Entrevista/ “Portugal reúne condições para se tornar, num curto espaço de tempo, no nosso 4.º maior mercado na Europa”
“O design português, em particular, inspira-se nas características únicas do país: os seus abundantes recursos naturais (cortiça, cerâmica, etc.) e o saber-fazer artesanal, de âmbito local ou nacional. Com base nestes dois elementos, algumas marcas portuguesas conseguiram destacar-se e acreditamos que devem ser incentivadas e valorizadas”, afirma Claire Bacquart, cofundadora da Nedgis, plataforma francesa que acaba de chegar ao mercado português.
A Nedgis, plataforma francesa especializada em iluminação de design e peças de autor, acaba de entrar em Portugal, naquele que é mais um passo da sua estratégia de expansão no Sul da Europa. Fundada em França, a empresa reúne hoje milhares de referências de marcas e designers europeus e aproxima-se dos 20 milhões de euros de faturação.
Portugal, contudo, não é território desconhecido para a Nedgis. A plataforma já trabalha com várias marcas e criadores nacionais, entre os quais Oustao, Lobo, Luxcambra, Masamé, Studio O/M Light e Álvaro Siza, e vê no savoir-faire artesanal português, nos materiais locais e na crescente afirmação das marcas nacionais razões para aprofundar esta relação.
Em entrevista ao Link to Leaders, Claire Bacquart, cofundadora da Nedgis, explica por que razão a empresa escolheu agora Portugal e fala do papel que os designers portugueses podem desempenhar na expansão europeia da plataforma, e do impacto que a inteligência artificial poderá vir a ter na experiência de compra online de iluminação.
A Nedgis chega agora oficialmente a Portugal. Porquê Portugal e porquê neste momento?
Estamos presentes em França desde o início da nossa atividade. Há pouco menos de um ano e meio, iniciámos também a nossa atividade em Espanha. Pretendemos, assim, consolidar a nossa posição no Sul da Europa de uma forma mais abrangente.
Além disso, consideramos o mercado português bastante interessante, com boas perspetivas para o desenvolvimento de uma gama de produtos de elevada qualidade, com uma forte aposta na decoração e na inspiração. Por fim, temos assistido, nos últimos tempos, ao aparecimento de marcas portuguesas com uma presença cada vez mais forte, o que vem confirmar a nossa intuição.
Que peso esperam que Portugal venha a ter no negócio da Nedgis? Já definiram objetivos de vendas ou de crescimento para os primeiros dois ou três anos?
Acreditamos que Portugal reúne condições para se tornar, num curto espaço de tempo, no nosso 4.º maior mercado na Europa. Naturalmente, definimos objetivos específicos para o mercado português.
“(…) a empresa procurou desenvolver de forma equilibrada os negócios B2C e B2B, que considera complementares tanto ao nível dos públicos-alvo como dos modelos de serviço”.
A empresa tem vindo a crescer a um ritmo elevado e aproxima-se, segundo os dados que nos foram disponibilizados, dos 20 milhões de euros de faturação. O que está a impulsionar esse crescimento e até onde acreditam que a Nedgis pode chegar?
O crescimento da Nedgis tem sido impulsionado por uma estratégia assente em várias frentes. Desde o início, a empresa procurou desenvolver de forma equilibrada os negócios B2C e B2B, que considera complementares tanto ao nível dos públicos-alvo como dos modelos de serviço. Em paralelo, tem vindo a alargar e a renovar regularmente a oferta de produtos, procurando responder às necessidades dos clientes e, ao mesmo tempo, surpreendê-los e incentivar a recompra. A esta aposta junta-se a entrada numa nova categoria, a dos acessórios de design, nomeadamente casquilhos e interruptores, para além da iluminação, que continua a ser a principal área de atividade. A empresa está também a reforçar progressivamente a sua presença na Europa, com o objetivo de desenvolver novos mercados, mantendo uma atenção próxima às tendências e às necessidades do setor para identificar novas oportunidades de crescimento.
