Entrevista/ “O maior desafio já não está na tecnologia, está na forma como as empresas a implementam e integram no negócio”
“A transformação exige mudança organizacional. Não basta implementar tecnologia, é necessário alinhar equipas, desenvolver competências e criar uma cultura que permita evoluir de forma contínua. No fundo, as empresas que vão conseguir destacar-se não são as que adotam mais tecnologia, mas as que conseguem executá-la melhor”, afirma Nuno Figueiredo, Partner e Managing Director da valantic.
Num contexto empresarial cada vez mais exigente, marcado pela aceleração da transformação digital e pela crescente maturidade da inteligência artificial, as empresas enfrentam o desafio de passar da experimentação à criação de valor real. É neste cenário que a valantic tem vindo a reforçar o seu posicionamento, apostando na integração entre tecnologia, processos e talento.
Em entrevista ao Link to Leaders, Nuno Figueiredo, Partner e Managing Director da valantic, explica como a empresa – que resultou da fusão da Ábaco Consulting e da alemã Valantic – tem evoluído nos últimos anos, quais os setores que estão a liderar a transformação e de que forma tendências como a inteligência artificial, a cloud ou a chamada “twin transformation” estão a redefinir prioridades. O responsável destaca ainda os principais desafios que persistem nas empresas e a importância de alinhar tecnologia com impacto real no negócio.
Qual tem sido o seu maior foco na evolução da valantic nos últimos anos?
O nosso foco tem sido preparar a organização para responder a um contexto cada vez mais exigente, onde a velocidade de decisão e a capacidade de adaptação são críticas. Isso traduz-se, desde logo, numa aposta clara na inteligência artificial e na transformação digital com impacto real. Temos vindo a trabalhar com os nossos clientes para passar da experimentação para a aplicação prática da IA, seja na otimização de operações, na supply chain ou na tomada de decisão.
Em paralelo, há um investimento muito forte nas pessoas. Acreditamos que não há transformação sem equipas preparadas, e por isso temos reforçado a formação contínua, a requalificação e a criação de uma cultura de aprendizagem dentro da organização.
Outro eixo importante tem sido o reforço da nossa especialização setorial. Para além das áreas onde já temos uma presença consolidada, como indústria, retalho e construção, temos vindo a expandir e aprofundar a nossa atuação em setores com elevado potencial de transformação, onde a digitalização pode gerar ganhos significativos de eficiência.
“No fundo, o que estamos a assistir é a uma convergência entre digitalização e sustentabilidade, a chamada “twin transformation”, que está a orientar o investimento das empresas (…)”.
Quais são os principais setores e mercados em que a valantic tem vindo a crescer nos últimos anos?
Nos últimos anos, a valantic, a nível global, tem registado um crescimento muito sólido, impulsionado pela expansão da sua atividade e pelo reforço contínuo das suas competências e oferta. Em Portugal, e focando-me mais na operação SAP temos vindo a crescer, sobretudo, em áreas onde a transformação digital deixou de ser opcional. A indústria continua a ser um dos principais motores, com um foco muito forte em automação, indústria 4.0 e otimização da cadeia de valor. O setor automóvel mantém-se igualmente relevante, pela exigência em termos de eficiência e conformidade.
Ao mesmo tempo, temos visto uma aceleração clara em áreas como o retalho e bens de consumo, impulsionadas pela evolução do e-commerce e da experiência do cliente, e em transportes e logística, onde a pressão sobre as cadeias de abastecimento tem vindo a intensificar-se. Destacaria também o crescimento em setores como engenharia e construção, que estão a entrar numa fase mais concreta de digitalização (em breve anunciaremos uma parceira num produto inovador neste setor), e em energia e indústria alimentar, onde eficiência, sustentabilidade e capacidade de adaptação são cada vez mais críticas.
Em paralelo, há áreas tecnológicas que têm claramente liderado este crescimento. A cloud continua a ser uma prioridade para muitas organizações, pela flexibilidade e escalabilidade que permite, e vemos uma forte aceleração na adoção de inteligência artificial aplicada a casos reais de negócio. No fundo, o que estamos a assistir é a uma convergência entre digitalização e sustentabilidade, a chamada “twin transformation”, que está a orientar o investimento das empresas e a definir as prioridades nos próximos anos.
Qual considera que é o diferencial da valantic em relação a outras consultoras de transformação digital?
O nosso diferencial está na forma como combinamos tecnologia, conhecimento de processo e proximidade ao cliente. Temos uma base muito sólida no ecossistema SAP, mas aquilo que nos distingue não é apenas a componente técnica, é a capacidade de perceber o negócio e traduzir isso em soluções que funcionam no terreno. Não fazemos projetos isolados, trabalhamos com os clientes numa lógica de parceria e de continuidade.
