No final de 2018, assistimos a um ano fabuloso do ponto de vista do empreendedorismo em Portugal. Criaram-se empresas, cresceram outras que haviam nascido recentemente e parece que estamos a viver algo substancialmente diferente no que respeita à forma de enfrentar os desafios empresariais: a atitude do empreendedor.

Aquelas personalidades que fizeram e fazem parte da nossa história empresarial e que se constituíram como os grandes impulsionadores e protagonistas no seu setor de atividade, desde a cortiça, à distribuição, moldes, vinhos, química, têxtil e tantos outros, conhecem hoje um conjunto de novos empreendedores que, como eles, têm uma visão holística do mercado e da vida empresarial.

Mas, ao invés do passado recente em que essa concentração assentava em poucas pessoas e famílias, hoje assistimos à proliferação de empresários que buscam oportunidade de negócio nos mais variados domínios. Outra grande diferença assenta no facto de jogarem num mercado totalmente aberto, no qual a competição vem de onde menos se espera, os graus de proteccionismo se esbatem e onde o mercado é o Mundo.

São pessoas que inovam, criam, testam, falham, falham e falham até acertar.

O mais marcante nesta nova geração de empreendedores, que aproveitam toda a dinâmica de um mundo digital cada vez mais globalizado, é a mudança de atitude face ao risco e uma total orientação para o cliente, em vez do foco exclusivo na margem. Até porque se sabe que concorrência é o que não falta em qualquer setor e as margens de qualquer negócio são, cada vez mais, fatores dinâmicos sujeitos a pressão.

O mundo digital permite-lhes abandonar o desígnio de um Portugal pequenino à beira-mar plantado e encarar a portugalidade como uma vantagem competitiva na abertura face ao mundo. Na verdade, os desafios empresariais do mundo de hoje não têm bandeira nem país. Não vivem do fado. Vivem de atitude, estratégia e partilha.

O exemplo da Web Summit é bem demonstrativo de uma nova dinâmica face ao mundo das oportunidades: sem protecionismos e com total abertura a novas culturas. Veja-se onde residem nos dias de hoje os centros de maior produtividade empresarial. Silicon Valley, Palo Alto, Los Gatos ou Cupertino, respetivamente sedes da Google, Facebook, Netflix ou Apple, estão na zona do mundo mais aberta a novas culturas: São Francisco.

Através desta nova atitude empresarial, os empresários portugueses devem aproveitar estes novos desafios para retirar a Europa do lugar terciário que ocupa em termos de criação de riqueza a nível mundial. De facto, a perda de protagonismo da Europa empresarial faz com que as suas marcas mais representativas ocupem cada vez menos lugar de relevo no contexto global.

Afinal o mundo do software conecta-se com IOS ou Android e ambos estão longe da Europa. No hardware não será diferente e a Oriente adivinham-se tsunamis empresariais capazes de lidar o mundo económico, sobretudo através da inteligência artificial.

O sistema europeu ainda tem grande falta de flexibilidade, tanta na adoção de diferentes fiscalidades ou regras bancárias, para não citar outros exemplos.

Mas há esperança e expetativa nesta nova geração empresarial, capaz de criar unicórnios (que valem mais do que mil milhões de dólares), como a Farfetch, a OutSystems ou a Talkdesk e dezenas de outras empresas que para lá caminham.

Trata-se da 1.ª geração de portugueses que nasceram cidadãos europeus.

Nunca Portugal foi tão do Mundo como nunca o Mundo procurou tanto Portugal!

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Sobre o autor

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Pedro Celeste é doutorado em Ciências Económicas e Empresariais pela Universidade Complutense de Madrid, Graduado pela Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management, de Chicago, e pelo IESE Business School, de Barcelona. Na Católica Lisbon School... Ler Mais