Opinião
O valor do tempo
Na vida e na gestão, o tempo é o recurso mais escasso. O dinheiro pode ser recuperado, o conhecimento adquirido e os negócios reconstruídos. O tempo, esse, apenas pode ser bem utilizado. Passamos anos a gerir dinheiro, carreiras e património. Creio que poucos dedicam o mesmo cuidado à gestão do único ativo que nunca poderá ser substituído: o tempo.
“O tempo é a substância de que sou feito”, Jorge Luís Borges
Tempo (s.m.) — A condição fundamental da existência; a dimensão em que a mudança acontece, a memória se constrói, a esperança se projeta e a consciência da vida se revela.
Há trinta anos, o meu tempo tinha um destino prioritário: construir uma carreira. O foco dessa fase da minha vida estava, inequivocamente, no seu desenvolvimento e acreditava convictamente (e o tempo veio dar-me razão) que a principal alavanca para o conseguir passava pela aquisição de conhecimento.
Conhecimento nas suas mais diversas vertentes: técnico (hard skills) e comportamental (soft skills); na construção de uma sólida rede de contactos; na diversificação dos setores de atividade em que trabalhei; e na exposição a diferentes realidades empresariais, sociais e culturais, proporcionada por múltiplos projetos internacionais.
Nessa altura, o meu tempo era investido quase exclusivamente em aprender, trabalhar, aproveitar oportunidades e progredir na carreira. Sobrava algum para a família e o lazer.
Alguns anos mais tarde, um novo objetivo passou naturalmente a ocupar espaço nas minhas prioridades: a estabilidade financeira. O conhecimento continuava a ser essencial, mas passou a coexistir com uma preocupação (e ambição) crescente em gerar rendimento, criar património e proporcionar melhores condições de vida à minha família.
Tratava-se de uma evolução natural e de uma sequência lógica: investir tempo para adquirir conhecimento; utilizar esse conhecimento para construir uma carreira e gerar rendimento; utilizar esse rendimento para criar estabilidade e conquistar maior liberdade de escolha.
Hoje, três décadas volvidas, continuo a gostar de aprender, continuo a sentir entusiasmo por novos desafios profissionais (não necessariamente idênticos aos do passado) e continuo a considerar importante a estabilidade financeira. Mas a forma como olho para o tempo mudou profundamente.
Com o avançar da idade, deixei de olhar para a vida apenas pelo caminho percorrido e passei a olhar também para aquele que ainda me resta percorrer. Essa consciência tornou-me mais seletivo e obrigou-me a refletir sobre aquilo que merece verdadeiramente o meu tempo, assim como a valorizar um recurso que diminui a cada dia que passa, sem possibilidade de reposição.
Ao contrário do capital financeiro, o tempo não pode ser recuperado, refinanciado ou multiplicado. Cada dia utilizado é um dia definitivamente gasto. Foi esta constatação que mais me marcou nos últimos meses. Aquilo que durante tantos anos considerei objetivos – conhecimento, carreira e estabilidade financeira – eram, afinal, instrumentos e não um fim. O verdadeiro fim era outro: conquistar a liberdade de decidir como utilizar o meu tempo.
Note-se que ter mais tempo disponível não significa trabalhar menos, nem ambicionar menos. Significa sim poder escolher melhor: os projetos que despertam entusiasmo, o tempo dedicado à família e aos amigos, o cuidado com a saúde, o descanso ou simplesmente momentos que durante anos foram adiados para “quando houvesse tempo”.
É curioso como passamos grande parte da nossa vida a trocar tempo por conhecimento, conhecimento por progresso profissional e progresso profissional por estabilidade financeira. Só mais tarde percebemos que aquilo que verdadeiramente procurávamos era a liberdade de utilizar o nosso tempo de forma consciente e alinhada com aquilo que realmente valorizamos.
Muitos dos momentos que mais contribuem para essa sensação de realização são também os mais simples: um almoço sem pressa, uma caminhada, uma conversa com um filho ou um livro lido sem interrupções. Experiências que não constam de nenhum currículo ou relatório de desempenho, mas que acabam por definir a qualidade da nossa vida.
Talvez seja essa uma das maiores lições que a vida nos oferece. O conhecimento amplia as nossas capacidades. O dinheiro amplia as nossas possibilidades. Mas só o tempo nos permite transformar capacidades e possibilidades em experiências, relações, memórias e legado.
A verdadeira medida de sucesso pode não resultar apenas daquilo que conseguimos conquistar ao longo da vida, mas também da liberdade de decidir como utilizamos o tempo que essas conquistas nos proporcionam.
Na vida e na gestão, o tempo é o recurso mais escasso. O dinheiro pode ser recuperado, o conhecimento adquirido e os negócios reconstruídos. O tempo, esse, apenas pode ser bem utilizado.
Passamos anos a gerir dinheiro, carreiras e património. Creio que poucos dedicam o mesmo cuidado à gestão do único ativo que nunca poderá ser substituído: o tempo.
Porque, no final, mais importante do que acumular conhecimento, dinheiro ou tempo, é dar significado à forma como escolhemos viver cada um dos nossos dias.








