O estudo divulgado ontem pela Boston Consulting Group, Google e Nova SBE sobre a maturidade digital do tecido empresarial português mostra a relação entre maturidade digital, produtividade e o nível salarial médio das empresas.

Realizado com base nas respostas de mais de mil empresas nacionais, o estudo “O Caminho para um Portugal Biónico: A maturidade digital do tecido empresarial em Portugal”, conhecido ontem, constata que Portugal está no segundo de quatro níveis de maturidade digital.

Publicado pela Boston Consulting Group (BCG), pela Google e pela Nova SBE, esta análise teve por base avaliar em que ponto está o digital das empresas portuguesas, e mostra alguns indicadores relevadores do estado em que se encontra o tecido empresarial nacional neste domínio.

É o caso do aumento do tráfego online no retalho alimentar (61%) e na banca (47%), entre o período pré e pós confinamento de março de 2020, que evidenciou o facto da pandemia ter exigido às empresas uma resposta rápida à mudança de hábitos dos consumidores que aderiam mais aos canais digitais.

De qualquer forma, Portugal ainda está longe do título de “Digital Leader”, índice da BCG para avaliar o estágio de maturidade digital do tecido económico de um país com base no nível atual e desejado de digitalização das suas empresas. Nesta fase, Portugal consolida-se como “Digital Literate”, abaixo da média europeia que está no patamar “Digital Performers”.

A forma como as organizações adotam as ferramentas digitais também diverge, com destaque para a correlação direta entre o tamanho das empresas e a sua maturidade digital, a par do setor de atividade. Assim, o estudo constata que as médias empresas lideram esta transformação, com 45 pontos.

As empresas dos setores de media, indústria alimentar, comércio (grossista e retalho), são as que dispersam nos estágios de maturidade. Já as que operam nos setores de IT, media, telecomunicações (TMT) e serviços lideram a digitalização. Por sua vez, os setores de TMT e hotelaria e turismo podem ser comparados com padrões internacionais, estando bem posicionados numa ótica de competitividade internacional, enquanto pelo contrário, a construção e as indústrias pesadas estão na cauda da maturidade digital.

De salientar, que o setor das instituições financeiras está 12 pontos abaixo da média dos seus pares europeus, o que o torna vulnerável à ameaça crescente de concorrência internacional, em particular aos nativos digitais que procurem entrar nestes mercados.

Digitalização, produtividade e salários
Destaque ainda para conclusão de que digitalização está diretamente relacionada com os níveis de produtividade e os salários médios das organizações. Apesar da vontade das empresas usarem o digital como motor das suas estratégias, o estudo alude ao facto de ainda existir alguma inércia na sua aplicação em algumas áreas relevantes, nomeadamente em funções de suporte, operações, oferta ao cliente e de abordagem a novos mercados.

Os salários médios também tendem a aumentar nas empresas digitalmente mais maduras, sendo que uma transição completa no estágio de maturidade está, estatisticamente, associada a um aumento de 37% do salário médio. Esta relação pode explicar-se pela aposta feita pelas empresas em capital humano mais qualificado, que lhes permita implementar com maior sucesso a transformação tecnológica.

O aumento do investimento na digitalização está também correlacionado com ganhos de maturidade digital. 65% das grandes empresas investem mais de 0,5% das suas receitas no digital e aquelas que aplicam mais de 2% têm, em média, mais 14 pontos de maturidade que as que investem abaixo desse valor. Isto mostra que as médias empresas, que apresentam uma maturidade mais avançada, têm trabalhado de forma mais eficiente, já que 60% investem mais de 0,5% das suas receitas. Já nas pequenas empresas, 60% investem menos de 0,1% das suas receitas.

Desafios a ultrapassar
O estudo “O Caminho para um Portugal Biónico: A maturidade digital do tecido empresarial em Portugal”, encontrou algumas lacunas estruturais nas médias e grandes empresas portuguesas, concretamente nos domínios da Indústria 4.0, das metodologias Agile e personalização, no marketing digital e governance. Juntam-se a estes itens a falta de literacia digital em algumas componentes da maturidade. Por exemplo, uma em cada cinco grandes empresas desconhece a sua realidade face à tecnologia IoT e 40% revelam desconhecer como o digital pode ser aplicado às suas operações de serviço.

Já as médias empresas têm de superar a definição e a priorização dos projetos certos para consolidar competências e motivar as pessoas para o digital enquanto nas pequenas empresas o entrave está na dificuldade em encontrar o pessoal e gestores de equipas com as competências necessárias.

Para o próximo ano, as empresas de média e grande dimensão destacam o marketing digital, a investigação & desenvolvimento de produto e a oferta de novos serviços e produtos digitais como áreas prioritárias.

Por sua vez, as indústrias metalúrgica e automóvel parecem estar conformadas com a posição que assumem na escala e o seu foco concentra-se nas dimensões que impactam a experiência do cliente. Entre as pequenas empresas, as relacionadas com Educação são as mais ambiciosas, por oposição às de saúde e retalho, já que nestas últimas o foco de melhoria está concentrado na digitalização da cadeia logística e no melhor e maior aproveitamento dos dados.

Ainda de acordo com o estudo, o processo de transformação deve ser orientado para maximizar as probabilidades de sucesso e é necessário assegurar a valorização das pessoas e adotar um modelo de transformação que permita a aprendizagem por experimentação, a monitorização do processo e consequente responsabilização sobre o progresso.

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