Recentemente, numa conversa com um grupo de bons velhos millennials, um deles dizia que se sentia numa prisão de algodão doce e que estava a ser muito difícil lidar com essa sensação. Esta dualidade provém do conforto que a sua situação profissional lhe proporciona e o desconforto por se sentir tão confortável.

O (chamemos-lhe) Francisco, trabalha num sólido grupo nacional, num cargo de coordenação no qual chefia várias pessoas, numa área operacional, logo com desafios constantes diários. Para além de um bom salário, tem mais alguns benefícios, como um carro e uma boa remuneração variável anual. Além disso, é reconhecido pela sua chefia, pelas suas equipas e pela própria empresa, que o considera um “talento” a reter. Desde que chegou, há dois anos, fez alguns bons amigos e tem uma excelente relação com os seus colegas. Até aqui, parece um cenário perfeito. No entanto, o Francisco sente-se desconfortável e está atento a eventuais novas oportunidades.

Tal como o Francisco, muitos millennials não querem deixar as suas tostas de abacate e latte macchiatos, mas sentem-se “forçados” a trocá-las por um galão com torradas, agora que estão a consolidar as suas posições no âmbito profissional e a estabilizar as suas relações familiares. Essa “doce prisão” é algo com o qual não estão preparados para lidar e, para as empresas, é (mais) um desafio imposto por esta geração.

Pela minha experiência dos dois lados da barricada – millennials e gestores – eu diria que há alguns factores que podem ajudar a reter estes talentos, a começar pela flexibilidade. O Francisco é surfista (claro) e naqueles dias em que o trabalho não flui, tudo o que ele precisava era de umas horas a meio do dia para ir “apanhar umas ondas” e depois voltar, com as ideias refrescadas e pronto para mergulhar no seu trabalho. No mesmo grupo, alguém dizia que preferia trabalhar em casa, durante a noite, em vez de no escritório, no horário “normal”. No entanto, esta flexibilidade não é uma prática na maioria das empresas, mesmo quando as funções assim o permitem porque ainda é tabu ficar a trabalhar em casa ou optar por horários mais elásticos.

E a flexibilidade não é apenas relativa aos horários. Para a minha geração, também os pacotes de benefícios deviam ser mais personalizados. Naturalmente, aumentos em dinheiro são sempre bem-vindos, mas há outras recompensas que podem ser até mais valorizadas, por exemplo, pacotes de telecomunicações ilimitados, que permitam que estejamos sempre conectados, em qualquer lado, a qualquer hora. Ter a liberdade de escolher quer a tipologia de seguros, por exemplo, como outras ofertas, descontos ou parcerias são também soluções apelativas para este grupo demográfico.

Os millennials também procuram experiências. E aqui não falamos só de escritórios com redes de baloiço e mesas de matraquilhos. Estes colaboradores querem novos conhecimentos, aprendizagens e vivências, que as empresas podem proporcionar facilitando o acesso a conferências, eventos de networking, ou idas a feiras internacionais, por exemplo. Estes são momentos vantajosos para ambos os lados, uma vez que os colaboradores podem “ver mundo” e trazer novas ideias e outras visões para dentro de casa. As empresas podem também criar outras iniciativas como programas de voluntariado, eventos corporativos, ou actividades artísticas e desportivas, que criem espaço para os colaboradores conviverem e desenvolverem as suas competências. E, claro, tirar boas fotografias para partilhar no Instagram.

Neste ponto da sua leitura, ou concorda plenamente comigo, e até já está a pensar como pode convencer o seu departamento de Recursos Humanos a implementar algumas medidas, ou considera-me uma millennial mimada e preguiçosa e está mentalmente a mandar-me ir trabalhar. Nesse caso, deixo-lhe apenas uma questão: independentemente da sua idade, função e experiência, se lhe oferecessem as duas hipóteses – trabalhar numa empresa dinâmica, com soluções desenhadas à sua medida, ou numa organização “quadrada” em que é visto apenas como mais um recurso –, qual é que preferia?

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Rita Viegas é uma millennial convicta, apaixonada por pessoas e viciada em comunicação. Atualmente é gestora de projetos na OZ Energia, tendo sido anteriormente diretora de marketing da Eastbanc e desempenhado vários cargos em áreas de marketing e comunicação em... Ler Mais