Outro ponto importante é a nossa experiência acumulada. A valantic Portugal (SAP) resulta da integração de várias empresas com forte especialização, como foi o caso da Abaco, e isso permite-nos ter equipas com um conhecimento muito profundo em setores específicos, desde a indústria ao retalho ou à logística.
“(…) queremos reforçar a nossa especialização setorial, acompanhando de forma cada vez mais próxima indústrias-chave como a indústria, o retalho, a logística ou a construção”.
Como define a missão da empresa para os próximos 3–5 anos?
Diria que a nossa missão para os próximos anos é clara: queremos estar entre os parceiros de referência na transformação digital na Europa, reconhecidos não apenas pela tecnologia que implementamos, mas pelo impacto real que ajudamos a gerar nos nossos clientes. Para lá chegar, vamos continuar a apostar fortemente em áreas como inteligência artificial, cloud e analítica, que estão a redefinir a forma como as empresas operam e tomam decisões. Mas, mais do que tecnologia, o foco estará sempre na forma como esta é aplicada, com impacto direto na eficiência, na agilidade e na experiência do cliente.
Ao mesmo tempo, queremos reforçar a nossa especialização setorial, acompanhando de forma cada vez mais próxima indústrias-chave como a indústria, o retalho, a logística ou a construção, onde existe um enorme potencial de transformação. Outro eixo crítico será o talento. Acreditamos que o crescimento sustentável passa pela capacidade de atrair, desenvolver e reter pessoas com competências diferenciadoras, promovendo uma cultura de aprendizagem contínua e de responsabilidade.
No fundo, daqui a 3 a 5 anos queremos ser vistos como um parceiro estratégico indispensável, alguém que não só acompanha a transformação das empresas, mas que ajuda a defini-la.
A transformação digital tornou-se essencial para muitas empresas. Quais são, na sua opinião, os principais desafios que ainda existem neste processo?
Hoje, o maior desafio já não está na tecnologia, está na forma como as empresas a implementam e integram no negócio. Continuamos a ver muitas organizações a investir em transformação digital sem uma base sólida. Falta clareza nos processos, falta integração entre sistemas e, muitas vezes, falta uma estratégia de dados consistente. Isso acaba por comprometer o impacto real da tecnologia.
Outro desafio importante é a passagem da experimentação para a escala. Tecnologias como a inteligência artificial já provaram o seu valor, mas muitas empresas ainda estão numa fase piloto. O verdadeiro desafio está em incorporá-las no dia a dia da operação, de forma estruturada e com impacto mensurável. A gestão da informação é também crítica: os dados existem, mas continuam muitas vezes dispersos, sem qualidade ou sem governança, o que dificulta a tomada de decisão. Transformar dados em valor continua a ser um dos grandes desafios das organizações.
E, finalmente, há um tema estrutural: a transformação exige mudança organizacional. Não basta implementar tecnologia, é necessário alinhar equipas, desenvolver competências e criar uma cultura que permita evoluir de forma contínua. No fundo, as empresas que vão conseguir destacar-se não são as que adotam mais tecnologia, mas as que conseguem executá-la melhor.
“Já vemos empresas a gerar valor concreto com IA, seja na automação de processos, na análise de dados ou na tomada de decisão”.
Que tendências tecnológicas estão a moldar o futuro da valantic e dos seus clientes?
Há um conjunto de tendências que estão claramente a moldar o futuro, na prática, estão cada vez mais interligadas: inteligência artificial, cloud e cibersegurança. A inteligência artificial é, provavelmente, a mais visível. Mas o que mudou recentemente foi o seu grau de maturidade, deixou de ser uma promessa e passou a ser uma tecnologia com impacto real no negócio. Já vemos empresas a gerar valor concreto com IA, seja na automação de processos, na análise de dados ou na tomada de decisão.
A cloud continua a ser a base de tudo isto. Hoje, é praticamente incontornável para qualquer organização que queira ganhar agilidade e capacidade de inovação. Num estudo recente da valantic Portugal (SAP), desenvolvido com o Handelsblatt Research Institute, cerca de 80% dos decisores consideram que a cloud terá um papel decisivo no sucesso das empresas nos próximos cinco anos. E isso está muito ligado à capacidade de integrar novas tecnologias, como a própria IA.
