Entrevista/ “Quando uma mulher adquire competências digitais aumenta a sua capacidade de adaptação ao mercado de trabalho”
“Existe uma consciência cada vez maior de que as competências digitais são essenciais para a empregabilidade e para a progressão profissional”, assegura Telma Gonçalves, Program and Community Manager do Descodifica-te, um programa de formação digital exclusivamente para mulheres.
“Mais do que escolher uma profissão para toda a vida, os profissionais terão de desenvolver competências que lhes permitam evoluir, reinventar-se e responder às novas exigências do mercado”. Esta é a visão de Telma Gonçalves, Program and Community Manager do programa Descodifica-te, profissional que não hesita em afirmar que “a requalificação e a aprendizagem ao longo da vida serão fatores decisivos para a empregabilidade, para a mobilidade profissional e para a construção de carreiras mais resilientes”.
Qual o impacto que programas como o Descodifica-te podem ter na dinamização do empreendedorismo feminino e na inclusão e transição para o digital?
O impacto é significativo porque atua simultaneamente em três dimensões fundamentais: capacitação, confiança e oportunidade. O Descodifica-te, desenvolvido pelo Fledge Institute em parceria com a Fundação MEO e a Fundação Ageas, foi criado precisamente para tornar a transição digital mais acessível a mulheres com diferentes percursos profissionais. Muitas mulheres chegam ao programa sem experiência prévia em tecnologia ou com a perceção de que o digital é uma área distante da sua realidade profissional. Ao longo da formação, descobrem que podem criar websites, desenvolver aplicações, automatizar processos ou utilizar Inteligência Artificial para resolver problemas concretos, sem necessidade de conhecimentos avançados de programação.
Esta transformação tem reflexos diretos na empregabilidade, mas também no empreendedorismo. Ao adquirirem competências digitais, muitas participantes passam a ter condições para lançar projetos próprios, validar ideias de negócio ou digitalizar atividades que já desenvolviam. Temos exemplos de participantes que aplicaram estas competências nos seus próprios negócios ou em negócios familiares, melhorando processos e ganhando autonomia, e de outras que transformaram uma ideia inicial num projeto digital com impacto social, como uma solução ligada à identificação de situações de assédio laboral. Além disso, existe um impacto social relevante. Quando uma mulher adquire competências digitais aumenta a sua capacidade de adaptação ao mercado de trabalho e torna-se também um agente de mudança nas suas comunidades, inspirando outras mulheres a seguirem percursos semelhantes.
“As mulheres reconhecem cada vez mais que a tecnologia não é apenas uma área profissional específica, mas uma competência transversal que pode abrir portas em praticamente todos os setores de atividade”.
As mulheres portuguesas já aderem a este tipo de programas de requalificação digital?
Sim, verificamos uma adesão crescente. Existe uma consciência cada vez maior de que as competências digitais são essenciais para a empregabilidade e para a progressão profissional. Ao longo das várias edições do Descodifica-te, temos assistido a um interesse muito significativo por parte de mulheres de diferentes regiões do país e com percursos profissionais bastante diversos.
Esta procura reflete também uma mudança de mentalidade. As mulheres reconhecem cada vez mais que a tecnologia não é apenas uma área profissional específica, mas uma competência transversal que pode abrir portas em praticamente todos os setores de atividade.
Qual a faixa etária mais interessada em fazer uma transição de carreira, com este tipo de iniciativa? O que as mobiliza?
O Descodifica-te recebe candidaturas de mulheres em diferentes fases da vida profissional, desde situações de desemprego ou precariedade laboral até profissionais que procuram atualizar competências e explorar novos caminhos de carreira. Temos participantes vindas de áreas como saúde, farmácia, arquitetura, administração pública local, pequenos negócios, economia social ou serviços, o que mostra que a transição digital não tem um único ponto de partida.
Mais do que a idade, aquilo que une as participantes é a vontade de adquirir competências relevantes para o futuro do trabalho, aumentar a sua empregabilidade e ganhar maior autonomia profissional num contexto de crescente transformação digital.
As competências no-code são o futuro?
As competências no-code representam uma parte importante do futuro do trabalho porque tornam a tecnologia mais acessível. Permitem que profissionais sem formação técnica especializada consigam criar websites, aplicações ou soluções digitais para resolver problemas concretos.
Mais do que substituir a programação tradicional, o no-code complementa-a, acelerando processos de inovação e permitindo que mais pessoas participem ativamente na criação de soluções digitais. Num contexto em que as organizações procuram cada vez mais agilidade e capacidade de adaptação, estas competências assumem um papel cada vez mais relevante.
Na vossa área de atividade, e nas iniciativas desenvolvidas, de que forma se manifesta mais o impacto da inteligência artificial?
A inteligência artificial está a transformar profundamente a forma como trabalhamos, criamos e aprendemos. Nas nossas iniciativas, observamos um crescente interesse em compreender como utilizar ferramentas de IA para aumentar a produtividade, automatizar tarefas, criar conteúdos, analisar informação e desenvolver novos produtos e serviços.
O mais relevante é que a IA está a reduzir barreiras de entrada e a permitir que profissionais de diferentes áreas consigam alcançar resultados que anteriormente exigiam equipas técnicas especializadas. Por isso, procuramos que as participantes desenvolvam não só competências técnicas, mas também uma compreensão crítica e estratégica sobre a utilização destas ferramentas.
