“O segredo é a alma do negócio” é uma frase ainda hoje amplamente difundida entre várias pessoas, incluindo empreendedores. Traduz uma forma de pensamento e ação em que os empreendedores são “entendidos” como os grandes detentores das boas ideias e do conhecimento que vai revolucionar a comunidade (e mesmo o mundo) com uma solução tão inovadora, que até então não foi descoberta! E nesse sentido, é urgente guardar muito bem o “segredo” para que outros não cheguem primeiro!

Ora numa sociedade global e em rede como a que vivemos – em que os ambientes e as instituições ganham cada vez mais relevância pela densidade das suas redes sociais – será que faz sentido pensar e agir individualmente e de forma secreta? Mais: tendo em conta o número infindo de start-ups cujos negócios que desenvolvem pouco têm já que ver com a ideia que lhes deu origem, será que faz sentido continuar a pensar que uma boa ideia de negócio é gerada numa “garagem”, por dois ou três indivíduos que trabalham sozinhos arduamente, meses a fio, para colocar “de pé” uma ideia revolucionária?

Não pretendo, com este artigo, afirmar uma posição contrária a esta perspetiva, mas apenas evidenciar que é cada vez mais difícil agir de forma isolada no mundo altamente conectado e de evolução rápida em que vivemos. Tomemos como exemplo o caso da cidade de “Lisboa”, que foi recentemente eleita pela prestigiada sociedade de capital de risco Atomico uma das cidades mais atrativas da Europa para fundar start-ups, tal como divulgado pelo Dinheiro Vivo[1]. Mas, o que é que levou a cidade de Lisboa a ser agraciada com tão prestigiada condecoração? Em grande medida, a presença de tantas entidades e iniciativas ligadas ao empreendedorismo – desde incubadoras, business angels, cursos sobre “Como elaborar um bom plano de negócios”, conferências, “Concursos de Ideias de Negócio”, já para não falar da Web Summit – “The largest tech conference in the world”, que reúne desde empresas da Fortune 500 até às pequenas empresas de tecnologia – e que após dois anos consecutivos a realizar-se em Lisboa, vai manter-se na capital até 2028!

É esta ampla variedade de entidades e iniciativas que tem contribuído em muito para o desenvolvimento de um ecossistema empreendedor vibrante em Lisboa. O termo “ecossistema empreendedor” foi divulgado por Daniel Isenberg[2], professor de Empreendedorismo do Babson College, precisamente para evidenciar que as start-ups são criadas quando os empreendedores se encontram em ambientes onde coexistem entidades e instituições impulsionadoras do empreendedorismo, que facilitam a partilha de conhecimento e o acesso aos recursos humanos, financeiros e tecnológicos.

Mas o êxito de um ecossistema na promoção do empreendedorismo não se mede apenas pelo número de instituições ou iniciativas …, mas principalmente pela força (e densidade) das relações entre elas. Não basta ter incubadoras, business angels, investidores, potenciais parceiros, clusters da mesma área de negócio, universidades … é fundamental atender às redes de cooperação, às alianças e parcerias que se desenvolvem, pois é destas sinergias – desta partilha de know how, de recursos e de formas de ação – que nascem as soluções inovadoras, de alto valor-acrescentado, que estão na base dos negócios de largo sucesso! E neste contexto, a “confiança”, a “lealdade” ou a “reciprocidade” adquirem uma importância crucial! E estes valores tendem a emergir, apenas, do estabelecimento e cultivo de uma relação, da partilha de ideias, da discussão de diferentes perspetivas e soluções … que levam a formas de colaboração, alianças e à própria cumplicidade entre as pessoas e as instituições.

Em tom de síntese, é a condição de estar imbuído num ecossistema vibrante, densamente relacionado e cooperante que contribui em muito para o sucesso das start-ups. E neste sentido, a relação, a partilha e a cooperação (constantes) assumem-se cada vez mais como ferramentas estratégicas para criar start-ups inovadoras e capazes de responder às reais necessidades! Deste modo, mais do que continuar a pensar que “o segredo é a alma do negócio”, vale a pena começar a encarar que “a alma (do ecossistema e do próprio empreendedor) é que é o segredo do negócio”!

[1] Nunes, D. (2017). “Lisboa entre as cidades mais atrativas para fundar startups”. Dinheiro Vivo. Artigo publicado em 30.11.2017.
[2] Isenberg (2010). “How to Start an Entrepreneurial Revolution”. Harvard Business Review, June 2010.

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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Sobre o autor

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Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais