Entrevista/ “O líder do futuro terá de ser alguém capaz de interpretar contextos, inspirar equipas, gerir dilemas éticos e criar confiança”
“Quanto mais inteligência artificial existir nas organizações, mais inteligência humana será necessária na liderança”, afirma Filipe Vaz, diretor-geral e fundador da Tema Central, organizadora do Leadership Summit Portugal que este ano vai debater o “After Tomorrow”.
Marcada para 24 deste mês, a Leadership Summit Portugal assinala a décima edição com o debate em torno de um tema que não podia estar mais na ordem do dia, “After Tomorrow – Leading the New Era of Mind, Machine and Meaning”. Filipe Vaz, diretor-geral e fundador da Tema Central, entidade responsável pela organização do evento, passa em revista o que mudou ao longo dos últimos no panorama nacional ao nível da gestão, da liderança e da tecnologia.
A Leadership Summit Portugal chega este ano à 10.ª edição. Quando olha para a primeira edição e para o caminho percorrido até aqui, o que mais mudou na forma como falamos e pensamos sobre liderança?
Mudou sobretudo a consciência de que a liderança deixou de ser uma competência associada apenas à gestão ou à autoridade. Hoje percebemos que liderar significa criar contexto, mobilizar pessoas e gerar confiança num ambiente de mudança permanente. Há dez anos falávamos muito de eficiência, desempenho e estratégia. Hoje continuamos a falar desses temas, mas acrescentámos outros que passaram a ser incontornáveis: propósito, ética, sustentabilidade, diversidade, bem-estar e tecnologia. A liderança tornou-se mais exigente porque o mundo se tornou mais complexo.
“A velocidade da inovação (…) obriga-nos a pensar para além do imediato”.
“After Tomorrow – Leading the New Era of Mind, Machine and Meaning” é o tema escolhido para esta edição. Porque sentiram que este era o momento certo para olhar para o “depois do amanhã”?
Porque deixámos de viver um tempo em que podíamos preparar-nos apenas para o futuro próximo. A velocidade da inovação, sobretudo impulsionada pela inteligência artificial, obriga-nos a pensar para além do imediato. “After Tomorrow” é um convite para antecipar o que ainda não existe, questionar modelos instalados e refletir sobre o tipo de sociedade e de organizações que queremos construir. Não basta acompanhar a mudança, é preciso participar ativamente na sua construção.
A Inteligência Artificial está a transformar processos, profissões e modelos de negócio. Mas está também a mudar aquilo que se espera de um líder? Que competências humanas ganham maior importância à medida que a tecnologia assume um papel crescente nas organizações?
Quanto mais inteligência artificial existir nas organizações, mais inteligência humana será necessária na liderança. A tecnologia pode apoiar decisões, aumentar produtividade e automatizar tarefas, mas não substitui discernimento, visão, empatia ou responsabilidade. O líder do futuro terá de ser alguém capaz de interpretar contextos, inspirar equipas, gerir dilemas éticos e criar confiança. Paradoxalmente, quanto mais avançada for a tecnologia, maior será o valor das competências genuinamente humanas.
Falam de um futuro marcado por “vidas híbridas, decisões preditivas e novos valores algorítmicos”. Até que ponto existe o risco de as organizações delegarem demasiado da sua capacidade de decisão na tecnologia? Onde deve permanecer a fronteira da responsabilidade humana?
Esse risco existe e deve ser levado muito a sério. A tecnologia deve aumentar a capacidade humana de decidir, nunca substituir a responsabilidade humana pelas decisões. Os algoritmos trabalham sobre dados, mas os líderes trabalham também com base em valores, contexto e consequências. A fronteira deve permanecer precisamente nas decisões que afetam pessoas, direitos ou em que esteja em causa uma ponderação ética. A responsabilidade nunca pode ser automatizada.
“As organizações mais bem sucedidas são aquelas onde a influência pesa mais do que a autoridade formal”.
