Numa luta pela igualdade de género desde 2002, a brasileira Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e presidente do Pretahub, garante que os empreendedores negros ainda enfrentam muitos desafios no país.

A batalha pela igualdade de género tem sido uma das missões de Adriana Barbosa, fundadora  do Instituto Feira Preta e do Pretahub, duas instituições focadas em incentivar a população negra a criar e a desenvolver os seus negócios. “O problema do negro não é só do negro, é de todo mundo”, diz a brasileira, citada pela site Terra. “Se 50% da população (110 milhões de brasileiros, segundo o IBGE) não tem poder de compra, o Brasil não vai para a frente”, acrescenta.

Adriana Barbosa incentiva os empreendedores negros a lançarem negócios no Brasil há 17 anos, quando lançou a primeira Feira Preta, evento que expõe os produtos e serviços de empreendedores negros que, segundo dados do Sebrae, representam 50% dos donos de negócios no país. Desde 2002, o evento conta com 700 expositores e a circulação de mais de 4 milhões de reais (um milhão de euros).

A jovem, que surge na lista dos 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo, participou no mês passado no Fórum E-commerce 2019, em São Paulo, e falou do seu percurso como mulher de negócios, nomeadamente da situação de desemprego pela qual passou e da criação da Feira Preta.

Inspiração familiar
A brasileira partilhou no Fórum E-commerce 2019 que a inspiração para ser empreendera veio da própria família. “A minha avó fazia de tudo com o que tinha à sua disposição. Quando precisávamos de dinheiro, ela pegava a farinha de trigo e no peito de frango, cozinhava e vendia”, revela.

Foi com o negócio de venda de salgados da avó que Barbosa aprendeu a tornar um produto apetecível e a gerir equipas.

Com a avó como modelo, e em situação de desemprego, a jovem passou a vender roupas usadas no bairro da Vila Madalena, no Brasil. A ideia de criar a Feira Preta surgiu quando a mercadoria da empreendedora foi roubada num arrastão no bairro de São Paulo. A partir desse momento, ela decidiu que era necessário ter outro tipo de negócio.

Na altura, a existência de estudos sobre o consumo da população negra e o lançamento de produtos exclusivos para essa parcela da população levaram Adriana Barbosa a criar a Feira Preta. O conceito era reunir empreendedores negros num mesmo local para poderem expor os seus produtos e serviços. “Depois disso, tivemos apoio da Endeavor, Artemisia para criar um modelo de negócios para a Feira Preta”, conta.

Depois de ter a ideia de criar a Feira Preta, Barbosa começou por ter dificuldade em encontrar patrocinadores que a ajudassem a realizar o evento. “Muitas marcas diziam: ‘Não sei se quero associar a minha marca a um evento com esse nome’”, afirma. A primeira parceria a ser formalizada foi com a Unilever, que daria um pontapé inicial e atrairia outras marcas para patrocinar o evento.

A atração de patrocinadores não foi o único desafio da Feira Preta. Para que a evolução do ecossistema negro de negócios ocorresse, era necessário trabalhar em duas frentes: nas empresas e nos consumidores. “Enquanto as multinacionais fortalecem o cenário empreendedor, contratando mais funcionários negros e criando produtos para essa população, do outro lado, o consumidor negro compra mais produtos que satisfazem as suas necessidades”, explica a responsável.

Entre os projetos do Instituto Feira Preta, estão o “Conversando A gente se Aprende”, que promove diálogos em universidades públicas e privadas, o “Afrohub” para aceleração de empreendimentos, e o “Afrolab” para capacitação.

O que nasceu como uma feira de produtos e serviços de empreendedores negros e que se transformou num instituto dedicado a fomentar o empreendedorismo negro a partir de diferentes iniciativas deu agora mais um passo: o PretaHub, que passa a concentrar todos os projetos do Instituto Feira Preta, com o objetivo de expandir o alcance dessas iniciativas junto da população e dos investidores.

“O PretaHub é o resultado de 18 anos de trabalho do Instituto Feira Preta no mapeamento, capacitação técnica e criativa, aceleração e incubação do empreendedorismo negro no Brasil. É um hub de criatividade e tendência pretas”, conclui Adriana Barbosa.

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