“Persistem desafios relacionados com a representação feminina em áreas tecnológicas, sobretudo em posições técnicas e de liderança”.
O estigma de que a tecnologia, e a atividade de programação em concreto, é uma atividade masculina já foi ultrapassado ou ainda há muito caminho a percorrer para chegar à igualdade de género?
Temos assistido a progressos significativos, mas ainda existe caminho a percorrer. Persistem desafios relacionados com a representação feminina em áreas tecnológicas, sobretudo em posições técnicas e de liderança. Iniciativas como o Descodifica-te são importantes porque ajudam a quebrar estereótipos, aumentar a confiança das participantes e demonstrar que a tecnologia é uma área acessível a qualquer pessoa, independentemente do género ou da formação de origem. Quanto maior for a diversidade de perspetivas no setor tecnológico, mais inovadoras e inclusivas serão as soluções que desenvolvemos.
Como tem evoluído a preparação das mulheres para o mercado digital? Há talento?
Sem dúvida. Os resultados alcançados pelo Descodifica-te demonstram isso mesmo. Ao longo das várias edições, mais de 500 mulheres participaram no programa e desenvolveram cerca de 1.000 projetos digitais, aplicando na prática competências em áreas como no-code, automação e inteligência artificial.
Além disso, temos acompanhado percursos inspiradores de participantes que conseguiram reinventar as suas carreiras e assumir novas funções na economia digital. Há, por exemplo, uma participante com formação na área da saúde e farmácia que entrou no programa sem experiência em construção digital e que hoje alia esse conhecimento à tecnologia, desenvolvendo soluções digitais e trabalhando também como consultora digital. Há também uma participante, mãe e arquiteta, que estava desempregada quando entrou no programa e que começou a desenvolver projetos freelance e continua ligada a projetos digitais, incluindo colaborações com parceiros com quem trabalhou durante a formação. Estes exemplos mostram que existe talento e potencial, desde que sejam criadas oportunidades de acesso à formação e capacitação.
Requalificação profissional pode ser uma resposta à escassez de talento tecnológico?
Acreditamos que sim. Num contexto em que as empresas enfrentam desafios relacionados com a escassez de talento qualificado e com a aceleração da transformação digital, a requalificação profissional assume um papel cada vez mais importante.
Ao capacitar profissionais de diferentes áreas com competências digitais e de inteligência artificial, é possível alargar a base de talento disponível e aproximar mais pessoas das oportunidades existentes na economia digital.
No caso do Descodifica-te, a empregabilidade no final do programa é uma realidade?
A empregabilidade é um dos principais objetivos do programa. Embora os resultados variem de participante para participante, temos acompanhado diversos casos de sucesso de mulheres que conseguiram uma transição profissional, iniciaram atividade independente, lançaram projetos próprios ou reforçaram significativamente a sua posição no mercado de trabalho. Um exemplo concreto é o de uma participante que trabalha numa junta de freguesia e que aplicou diretamente os conhecimentos adquiridos para criar uma solução digital que melhora o acesso da comunidade local a serviços e informação. Outro é o de participantes que usaram as competências adquiridas para digitalizar negócios próprios ou familiares, aumentando a sua autonomia e capacidade de resposta.
O programa procura dotar as participantes de competências práticas e alinhadas com as necessidades atuais das empresas e da economia digital. Mais do que preparar para uma função específica, procuramos desenvolver capacidades que aumentem a adaptabilidade e a competitividade profissional num contexto de transformação constante.
O meu próprio percurso também é um exemplo dessa transição: vim de uma função em call center e, através do Descodifica-te, consegui entrar numa área totalmente diferente, integrando hoje a equipa do programa como Community and Program Manager.
Tendo em conta o ritmo acelerado a que transformação digital está a acontecer, quais as novas carreiras ligadas ao digital, à tecnologia e ao empreendedorismo em que as mulheres podem fazer a diferença?
As oportunidades são cada vez mais diversificadas. Destacam-se áreas como a automação de processos, desenvolvimento no-code e low-code, análise de dados, inteligência artificial aplicada aos negócios, experiência do utilizador, gestão de produtos digitais, marketing digital, criação de conteúdos assistidos por IA e empreendedorismo tecnológico.
Mais do que novas profissões, estamos a assistir ao surgimento de perfis híbridos, que combinam experiência setorial com competências digitais. As mulheres têm um papel fundamental a desempenhar nesta transformação, trazendo perspetivas diversas e contribuindo para o desenvolvimento de soluções mais inclusivas e representativas da sociedade. Uma profissional com experiência em saúde, educação, administração pública local, arquitetura ou empreendedorismo pode, ao adquirir competências digitais, criar soluções mais próximas de problemas reais e com impacto direto nas pessoas e nas comunidades.
Será que o futuro do trabalho está na reconversão de carreiras?
A reconversão profissional será, cada vez mais, uma realidade ao longo da vida ativa. A velocidade da inovação tecnológica exige uma aprendizagem contínua e uma capacidade permanente de adaptação.
Mais do que escolher uma profissão para toda a vida, os profissionais terão de desenvolver competências que lhes permitam evoluir, reinventar-se e responder às novas exigências do mercado. Neste contexto, a requalificação e a aprendizagem ao longo da vida serão fatores decisivos para a empregabilidade, para a mobilidade profissional e para a construção de carreiras mais resilientes.