Ao mesmo tempo, há uma tendência muito clara para a “twin transformation”. As empresas estão cada vez mais pressionadas para serem eficientes, mas também responsáveis, e a tecnologia tem um papel central nessa equação. Outro tema que ganha relevância é a cibersegurança. À medida que as organizações se tornam mais digitais, a proteção de dados e de infraestruturas passa a ser um elemento crítico, não apenas técnico, mas estratégico.
Por fim, destacaria a automação inteligente e a personalização da experiência do cliente. A capacidade de usar dados em tempo real para automatizar processos e adaptar a interação com o cliente está a tornar-se um fator diferenciador em praticamente todos os setores. No fundo, o que estamos a assistir não é a uma tendência isolada, mas a uma transformação estrutural. Tecnologias que antes estavam separadas estão agora a convergir para criar organizações mais inteligentes, mais ágeis e mais orientadas por dados.
De que forma a valantic incorpora inteligência artificial, automação e análise de dados nas soluções que desenvolve para os clientes?
A inteligência artificial e a análise de dados são integradas nos sistemas core, muitas vezes no ecossistema SAP, para suportar decisões mais rápidas, prever cenários e identificar oportunidades de melhoria. Já é possível, por exemplo, usar IA para antecipar procura ou otimizar operações com base em dados em tempo real.
A automação entra, sobretudo, na eliminação de tarefas repetitivas e na simplificação de processos, libertando as equipas para atividades de maior valor. Plataformas como o SAP BTP permitem precisamente ligar dados, aplicações e IA numa lógica integrada, tornando tudo isto escalável. No fundo, o nosso papel é transformar estas tecnologias em soluções operacionais não como projetos isolados, mas como parte do dia a dia das empresas.
Existe alguma inovação ou projeto recente da valantic de que se sinta especialmente orgulhoso?
Temos vindo a desenvolver vários projetos muito interessantes, sobretudo na interseção entre dados, inteligência artificial e transformação de processos core. Mais do que destacar um caso específico, o que me deixa particularmente satisfeito é a nossa capacidade de ajudar clientes a dar passos concretos em projetos complexos, desde a modernização de sistemas com SAP S/4HANA até à criação de bases de dados integradas que permitem tirar partido da inteligência artificial de forma consistente.
Também temos vindo a reforçar o nosso posicionamento em soluções orientadas a dados e IA, incluindo parcerias e novas plataformas que permitem às empresas tomar decisões mais informadas e automatizadas em tempo real.
No fundo, o orgulho não está apenas num projeto em particular, mas na consistência com que conseguimos transformar tecnologia em resultados concretos para os nossos clientes. Por isso, posso dizer que sinto é muito orgulho no crescimento dos nossos clientes, porque essa é a face mais visivel do nosso trabalho.
Pode partilhar um caso de sucesso que ilustre a capacidade da valantic em transformar digitalmente uma organização?
Temos vários exemplos em diferentes setores, mas um padrão comum é ajudar empresas a modernizar os seus sistemas e a ganhar controlo sobre os seus dados e processos.
Eu destacaria dois casos de sucesso, em particular. Um mais genérico que se aplica ao setor da construção. Quando iniciamos a nossa jornada neste sector encontramos empresas que sabiam se uma obra dava lucro ou prejuízo passados meses da obra terminar, ou seja sem possibilidade de atuar. Hoje conseguimos que estas mesmas empresas tenham esta percepção quase imediata e, consequentemente, fazer correções se estas forem necessárias. Coincidência ou não, resistiram com muita solidez às várias crises e hoje estão quase todas no top 15 deste sector em Portugal.
Outro caso de sucesso tem a ver com uma empresa em particular que há mais de 10 anos tinha um volume de negócios de 80M€ e que iniciou, nessa altura, uma jornada de tranformação digital com a Abaco (atualmente valantic Portugal (SAP)). Passados estes anos todos continuamos parceiros de negócio e falamos de um grupo que hoje fatura perto de 1 bilião de Euros. Sei que o mérito é toda da equipa de gestão dessa empresa, mas estou certo que os sistemas de informação nunca foram entrave ao seu crescimento, nomeadamente na diversificação de sectores de negócio e/ou internacionalização, antes pelo contrário, terão sido aceleradores.
No fundo, mais do que casos isolados, o que estes exemplos mostram é a nossa capacidade de transformar tecnologia em eficiência operacional, melhor decisão e maior agilidade para o negócio.
“A adoção de tecnologias como IoT, inteligência artificial e análise em tempo real está a transformar fábricas em ambientes cada vez mais inteligentes e orientados por dados”.
Que setores têm maior potencial de crescimento em termos de transformação digital?
