Opinião

O maior risco da IA? Ficar parado

Pedro Rocha e Silva, Managing-Diretor da LHH | DBM Portugal
Foto: Pedro Rocha e Silva

A crescente presença da Inteligência Artificial nas organizações está a expor um fenómeno recorrente na história empresarial: o medo do desconhecido.

Apesar da abundância de informação, casos de uso e evidência de impacto, muitas empresas continuam a adotar uma postura cautelosa — e, em muitos casos, excessivamente passiva — face a esta transformação.

Este comportamento não resulta necessariamente de falta de visão estratégica, mas sim de uma combinação de incerteza, risco percebido e ausência de referências internas claras. A IA representa uma mudança estrutural, não apenas tecnológica. Ao contrário de outras ferramentas, tem o potencial de redesenhar funções, alterar cadeias de valor e introduzir novos modelos de decisão. Perante esta amplitude, é natural que surja hesitação.

No entanto, essa hesitação tem custos. Num contexto competitivo cada vez mais acelerado, a inação tende a traduzir-se em perda de relevância. As organizações que optam por “esperar para ver” acabam frequentemente por reagir demasiado tarde, quando os seus concorrentes já consolidaram aprendizagens, capacidades internas e vantagens operacionais.

O medo do desconhecido manifesta-se de forma transversal. Está presente nas lideranças, que questionam o retorno dos investimentos, e nos colaboradores, que receiam a obsolescência das suas competências. Este clima de incerteza é frequentemente agravado pela ausência de uma narrativa clara sobre o papel da IA na organização — o que se pretende fazer, porquê e com que impacto real nas pessoas.

É aqui que a liderança assume um papel crítico. Mais do que especialistas técnicos, os líderes devem ser intérpretes da mudança. Cabe-lhes transformar um conceito abstrato numa agenda concreta, enquadrando a IA como uma ferramenta de criação de valor e não apenas como uma ameaça potencial. Isso implica comunicação transparente, envolvimento das equipas e, sobretudo, a criação de uma cultura onde experimentar não é penalizado, mas incentivado.

As organizações que estão a progredir neste domínio partilham uma característica essencial: adotam uma abordagem ativa e progressiva. Em vez de procurarem soluções definitivas, avançam com projetos-piloto, testam hipóteses e constroem conhecimento interno. Esta dinâmica permite reduzir a incerteza e transformar o desconhecido em experiência acumulada.

No campo da gestão de talento, o desafio é igualmente evidente. A IA está a redefinir perfis profissionais e a exigir novas competências, desde literacia digital até pensamento crítico e adaptabilidade. Empresas que permanecem passivas arriscam-se a enfrentar lacunas difíceis de colmatar, enquanto aquelas que investem em requalificação posicionam-se de forma mais sustentável.

No final, o verdadeiro desafio não reside na tecnologia, mas na capacidade de a integrar culturalmente. Superar o medo do desconhecido exige liderança, intencionalidade e ação. Num momento em que a mudança deixou de ser opcional, a passividade pode ser o maior risco estratégico.

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Pedro Rocha e Silva

Pedro Rocha e Silva

Pedro Rocha e Silva é atualmente o Managing Director da LHH|DBM Portugal. Licenciado em Organização e Gestão de Empresas, pelo ISCTE, iniciou a sua carreira na Andersen Consulting, tendo mais tarde passado por empresas como a Watson Wyatt, Portugal Telecom, Heidrick&Struggles e Neves de Almeida HR Consulting. Desenvolveu maioritariamente a sua carreira na área de Recursos Humanos, com uma experiência relevante nas temáticas de Executive Search, Talent Assessment, Leadership Advisory, Políticas de Remuneração, Modelos de Avaliação de Desempenho e Carreiras,... Ler Mais..

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