entrevista ao Link To Leaders, o empreendedor e fundador da Impossible explica como a tecnologia pode ajudar a construir relações mais saudáveis e felizes.

O projeto Bond Touch, uma pulseira criada para eliminar a barreira das relações à distância que já anda nos pulsos de celebridades como Kelly Ripa, Shawn Mendes ou Camila Cabello, é um dos muitos projetos criados pelo empreendedor luso-angolano Kwame Ferreira. Já vendeu mais de mil unidades nos Estados Unidos e está agora a ser lançada no mercado português.

Empreendedor e fundador da start-up studio Impossible, sedeada em Lisboa, Kwame Ferreira instalou-se em Portugal porque valoriza a humildade e competência da engenharia e design portugueses e acredita que “culturalmente temos muito a oferecer ao mundo do empreendedorismo”.

No currículo soma ainda a criação de projetos como a Wiresglasses, que cofundou, para combater o desperdício na indústria dos óculos, ajudou a desenvolver a Fairphone, um dos primeiros telefones éticos do mundo, e preside a Nikabot, outra empresa Impossible, criando equipas mais saudáveis e mais felizes.

Afirma-se motivado para “ajudar a criar e celebrar relações saudáveis” e no final do ano espera ter três wearables no mercado e um serviço digital cada vez mais completo para poder cumprir essa missão.

As Bond Touch definem-se como um wearable emocional, uma pulseira que junta corações distantes, através do toque. De que forma é que a tecnologia pode ajudar a construir relações mais saudáveis e felizes?
A tecnologia permite a criação de uma linguagem de intimidade baseada no toque. Ajuda a criar e gerir o espaço sagrado das relações íntimas e familiares. Há uma componente táctil, onde simulamos o toque humano quando este não é possível. Há outra componente de serviço digital que ambiciona trazer cada vez mais valor a estas relações através de apps que ajudam a servir as necessidades de uma relação.

“(…) acabámos por criar algo simples e único. Uma nova linguagem para relações íntimas que sofrem com a distância”.

O que o motivou a criar este dispositivo?
Na altura eu estava entre Londres e Silicon Valley. Na Impossible, empresa que deu gênese à Bond, havia muitos de nós com relações à distância. A ideia surgiu em conversa. Da conversa até à realidade passaram vários anos e muitas tentativas. No final acabámos por criar algo simples e único. Uma nova linguagem para relações íntimas que sofrem com a distância. Exatamente o problema que muitos de nós sofríamos ao transitar entre diferentes escritórios da Impossible.

Que expetativas tem quanto ao sucesso destas pulseiras high tech em Portugal?
Portugal é um mercado relativamente pequeno. Mas temos bastantes utilizadores que seguem a nossa marca e nos dão um ótimo feedback para melhorar os nossos produtos.

Qual o vosso target?
Começámos na Geração Z e fomos crescendo. Hoje temos um target cada vez mais abrangente dos 18 aos 35. Com o lançamento da Bond Heart, estamos a adicionar valor às faixas etárias 35+.

Quantas pessoas compraram a pulseira e quais os mercados onde há mais procura?
Já vendemos bem mais do que 1 milhão de unidades nos Estados Unidos. São o nosso maior mercado.

“Quanto melhor gerimos o nosso futuro, mais atrativos nos tornamos para potenciais investidores”.

Este projeto resultou exclusivamente de investimento próprio ou teve intervenção de investidores externos?
Sempre recusámos. Nunca precisámos de investidores. Há aquela máxima que o Stewart Alsop me sussurrou em São Francisco quando procurava investimento para uma das nossas start-ups há muitos anos – os investidores só dão dinheiro a quem não precisa. Nós tivemos sorte, nunca precisamos de investimento até agora. Acreditamos num crescimento sustentável e bem gerido. Prezamos a nossa autonomia. Quanto melhor gerimos o nosso futuro, mais atrativos nos tornamos para potenciais investidores.

Quais os desafios que enfrentaram na relação com Amazon para disponibilizar o produto neste marketplace?
A Amazon sempre foi um bom parceiro de distribuição. Eles têm um serviço na qual os nossos utilizadores confiam. Não os vemos como um competidor. São um marketplace.

Globalmente, como vê o futuro da marca? E deste tipo de wearable?
O wearable é um meio para um fim. Somos motivados pela nossa missão de ajudar a criar e celebrar relações saudáveis. No final deste ano teremos três wearables no mercado e um serviço digital cada vez mais completo para podermos cumprir a nossa missão.

As Bond Touch são umas das criações da Impossible. Que outras inovações têm em agenda?
Estamos a trabalhar em inteligência artificial, modelos fundacionais para ajudar empresas a inovar. Estamos também muito interessados na casa de banho como laboratório de análises familiar. Estamos a investigar algumas ideias neste espaço.

“Valorizo muito a humildade e competência da engenharia e design portugueses”.

Porque escolheu Portugal para instalar a Impossible? Tendo em conta o seu percurso e experiência profissional, Portugal é o mercado certo para “criar” uma start-up como a vossa?
Eu cresci em Portugal. Sempre tive acesso a uma boa rede de talento em Portugal. Valorizo muito a humildade e competência da engenharia e design portugueses. Acho que culturalmente temos muito a oferecer ao mundo do empreendedorismo. Em relação ao que me atrai a Portugal, não há espaço suficiente na página para a resposta. Há um sentido de comunidade e intimidade com a terra e o mar que acho saudáveis.

Quem são os clientes da Impossible? Os gigantes tecnológicos?
Correto. Temos tido o privilégio de trabalhar com a Google, a Samsung, a Roche… em relações de longa duração. Do lado da Impossible Labs só trabalhamos com grandes corporações que precisam de acelerar a sua inovação interna.

“O empreendedorismo não é cultural, mas sim sócio-económico”.

Qual o “poder” das start-ups no atual panorama económico, na inovação e no desenvolvimento tecnológico das empresas e da sociedade?
A start-up faz parte de um ecossistema dominado pelo capital de risco. O poder não está contudo nas start-ups mas sim na rede de capital de risco que precisa de casos de sucesso para crescer. O empreendedorismo não é cultural, mas sim sócio-económico. Nós seguimos e imitamos exemplos de sucesso e só esses casos de sucesso fazem com que o ecossistema das start-ups funcione. Precisamos de mais casos de sucesso para haver mais investimento e com mais investimento teremos mais casos de sucesso. É um círculo.

Como empreendedor em tecnologia, o que é que o move?
A missão. No caso da Impossible é a evolução do User Centered Design para o Planet Centric Design. No caso da Bond, a visão de um mundo com relações mais saudáveis. Todas as empresas que ajudamos a crescer têm que ser movidas por uma missão.

“A empresa é um veículo para o crescimento e transformação, de equipas e sociedade”.

Quais as suas ambições para as empresas/projetos que lidera?
Fazer crescer equipas de alta performance, onde os diferentes indivíduos possam crescer profissionalmente e pessoalmente. A empresa é um veículo para o crescimento e transformação, de equipas e sociedade.

Que marca gostaria de deixar no ecossistema empreendedor nacional e internacional?
Através das diferentes empresas e start-ups que criamos para dar resposta a problemas que precisam de solução- formar empreendedores capazes de enfrentar desafios heterogêneos com ambição global.

Respostas rápidas:
O maior risco: Uma filha.
O maior erro: Tentar capturar o batimento cardíaco de um rinoceronte.
A maior lição: O indivíduo é um mito. Tudo começa com pelo menos duas pessoas.
A maior conquista: Uma equipa confiante e ambiciosa.

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