Para Rajan Sahay, que fundou em Portugal a Obrana, empresa do setor imobiliário, existe no nosso país demasiada burocracia e um setor público abrangente que estrangula a iniciativa privada e que leva os investidores internacionais a serem cautelosos.

Nasceu em 1967 na Costa Leste da Índia. Ainda novo, mudou-se para o Reino Unido, onde frequentou um colégio interno e depois a Universidade de Oxford, onde se licenciou em dois cursos. Começou o seu percurso profissional como consultor de gestão na área de fusões e aquisições. Mais tarde, Rajan Sahay rumou a Boston, onde fez consultoria de Marketing empresarial a grandes empresas como a AT&T, a Bell Canada ou a NCR.

Está em Portugal desde 1995, onde fundou o grupo Obrana, empresa de construção civil que opera em todas as frentes do setor imobiliário. É também fundador e presidente da Câmara de Comércio Luso-Índia. Ao Link To Leaders, o chairman do Obrana Group falou da sua experiência nos vários mercados onde exerce atividade como investidor.

É um empreendedor. Quais as principais lições aprendidas que partilha sobre como fazer acontecer?
Aprendi 3 valiosas lições em 25 anos de negócios. A primeira é nunca perder a sua estratégia de vista, mas ser flexível na forma de a implementar. É importante conseguir adaptar-se constantemente a um ambiente de negócios em mudança e incentivar aqueles que o rodeiam (colaboradores, parceiros, fornecedores) a fazerem o mesmo. A nossa geração vive num mundo que muda mais depressa do que em qualquer outro momento da história e em que acontecimentos externos (devido à globalização) geram um impacto contínuo na forma como as oportunidades e os riscos afetam as nossas vidas. Temos de estar atentos ao que está a acontecer à nossa volta e adaptarmo-nos em função disso.

A segunda lição é pensar em soluções e não em produto. No caso do meu negócio, o imobiliário, já não vendo propriedades, uma vez que estas são mercadorias, como o são as maçãs ou o cimento e estão disponíveis em todo o lado. O que vendo são soluções para pessoas que têm necessidades. A necessidade pode ser de residência (por exemplo, com os Golden Visa) ou uma otimização fiscal (por exemplo, a obtenção do estatuto de residente não habitual) ou uma casa de férias ou para investimento (rendimento garantido). No momento em que começar a vender produtos, todo o seu negócio se tornará num jogo de custos e, a menos que seja uma empresa de peso, acabará por ir à falência.
Por último, nunca tenha medo do fracasso.

Quais as principais diferenças ao nível do investimento e do way of doing business entre Portugal, o Reino Unido e a Índia?
Tenho trabalhado um pouco na Índia, no Médio Oriente, mas mais nos Estados Unidos, em Portugal e no Reino Unido. Assim, para responder a esta pergunta, precisaria de mais do que um parágrafo. O que posso dizer é que a principal diferença entre Portugal e os outros países em que tenho trabalhado é o ambiente empresarial. Portugal tem demasiada burocracia e um setor público tão abrangente que estrangula a iniciativa privada. O sistema legal é muito moroso e prejudicial, no que toca aos empresários, e que favorece os trabalhadores, devido ao facto da maioria dos juízes serem historicamente de esquerda.

Trata-se assim de um país em que só se consegue fazer as coisas acontecerem através de contactos locais e das chamadas “cunhas”. Trata-se de um pequeno país controlado por famílias de elite e por antigas redes de relações, pelo que, quando se trata de empresas estrangeiras, o melhor é manterem-se pequenas. Não é uma surpresa que em Portugal o investimento direto estrangeiro seja negativo e que, com exceção do mercado imobiliário, os investidores internacionais sejam muito cautelosos. Na região em que trabalho, todas as empresas estrangeiras entraram em processos de falência ou fecharam a atividade, exceto eu.

Já investiu em start-ups. O que leva em conta quando decide investir em determinada empresa e depois no acompanhar da equipa e do negócio?
É muito simples. Quando penso em investir numa start-up, tudo se resume a 20% sobre o que estão a vender e a 80% sobre as pessoas envolvidas. Se lidar com pessoas brilhantes, inovadoras e motivadas, a start-up deverá ser um sucesso.

É presidente da Câmara de Comércio Portugal-Índia. O que procura a Índia em Portugal? E o que deve Portugal procurar na Índia?
O melhor que Portugal tem para oferecer ao mundo é o turismo e, segundo, as residências. Portugal deveria ser a Flórida da Europa e a Suíça do mundo. Nisto o governo acertou, com a autorização de residência para atividade de investimento e com o estatuto de residente não habitual.

O que o faz continuar em Portugal e a investir no país?
Adoro o país e as pessoas. É o melhor lugar do mundo para se viver e é por isso que vou continuar a investir – e não por razões comerciais, embora seja otimista e espere que um dia as coisas melhorem.

É Portugal hoje um país propício ao empreendedorismo e ao nascimento e ao sediar de start-ups nacionais e internacionais?
Não. As leis são confusas, estão sempre a mudar e, às vezes, são mesmo contraditórias. As leis laborais estão ultrapassadas e deveriam estar num museu marxista. A burocracia vem direitinha de um romance do Kafka.

E ao nível do investimento? O que falta acontecer?
Criar incentivos, em vez de barreiras ao investimento estrangeiro.

 

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