Portugal será essencialmente um mercado B2C ou veem maior potencial no segmento profissional, junto de arquitetos, designers de interiores, hotelaria e projetos imobiliários?
Para nós, o mercado português é simultaneamente um mercado B2C e B2B. A rede de arquitetos e designers de interiores é vasta e dinâmica. Por isso, queremos trabalhar em estreita colaboração com estes profissionais e estar atentos às suas necessidades, de forma a contribuir para o desenvolvimento e concretização dos seus projetos.
A Nedgis já trabalhava com várias marcas e designers portugueses antes desta entrada no mercado. O que descobriram no design português que vos levou a aprofundar esta relação?
A inovação no catálogo de produtos é um fator fundamental para nós. O design português, em particular, inspira-se nas características únicas do país: os seus abundantes recursos naturais (cortiça, cerâmica, etc.) e o saber-fazer artesanal, de âmbito local ou nacional.
Com base nestes dois elementos, algumas marcas portuguesas conseguiram destacar-se e acreditamos que devem ser incentivadas e valorizadas, dando-lhes maior visibilidade.
“A ideia é criar um espaço onde estejam representadas todas as formas e estilos de design, e onde a novidade e a surpresa sejam uma constante”
No catálogo encontramos nomes portugueses como Oustao, Lobo, Luxcambra, Masamé, Studio O/M Light e Álvaro Siza. Como é feita a escolha das marcas e dos designers que entram na plataforma?
Tenho de admitir que a nossa seleção é, em grande medida, bastante pessoal, embora seja orientada por alguns princípios fundamentais. Em primeiro lugar, escolhemos marcas que se distinguem dos restantes produtos que já disponibilizamos aos nossos clientes. A ideia é criar um espaço onde estejam representadas todas as formas e estilos de design, e onde a novidade e a surpresa sejam uma constante.
Em segundo lugar, prestamos sempre muita atenção à forma como os produtos são concebidos e produzidos, bem como ao saber-fazer artesanal envolvido, sempre que aplicável. Por fim, temos de gostar genuinamente dos próprios produtos. É importante que nos identifiquemos com a marca e com o seu ADN, e que tenhamos um carinho especial por alguns dos seus produtos.
Com a Oustao desenvolveram inclusivamente uma versão exclusiva da Coupo. Pretendem avançar para mais colaborações ou produtos exclusivos com designers portugueses?
Não temos planos previamente definidos e tudo é possível. Se encontrarmos uma marca na qual acreditamos e considerarmos que pode fazer sentido desenvolver um produto numa colaboração exclusiva, avançaremos nesse sentido… mas nada está decidido antecipadamente.
Portugal tem um conjunto crescente de pequenos estúdios e designers independentes. Pode a Nedgis funcionar também como uma porta de entrada para estes criadores chegarem a outros mercados europeus?
Em princípio, sim, claro. O primeiro passo é garantir que a marca está alinhada com os nossos valores, que gostamos dos seus produtos e que identificamos potencial de crescimento. Se estes critérios estiverem reunidos, então, porque não? Analisamos cada marca individualmente, caso a caso.
“(…) gerimos toda a nossa logística de princípio a fim, ou seja, não recorremos a dropshipping, o que nos permite acompanhar e controlar toda a relação com o cliente.”.
Com dezenas de milhares de referências disponíveis, existe um desafio evidente de curadoria. Como conseguem crescer em escala sem transformar a Nedgis apenas num grande marketplace de iluminação?
Não somos propriamente um marketplace: somos um retalhista. Isto significa que somos seletivos relativamente aos produtos que comercializamos. Se não gostarmos de um produto, não o vendemos no nosso site e não nos focamos na quantidade de produtos que temos em catálogo, pois damos prioridade à qualidade.
Significa também que gerimos toda a nossa logística do princípio ao fim, ou seja, não recorremos a dropshipping [modelo de venda online em que a sua loja funciona como intermediária entre os fornecedores e os compradores], o que nos permite acompanhar e controlar toda a relação com o cliente.
