Opinião
Quando o “tu consegues” deixa de motivar e começa a irritar
Desde que me conheço, sempre fui bastante ativa. Capaz de encaixar mil coisas num só dia, capaz de assumir mais um desafio, mais um compromisso, mais uma entrega.
Esta energia sempre me deixou e ainda deixa satisfeita comigo, mas também sei que, por vezes, não deixo espaço para respirar. E sinto, cada vez mais, que é algo a mudar. É um trabalho em progresso.
Nem todas as pessoas têm — ou querem ter — este ritmo. E está tudo certo. É aqui que a gestão de expetativas entra em cena: as que temos sobre os outros e as que os outros colocam sobre nós.
Expetativa é, no fundo, esperar. É acreditar que aquilo que imaginamos vai acontecer exatamente como desenhámos na nossa cabeça.
E ter expetativas não é mau. Dá direção. Ajuda-nos a perceber para onde vamos e qual o próximo passo. Impulsiona ações, escolhas e caminhos.
Mas há um detalhe que esquecemos: expetativas não são garantias.
E é aqui que aquela frase — “tu consegues” — pode começar a ganhar um peso diferente.
Quando estamos cansados, pressionados, com a sensação de que estamos sempre a dar mais um passo do que conseguimos, ouvir “tu consegues” deixa de ser motivador. Parece quase uma cobrança subtil, como se a nossa capacidade fosse infinita e o erro, a pausa ou o limite não fizessem parte da equação ou fossem sinal de fraqueza.
A verdade é simples: ninguém consegue sempre. E não há nada de errado nisso.
O que irrita não é a frase em si. É a falta de leitura emocional do contexto.
É quando alguém nos diz “tu consegues” sem perceber que, naquele momento, talvez a resposta certa fosse:
“Não precisas de conseguir tudo hoje.”
Porque as expetativas que os outros colocam em nós — às vezes com a melhor das intenções — podem transformar-se numa pressão silenciosa. E quando já somos exigentes connosco, essa pressão duplica.
Também fazemos isto aos outros.
As expetativas que criamos sobre os outros também podem ser injustas. Queremos que o outro tenha o nosso ritmo, a nossa forma de ver o mundo, a nossa disciplina, a nossa energia. Mas cada pessoa é um universo diferente. E quando esperamos que alguém corresponda àquilo que só faz sentido na nossa cabeça… inevitavelmente vem a frustração.
No fundo, expetativas são mapas.
Úteis, sim. Mas não são o território.
E, quando confundimos os dois, até uma frase bem-intencionada pode transformar-se num lembrete de falha… mesmo quando não existe falha nenhuma. Existe humanidade. Estamos apenas a ser humanos.
Talvez esteja na altura de reformular a forma como apoiamos quem está ao nosso lado.
Antes de dizermos “tu consegues”, podemos perguntar:
— Como te sentes?
— Queres mesmo avançar agora?
— O que precisas?
Porque, às vezes, o verdadeiro apoio não é empurrar.
É acompanhar, ao ritmo certo. É abrandar em conjunto.
Curiosamente, quando há espaço para isto, a frase “tu consegues” volta ao lugar certo: um incentivo leve, honesto e real.
Sem pressão. Sem ruído. Sem expetativas escondidas.
Apenas presença. E isso faz toda a diferença.
Susana Duro tem mais de 20 anos de experiência no desenvolvimento e implementação de estratégias de marketing para marcas líderes de mercado e um sólido percurso profissional construído em empresas nacionais e multinacionais de referência dentro do mercado de FMCG.
É licenciada em Marketing e Publicidade pelo IADE, pós-graduada em Retail Management e em Direção Comercial no Indeg/Iscte e mestre em Marketing pela mesma instituição. Iniciou a sua carreira de marketing na Henkel Ibérica como gestora de produto, passando depois para brand manager na Dan Cake. Em 2004 entrou para a Nestlé onde esteve durante 11 anos. Aqui desempenhou a função de brand manager da categoria de Culinários, de trade marketing manager na categoria de chocolates e de head of trade marketing na categoria de Cereais de pequeno-almoço. Em 2017 entrou para a Coca Cola Europacific Partners como responsável pela equipa de Customer Development do Canal Alimentar. Em 2022 foi convidada para assumir a função de National Account manager ficando com a responsabilidade de várias contas no canal Horeca Organizado. É também professora na pós-graduação em Gestão de Vendas do INDEG_ISCTE, onde leciona a disciplina de Comportamento do Consumidor.