Há vários setores com elevado potencial, mas alguns destacam-se claramente pelo nível de pressão e oportunidade que estão a viver.A indústria continua a ser um dos principais motores. A adoção de tecnologias como IoT, inteligência artificial e análise em tempo real está a transformar fábricas em ambientes cada vez mais inteligentes e orientados por dados. Além disso, é um mercado com forte crescimento, impulsionado pela necessidade de eficiência e competitividade.
Outro setor com enorme potencial, e ainda numa fase relativamente inicial, é a engenharia e construção. Trata-se de uma área historicamente menos digital, mas que está agora a acelerar a adoção de tecnologias como IA, digital twins e automação, com impacto direto na produtividade e sustentabilidade.
A logística e a supply chain também continuam a evoluir rapidamente, muito pressionadas pela volatilidade dos mercados e pela necessidade de maior visibilidade e resiliência. Aqui, a digitalização deixou de ser uma vantagem competitiva para passar a ser um requisito básico.
No retalho e bens de consumo, o foco está cada vez mais na personalização e na experiência do cliente, com forte uso de dados e inteligência artificial para antecipar comportamentos e adaptar a oferta.
Mas, mais do que identificar setores, diria que o maior potencial está nas organizações que conseguem ligar tecnologia, dados e processos de forma integrada. É isso que, na prática, está a diferenciar quem lidera de quem está apenas a acompanhar.
No fundo, os setores com maior potencial são aqueles onde coexistem três fatores: elevada complexidade operacional, pressão para eficiência e necessidade de adaptação rápida e isso hoje abrange grande parte da economia.
Como descreve a cultura organizacional da valantic?
A cultura da valantic Portugal (SAP) é, acima de tudo, uma cultura muito orientada a pessoas, responsabilidade e aprendizagem contínua. É um ambiente onde existe uma forte proximidade entre equipas e liderança, com base em confiança, comunicação aberta e partilha de conhecimento. Valorizamos muito a autonomia e a capacidade de cada pessoa assumir responsabilidade, num modelo menos hierárquico e mais colaborativo.
Ao mesmo tempo, há uma aposta clara no desenvolvimento contínuo. Incentivamos a aprendizagem, a evolução de carreira e até a reconversão profissional, porque acreditamos que o crescimento da organização está diretamente ligado ao crescimento das pessoas.
Outro ponto importante é o equilíbrio entre exigência e ambiente de trabalho. Trabalhamos em projetos desafiantes, mas procuramos criar um contexto onde as pessoas se sintam valorizadas, ouvidas e parte de um propósito comum.
No fundo, é uma cultura que combina ambição e proximidade, orientada para resultados, mas construída com base nas pessoas e na sua capacidade de fazer a diferença. E isso acontece muitas vezes em contextos internacionais, com projetos e clientes em diferentes mercados, o que desafia constantemente as equipas e acelera o seu crescimento.
“Procuramos pessoas com sentido de responsabilidade e capacidade de execução, que não ficam apenas na estratégia, mas que fazem acontecer”.
Que características procura numa equipa de liderança ou em colaboradores chave?
Procuramos pessoas com sentido de responsabilidade e capacidade de execução, que não ficam apenas na estratégia, mas que fazem acontecer. Valorizamos, também, a capacidade de trabalhar em equipa e de assumir liderança de forma distribuída. Na valantic Portugal (SAP), acreditamos que a liderança não está só no topo, cada pessoa deve ter autonomia e assumir responsabilidade no seu contexto.
Por fim, diria que a adaptabilidade e a vontade de aprender são críticas. Estamos num mercado de mudança constante, e quem faz a diferença são as pessoas que conseguem evoluir e ajudar os outros a evoluir também.
Qual foi a maior aprendizagem da sua carreira que aplica no dia a dia da valantic?
Acho que a maior aprendizagem, feita ao longo de mais de 20 anos, é que na venda de serviços o que realmente importa não é a tecnologia em si, mas o valor que ela cria para o cliente. Falar de ferramentas, arquiteturas ou “buzzwords” técnicas raramente convence alguém. O que faz a diferença é conseguir traduzir tudo isso em impacto concreto: como é que este projeto vai aumentar receitas, reduzir custos, mitigar riscos ou melhorar a experiência dos utilizadores.
Na valantic Portugal (SAP), procuramos sempre começar pelas necessidades de negócio do cliente e só depois pela solução tecnológica. Isso significa fazer boas perguntas, ouvir ativamente e construir propostas em que o foco está em resultados mensuráveis e casos de uso claros, em vez de listas de funcionalidades. Esta mudança de foco — de “vender tecnologia” para “entregar valor” — é hoje a base da forma como a valantic Portugal (SAP) se posiciona no mercado.