Uma das questões colocadas por esta edição é se a liderança do futuro será sobre poder ou propósito. Na sua perspetiva, estamos efetivamente a assistir a uma mudança na forma como o poder é exercido dentro das organizações?
Creio que sim. O poder continua a existir, mas a sua legitimidade depende cada vez mais da capacidade de gerar impacto positivo e de envolver as pessoas. As organizações mais bem sucedidas são aquelas onde a influência pesa mais do que a autoridade formal. Os líderes deixaram de ser avaliados apenas pelos resultados que entregam e passaram a ser avaliados pela forma como os alcançam e pelo legado que deixam.
Vivemos num contexto de aceleração, incerteza e transformação permanente. Que erros vê hoje os líderes cometerem com maior frequência quando tentam responder demasiado depressa à mudança?
O maior erro é decidir precipitadamente para acompanhar o ritmo dos tempos. Existe uma enorme pressão para agir rapidamente, mas isso pode levar a decisões pouco refletidas ou sem verdadeiro alinhamento estratégico. Outro erro frequente é adotar tecnologia apenas porque está disponível, sem uma reflexão clara sobre o valor que cria para as pessoas e para o negócio. Liderar não é reagir a tudo, é saber distinguir aquilo que exige rapidez daquilo que exige profundidade.
O programa reúne personalidades de áreas muito distintas, da tecnologia aos direitos humanos, passando pela economia, gestão e sociedade civil. O que procura a Leadership Summit quando coloca estas diferentes perspetivas sobre liderança no mesmo palco?
Os grandes desafios do nosso tempo já não pertencem a uma única disciplina. A inovação tecnológica, a sustentabilidade, a geopolítica, a economia ou os direitos humanos estão profundamente interligados. A Leadership Summit procura precisamente criar esse espaço de diálogo entre diferentes experiências e diferentes formas de pensar. Acreditamos que as melhores ideias surgem muitas vezes no cruzamento entre áreas que tradicionalmente não dialogavam entre si.
Depois de dez edições e de milhares de líderes terem passado pela Leadership Summit Portugal, sente que existe hoje em Portugal uma maior abertura das organizações para discutir temas como vulnerabilidade, propósito, ética ou impacto social, para além dos tradicionais resultados financeiros?
Acredito que sim, mas ainda há um longo caminho para percorrer. As organizações compreenderam que desempenho económico e impacto social não são objetivos incompatíveis, antes pelo contrário. Também se tornou evidente que culturas organizacionais mais humanas são, normalmente, mais inovadoras e mais competitivas. Infelizmente, na prática, os líderes ainda são muitas vezes levados a gerir apenas para resultados financeiros, por isso, projetos como a Leadership Summit continuam a fazer todo o sentido.
A edição deste ano deixa também a pergunta: “Que legado queremos deixar after tomorrow?”. Se tivesse de identificar uma responsabilidade que os líderes de hoje não podem deixar para a próxima geração resolver, qual seria?
A responsabilidade de garantir que o desenvolvimento tecnológico continua ao serviço da dignidade humana. Não podemos transferir para as próximas gerações a definição das regras éticas que irão enquadrar tecnologias cada vez mais poderosas. Temos de construir agora organizações mais responsáveis, mais inclusivas e mais sustentáveis. O legado mede-se pelas decisões que tomamos antes de sermos obrigados a tomá-las.
Mais de 800 líderes de empresas e organizações são esperados no Casino Estoril a 24 de setembro. Que reflexão gostaria que cada participante levasse consigo quando terminasse esta 10.ª edição da Leadership Summit Portugal?
Gostaria que cada participante saísse com a convicção de que o futuro não acontece por acaso, é construído por nós através das escolhas que fazemos todos os dias enquanto líderes. Espero que esta edição inspire cada um a regressar à sua organização com novas perguntas, novas perspetivas e, sobretudo, com a vontade de liderar de forma mais consciente, mais humana e mais preparada para um mundo em transformação.








