As PMEs que queiram superar os 50 milhões de euros de faturação devem desenhar uma estratégia de crescimento, estudar as várias formas de financiamento e introduzir as mudanças necessárias na organização da empresa.

A compra da PME farmacêutica IFC pela Matji obrigou esta empresa a transformar a sua organização, com o objetivo de se converter numa grande empresa. Para isso, especializou-se na área da dermatologia, fechando acordos com importantes multinacionais e desenvolvendo grandes planos de inovação. Assim, conseguiu patentear os seus próprios produtos, que provocaram uma revolução no mercado e lhe permitiram estar presente em 80 países, superando os 100 milhões de euros em receitas.

Tal como neste caso, a entrada de um novo gerente, diferentes acionistas ou a geração familiar seguinte corresponde a uma motivação extra para que uma PME enfrente novos planos de crescimento que lhe permitam dar o salto para grande empresa, superando a barreira dos 50 milhões de faturação. Desta forma, além de satisfazer as aspirações pessoais dos seus donos, a empresa será capaz de resistir melhor às crises, aumentar as instalações e aumentar a sua produtividade, desenvolver novos projectos de I&D+i, atrair financiamento e entrar nos mercados internacionais.

Para conseguir atingir estes objetivos, é necessário que a empresa enfrente um processo de transformação que afetará vários aspetos da empresa, avança o site espanhol Expansión, enumerando algumas recomendações.

  • Estratégia

A primeira coisa que se deve determinar é o plano de crescimento da empresa, estabelecendo claramente como se vai conseguir o objetivo de se transformar numa grande empresa. Alberto Fernández, professor no IESE Business School, em Espanha, recorda que “as três alternativas são diversificar os produtos ou serviços que se oferecem, os mercados em que se vende ou os clientes aos quais se dirige”.

Segundo o professor, é mais simples para uma empresa crescer mantendo a sua oferta atual, mas vendendo noutros países ou a novos tipos de consumidores, mas, se optar por diversificar a produção, é importante analisar qual vai ser a concorrência e quais são os consumidores aos quais se vai dirigir.

Para Joaquín Garralda, professor de estratégia empresarial do IE Business School, em Madrid, o mais importante é o setor, pois “torna-se muito complicado crescer se este estiver muito maduro e houver uma forte concorrência das grandes empresas”, pelo que será necessário optar por uma especialização que permita focar-se numa determinada gama de produtos ou num target específico de clientes.

Se, pelo contrário, se trata de um mercado em crescimento, há que desenvolver um grande trabalho de inovação que permita estar à frente da concorrência e captar novos consumidores. A velocidade das mudanças tecnológicas provoca que, atualmente, muitas empresas realizem os seus planos estratégicos com objetivos a somente três anos de vista. Embora convenha não se deixar obcecar pelas metas estabelecidas e ter flexibilidade para se adaptar às novidades, nestes documentos devem figurar as previsões de crescimento e como se vai preparar a empresa sob o ponto de vista financeiro e de empresa.

  • Financiamento

“Uma PME que quer crescer não deve repartir dividendos, pois a prioridade é ter uma empresa forte e não uns acionistas ricos”, adverte Fernández. Normalmente, a redução de benefícios é a via preferida pelas empresas para financiar os seus planos de crescimento, pois trata-se da opção menos arriscada. Mas, às vezes, para não deixar passar a oportunidade, é necessário estudar outras alternativas. As empresas de tamanho médio têm um acesso mais fácil do que as pequenas a um empréstimo bancário que lhes permita cobrir um investimento concreto.

O desafio será calcular com precisão quando se poderá recuperar a quantidade investida e devolver o crédito, pois normalmente os bancos reagem a prorrogar os prazos contratados inicialmente; pelo que a empresa pode entrar numa situação de asfixia financeira.

A outra opção mais habitual é dar entrada a novos sócios, como business angels ou uma empresa de capital de risco. “Convém encontrar alguém com experiência nestes processos de crescimento, que traga o seu conhecimento. Em qualquer caso, o dono ou a família deverá preparar-se para uma certa perca de controle sobre o negócio”, recorda Juan Pastor, professor de inovação e estratégia na Escola de Organização Industrial (EOI). Mesmo quando não se der entrada a um novo sócio, convém que a PME contrate alguém externo – por exemplo, uma consultora – que a ajude a analisar a sua situação atual e a viabilidade dos seus planos de expansão. Também se pode recorrer aos programas públicos, embora estes devam ser algo complementar, sem que dependa deles a viabilidade do negócio.

  • Empresa

Uma vez que os proprietários da empresa tenham decidido embarcar num plano de expansão, é fundamental que consigam motivar o resto da equipa. “O crescimento da empresa implica que todos, desde o dono até ao último empregado, tenham que sair da sua zona de conforto, para o que devem estar mentalizados. Há que substituir o medo de ficar fora por causa das mudanças, pelo estímulo que sempre pressupõe um novo desafio”, avisa Pastor. Para desenvolver a estratégia de crescimento, haverá que estudar as mudanças necessárias, tanto na estrutura da empresa como nos seus sistemas de gestão.

Alicia Coronil, diretora de economia da organização espanhola Círculo de Empresários, recorda “a importância da profissionalização nas organizações”. Para isso, se a estratégia foi desenhada a curto prazo, costuma ser útil incorporar quadros que venham de grandes corporações e possam trazer para a PME os métodos de funcionamento destas empresas. Quando o projeto está mais dirigido ao médio e longo prazo, haverá que pôr a ênfase na contratação de talento jovem, ao qual se dará a oportunidade de crescer e se desenvolver dentro da empresa. Outro repto importante é analisar a equipa, para saber se estará preparada para assumir novas tarefas – muito mais especializadas ou diferentes das atuais – à medida que a empresa for crescendo. Em muitos casos, será necessário desenhar um plano de formação que lhes permita adquirir as competências necessárias. Além disso, o habitual é que a empresa tenha que contratar novos trabalhadores, pelo que terá que identificar os perfis prioritários, que serão admitidos à medida que se forem cumprindo objetivos.

Departamentos estratégicos

As mudanças que uma média empresa deve realizar para se converter numa grande empresa  acabam por afetar todos os departamentos. Mas existem algumas áreas que, pela sua importância estratégica, as empresas devem potenciar, se querem dar este salto com sucesso:

  1. Inovação. O plano estratégico deve escolher se vai dar prioridade à inovação disruptiva – que permite lançar no mercado produtos completamente novos – ou a progressiva, que está focada em pequenas melhorias, como reduzir o custo dos processos de produção ou desenhar novas estratégias para se aproximar do cliente. Enquanto, no primeiro caso, é mais importante contar com um departamento de inovação independente, no segundo há que conseguir que esta tarefa se realize de maneira transversal em todos os setores da empresa.
  2. Internacionalização. Embora a empresa deva estar presente no maior número possível de países, é importante selecionar alguns que venham a ter uma importância estratégica para o negócio. Alicia Coronil, do Círculo do Empresários, recorda, face à saturação dos mercados europeus e americanos, “o importante potencial de crescimento que existe atualmente na Ásia e África”.
  3. Marketing. É habitual que, quando uma PME fixa o objetivo de se converter numa grande empresa, tenha que realizar uma importante mudança na sua imagem de marca, desde renovar o logotipo até desenvolver iniciativas promocionais ou solidárias. Ainda menos convém esquecer a importância do marketing interno, que costuma ser decisivo para motivar os empregados perante este novo objetivo.
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