Poderá também ser necessário manter em stock determinados produtos. Todos estes fatores garantem que não crescemos de forma descontrolada nem a qualquer custo. A nossa filosofia está refletida tanto na nossa oferta de produtos como na qualidade do serviço.
Num mercado em que é possível comprar online iluminação em inúmeras plataformas, muitas delas competindo sobretudo pelo preço, qual é hoje a verdadeira vantagem competitiva da Nedgis?
A competitividade dos preços tornou-se, de facto, um fator relevante para muitos consumidores, mas está longe de ser o único critério de escolha. Atualmente, os clientes da Nedgis valorizam também a amplitude e a qualidade da oferta, que inclui, em alguns casos, produtos exclusivos e resulta de um processo de controlo de qualidade que a empresa considera diferenciador face a alguns concorrentes.
Outro fator é o modelo de entregas consolidadas, que permite reunir vários produtos numa única expedição, reduzindo a necessidade de múltiplas entregas e também o risco de danos, particularmente importante no caso das luminárias que são peças frequentemente frágeis. A isto junta-se o serviço de apoio ao cliente, disponível de segunda a sexta-feira para aconselhar e orientar os consumidores num processo de escolha que, no caso da iluminação, nem sempre é simples.
A Nedgis nasceu como um negócio digital, mas trabalha num setor em que ver a luz, os materiais e os objetos fisicamente continua a ter importância. Está nos planos criar em Portugal um showroom, uma equipa local ou algum outro tipo de presença física?
Não, de momento não temos planos para abrir um showroom em Portugal. Sabemos que é importante poder ver os produtos presencialmente, mas é sempre possível vê-los e encontrar inspiração em restaurantes, em casa de amigos ou nos showrooms das próprias marcas. Além disso, na nossa opinião, os showrooms das lojas de iluminação acabam muitas vezes por prejudicar a perceção dos produtos. Estão todos amontoados uns em cima dos outros e, no final, quase não se consegue ver nada!
Em última análise, as fotografias que mostram os produtos em ambientes reais permitem muitas vezes ter uma perceção muito melhor de como a luz ficará no espaço e da dimensão da peça. Além disso, como a nossa oferta é tão vasta, não nos é possível expor ou apresentar todo o nosso catálogo.
Depois de França e da expansão para outros mercados europeus, qual é a estratégia de internacionalização da Nedgis? Portugal é um destino específico ou faz parte de uma nova fase de expansão mais ampla?
A nossa estratégia de internacionalização baseia-se no potencial orgânico dos mercados que acompanhamos e analisamos regularmente. Esse potencial vai-se alterando ao longo do tempo e nós adaptamo-nos em conformidade.
“Estamos a explorar todas as possibilidades de utilização da IA que nos permitam trabalhar de forma mais eficiente ou acrescentar valor para os nossos clientes”.
Sendo a Nedgis uma empresa que nasceu do cruzamento entre design e digital, como estão as tecnologias como a inteligência artificial, a recomendação personalizada ou a visualização de interiores a transformar a forma como vendem iluminação online?
Estes pilares estão atualmente em desenvolvimento. Estamos a explorar todas as possibilidades de utilização da IA que nos permitam trabalhar de forma mais eficiente ou acrescentar valor para os clientes.
No entanto, estamos a testar e a voltar a testar exaustivamente todas estas novas aplicações, uma vez que qualquer utilização de IA deve ser sempre devidamente verificada e revista antes de ser implementada.
Onde gostaria que a Nedgis estivesse dentro de cinco anos e que papel poderá Portugal desempenhar nesse caminho?
Daqui a cinco anos, gostaríamos que a Nedgis tivesse em Portugal a mesma influência que tem em França, que o nosso site fosse a primeira escolha dos clientes portugueses e que fôssemos a referência no que diz respeito à iluminação de design. E isto… tanto em Portugal como em quaisquer outros mercados onde possamos vir a entrar entretanto.








