O tema está, sem dúvida, na ordem do dia. Relatos de atitudes politicamente não corretas e crimes cometidos há muito tempo e silenciados pelas vítimas anos a fio invadem persistentemente o nosso quotidiano.

Eu, como muitos portugueses, sinto-me desconfortável com a forma como esses temas têm sido tratados e com a informação e desinformação à volta dos mesmos.

Creio que a causa deste desconforto assenta em dois fatores: o primeiro resulta da facilidade com que é feita a acusação e, em consequência, o facto de o acusado ser de imediato julgado na praça pública; o segundo consiste no facto de que a preocupação desses “juízes improvisados” não é a de punir o crime cometido, mas sim o de ostracizar o acusado!

O caso mais mediático é o da “serial accusation” que gerou e, simultaneamente, foi consequência do movimento “Me Too”, com origem nos Estados Unidos. A existência de testemunhos contraditórios, de “ativistas” (mulheres mas também homens) que vieram, eles próprios, a ser acusados dos crimes que repudiavam nos outros, provocou alguma descredibilização do movimento como um todo e das acusações, mesmo as mais justas. Mas muitos dos outros casos que têm sido mediatizados revelam uma acusação pouco consistente, com divulgação só parcial de informação, sendo baseados em julgamentos apressados.

Ainda recentemente uma amiga minha, advogada, se queixava que o seu julgamento havia sido adiado, ao final de várias horas, por um caso urgente de um homem que estava em prisão preventiva há cerca de seis meses, acusado pela mulher de violência doméstica. Durante a sessão de julgamento a mulher terá afirmado que afinal não era verdade, que queria somente vingar-se dele. Não sei de qual das vezes a mulher mentiu, mas a verdade é que o homem esteve preso seis meses com base numa acusação tão pouco consistente que “caiu” na primeira sessão de tribunal e o homem foi libertado e voltou à casa considerada a “cena do crime”!

Há pouco tempo atrás, um famoso médico português, de proveta idade, foi injuriado publicamente e de forma quase consensual, por ter expressado sobre a homossexualidade uma visão diferente daquela que é hoje socialmente (politicamente) aceite. Visão essa que provavelmente foi sempre a dele e que, durante décadas e décadas da sua vida profissional, era geralmente aceite como científica…

Que haja contraditório, que se expresse publicamente repúdio pela afirmação de uma visão que, quem escreve e publica notícias, considera ultrapassada, eu entendo e louvo. Mas que se ponha em causa a qualidade profissional e cívica de um cirurgião que salvou muitas vidas e que teve um papel relevante na saúde pública e na criação de infraestruturas e condições para um bom funcionamento do Sistema Nacional de Saúde, já não é aceitável!

Da mesma forma, entendo e farei o que possa para que se julguem, nas respetivas instâncias judiciárias, aqueles que estão acusados de cometerem crimes de qualquer natureza e que, em consequência, sejam penalizados na medida do crime que cometeram e de acordo com o que a lei estabelece. Agora pugnar pela destruição da sua carreira profissional e destroçar a vida destas pessoas não me parece compreensível.

A verdade é que, infelizmente, é possível compreender, se pensarmos que essa é a via do exercício de poder de certos grupos de influência dentro da sociedade, apoiados pela onda massiva que é hoje a comunicação social. O termo “Quarto Poder” aplicado aos media tem mais de 230 anos, mas esse poder dos media nunca foi tão forte como na segunda década do século XXI. Anteriormente, influenciava decisões dos governos, “produzia” presidentes ou fazia cair políticos. Hoje compromete e, no limite, arrasa a carreira de figuras públicas (conceito muito difuso) ou, em muitos casos, de cidadãos comuns.

Infelizmente, o exercício do poder é muitas vezes errático, outras arbitrário, frequentemente violento e, quase sempre, ao serviço de interesses pessoais, sociais e económicos. Por isso é que assistimos, internacionalmente, a processos como os que acima referi, em que a intenção não é a de punir atores, produtores e realizadores com a pena adequada ao crime ou crimes cometidos no passado. O objetivo é o de impedir que continuem a trabalhar naquilo em que sempre foram bons, por vezes os melhores, é o de secar os apoios comerciais à sua atividade ou, mesmo, atirar ao tapete os seus negócios!

Em Portugal somos em geral menos radicais. Felizmente somos hoje um povo particularmente aberto à mudança e à diferença e adotamos com facilidade a inovação de produtos e ideias. Também nós aderimos em massa ao que é hoje tido como “politicamente correto”. Mas temos a nossa forma própria de interpretar alguns dos conceitos. De certa maneira somos mais ponderados, avaliamos a situação pelo seu todo e não nos prendemos aos tabus. Preferimos zelar pelo cumprimento da ética do que pelo cumprimento do conceito teórico do politicamente correto!

Se um empresário circense usa animais num espetáculo contra o que está estabelecido na lei, será certamente punido, é até possível que pague uma multa que sirva para financiar uma causa a favor dos animais, mas não se acabará com o seu circo.

Se um ator ou outro profissional português de grande gabarito cometeu um crime como uma violação, para nós é fundamental que seja punido e que o seja de maneira severa, de acordo com o estipulado legalmente. Mas quem cometeu um crime no passado não é, necessariamente, um criminoso no presente. E, se for esse o caso, então distinguimos muito bem a diferença entre punir pelo crime praticado e arruinar, no presente, a sua carreira profissional e pessoal!

Para mim, os casos a que acima aludo são uma metáfora poderosa do que se passa também dentro das nossas empresas. É frequente as empresas serem vítimas de colaboradores ou grupos internos que se focam em identificar, em determinados colegas, comportamentos menos desejáveis ou decisões que levaram a resultados desfavoráveis à empresa. Em geral, são pessoas ou grupos que procuram afastar a “concorrência interna” e os seus alvos são colaboradores de maior valor e cujas falhas muitas vezes resultam de um espírito inovador e empreendedor em prole da empresa.

Os bons líderes conseguem evitar cair nessa “esparrela” e para isso recusam processos persecutórios em que se condena um colaborador por um erro cometido, uma atitude menos positiva ou um comportamento danoso. Avaliam a situação globalmente, procuram encontrar a causa e medir os seus efeitos concretos. De seguida identificam o que deve ser feito para evitar que a situação se repita e, finalmente, decidem qual a pena a aplicar. Nesse processo ouvem, naturalmente, o visado e, no final, comunicam-lhe, cara a cara, a sanção respetiva. Julgam aquele ato em concreto, mas não julgam o colaborador pelo ato cometido! Evitam, assim, perder recursos de qualidade e nivelar os quadros da empresa por baixo.

É a isto que eu chamo “the portuguese way” e é esta, certamente, a opção que eu escolho.

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Miguel Henriques é um Business Angel português. Presidente da FNABA entre 2015 e 2017, é hoje vice-presidente do Clube de Business Angels de Lisboa e membro da Invicta Angels, do Porto. Integra três sociedades de investimento em projetos empresarias inovadores,... Ler Mais