No início de 2020, havíamos acabado de anunciar o primeiro fecho do terceiro fundo da Mindset Ventures quando a pandemia se iniciou, dando forma a uma crise financeira. No meio de um novo cenário desafiador, grandes fundos de venture capital adotaram uma postura conservadora e optaram por congelar os seus investimentos temporariamente, forçando o mercado de venture capital a passar por um ajuste significativo de preços e abrindo portas para investirmos em companhias excecionais sob condições extremamente atrativas.

No entanto, essa janela de oportunidades perdurou por menos tempo do que esperávamos, dado que os valuations explodiram tão rapidamente quanto derreteram, o que pode ser explicado basicamente por duas razões. Primeiramente, tal como já nos deparamos inúmeras vezes em outros mercados, os investidores costumam superestimar tanto notícias positivas quanto negativas, algo que frequentemente se reflete na volatilidade de curto prazo dos preços das ações (assim como nos valuations de start-ups). Além disso, naquele momento específico, os fundos de venture capital que decidiram interromper provisoriamente os seus investimentos depararam-se, em alguns meses, com uma certa pressão para voltarem a alocar capital e cumprirem o prazo inicialmente estabelecido para finalizarem seus investimentos.

Com isso, entre os meses de recuperação da pandemia e o final de 2021, o mercado de venture capital bateu uma série de novos recordes de volume de investimento em diversas regiões, incluindo os EUA, Israel e Brasil, dando origem a uma única discussão: estaríamos a viver uma bolha? Alguns até mesmo afirmariam que a questão não seria se os valuations seriam justificáveis ou não, mas quando a bolha estouraria.

Em julho de 2021, a Forbes publicou um artigo expondo cinco razões pelas quais a dinâmica do mercado de venture capital supostamente continuaria a acelerar num caminho sem volta. Apesar de questionável de diversas formas (o momento atual é a mais pura prova disso), o artigo expõe logo no início a fala de um autor anónimo que resume perfeitamente o contexto que estávamos a viver naquele momento:

Não estávamos captando, até que um investidor antecipou a ronda e agora estamos levantando um Series A de US$ 15 milhões a US$ 150 milhões de valuation com praticamente nenhuma geração de receita. Já temos excesso de procura e planeámos encerrar a ronda até o final da semana”.

No entanto, tamanha euforia não perdurou por muito tempo. No final de 2021, começamos a notar os primeiros sinais de mais uma desaceleração.

As oportunidades estão nas conturbações

Até ao final de 2021, na nossa perceção, os preços estavam abusivos sem qualquer aparente razão além do fato de que a disponibilidade excessiva de capital para investimentos os estava esticando. Encontrar boas empresas para investir não tem sido problema para nós há um bom tempo, mas, contrariamente ao que vivemos há pouco mais de um ano, as boas oportunidades tornaram-se escassas devido aos preços elevados. Com isso em mente, decidimos desacelerar o nosso ritmo de investimento, procurando entender quando um ajuste geral de preços ocorreria novamente.

 

Não demorou para que surgissem os primeiros sinais de que um novo ajuste estaria por vir. Com o aumento de juros dos EUA após um longo hiato, as consequências macroeconómicas da guerra na Ucrânia a começarem a surgir e a inflação a atingir níveis substancialmente mais altos ao redor do mundo, o mercado entrou numa espiral descendente penalizando bigtechs de capital aberto antes de quaisquer outras empresas de tecnologia, atingindo start-ups late-stage num segundo momento e deixando as empresas early-stage para o final.

Face a essas circunstâncias, o mercado foi inundado com notícias  negativas: a CNBC afirmou que “os bons momentos chegaram ao fim” no início deste ano, o Crunchbase News expondo o fato de que os investimentos vindos de fundos de venture capital caíram pela primeira vez em um ano e o Tiger Global declarando a perda de 70% de tudo o que acumulou nos últimos 21 anos.

Friamente analisando o impacto da crise atual nos valuations, podemos verificar que os preços no mercado acionário foram claramente em grande parte ajustados e que os valuations de empresas late-stage também sofreram um grande corte. Valuations de start-ups early-stage, no entanto, acabaram de começar a sofrer pequenos cortes, ainda restando muito espaço para maiores correções.

De acordo com a Carta, as rondas Series C do 1T22 levantaram, em média, 23% menos recursos quando comparadas ao 4T21, uma clara consequência do contexto atual. As rondas Series A e B foram menos afetadas até ao momento, mas não nos surpreenderemos em ver um maior impacto a ser gerado num futuro breve.
Mais uma vez, os investidores começaram a ganhar poder de barganha nas negociações em função da falta de capital disponível para empreendedores neste momento. Como exemplo disso, Kyle Stanford, do Pitchbook, recentemente indicou que mais proteções a favor dos investidores devem voltar a tornar-se relativamente comuns nos contratos de investimento antes que rondas captadas a valuations depreciados passem a ocorrer mais frequentemente.

Este cenário apresenta diversas similaridades com o contexto pós-pandémico que descrevemos no início deste artigo, sendo ele o momento perfeito que investidores deveriam buscam para investimentos de longo-prazo. Como explicamos anteriormente, naquela ocasião conseguimos acesso a oportunidades excecionais cujos resultados já começaram a surgir em menos de dois anos após os investimentos iniciais. Dado que o mercado já começou a, mais uma vez, favorecer novos investimentos, demos início à captação do nosso quarto fundo para rapidamente aproveitar o momento de mercado oportuno.

Curando as feridas

Em episódios nos quais a volatilidade baliza os preços, alguns investidores entram em pânico e esquecem-se do caráter cíclico do mercado e que, em algum momento, ele voltará a entrar nos trilhos. Da mesma forma, a fase conturbada pela qual estamos a passar talvez demore para passar, mas eventualmente chegará ao fim.

Conforme mencionei anteriormente, os fundos de venture capital precisam lidar com um extenso conjunto de variáveis simultaneamente, sendo duas delas a disponibilidade de capital para investimentos e o prazo do fundo. Atualmente, aparentemente a maioria dos fundos (principalmente aqueles limitados a certos tipos de ronda ou tickets de investimento mínimo por ronda) está apreensivo em investir, esperando o mercado apresentar os seus primeiros sinais de recuperação para retomar a atividade. Da mesma forma que ocorreu durante a pandemia, não nos surpreenderemos em observar uma quantidade excessiva de capital sendo investida num intervalo curto de tempo em algum momento devido à pressão da aproximação do prazo final dos fundos, artificialmente esticando os preços para cima novamente.

O Pitchbook apontou uma quantidade recorde de captação de recursos de investidores no 1T22 (fazendo referências no NVCA Venture Monitor do 1T22 de que “muito do compromisso fechado no 1T22 a esses fundos provavelmente foi captado durante o boom de 2021”), a qual deve ser investida ao longo dos próximos anos após essa insegurança desaparecer.

A Mindset Ventures tem-se preparado para lidar com este cenário há algum tempo. Com um processo de investimento robusto implementado e inúmeras boas oportunidades de investimento a preços razoáveis na iminência de surgirem nos próximos meses, estamos ansiosos para voltarmos a investir!

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Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é... Ler Mais