Cientista da computação, business angel, professor e orador, Christoph Holz sabe do que fala e como ninguém “traduz” o conhecimento digital em cenários lógicos futuros e em consequências surpreendentes. Ao Link To Leaders explica o complexo mundo digital e as suas perspetivas, e dá a conhecer o seu lado de investidor.

Christoph Holz estudou ciência da computação e tecnologia espacial em Munique. É um empresário independente, tendo criado a sua segunda empresa, a visalyze, em 2011, em Innsbruck. A visalyze foca-se na análise visual das redes sociais e no engagment em tempo real.

Além das suas atividades como avaliador judicial da Internet e do comércio eletrónico, Holz ensina webdesign e usabilidade na Universidade de Ciências Aplicadas de Kufstein, na Áustria.

O seu trabalho como orador, moderador e professor universitário levou Holz da CeBit e do TEDx para o Google, na Califórnia.

Quem é o Christoph Holz?
Em termos de formação, sou um cientista da computação. E ainda encontrei uma esposa. Como sou muito esquecido, transporto a minha chave do escritório como um chip implantado na pele, que armazena passwords, carteiras e tudo o que precisamos como um ciborgue comum. Como orador público falo sobre a revolução digital. Segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, a Revolução Russa não foi uma revolução real porque trouxe mudanças, mas não houve liberdade como a Revolução Francesa ou Americana. A liberdade surge na revolução digital através da sociedade sem Estado, mercados sem dinheiro e economia sem empresas.

Considera que a transformação digital é uma obrigação para todos os negócios?
A única coisa que temos como obrigatória é a morte. E, de acordo com a pesquisa do Google, mesmo isso não é mais uma certeza. A transformação deve ser uma experiência emocionante para todo o empreendedor. A essência do empreendedorismo é a exploração de novas oportunidades. O crescimento é digital. Quem com consciência iria querer perder isso?

“Para evitar a ansiedade da transformação é muito importante lembrar os funcionários do seu valor”.

Quais são os desafios que a empresas enfrentam para promover uma cultura de transformação digital e uma sociedade orientada para os dados?
Para evitar a ansiedade da transformação é muito importante lembrar os funcionários do seu valor. No seu papel como consumidores, os funcionários muitas vezes já estão à frente dos seus empregadores. Empresas atentas podem não só transformar esse conhecimento em produtividade, mas também fortalecer a lealdade e a motivação a longo prazo. Isto parece-me ser uma situação em que todos saem a ganhar.

“O computador é a primeira máquina sem um propósito único. Você pode moldá-lo para ser uma máquina de escrever, uma estação de jogos ou uma TV”.

Christoph HolzComo é possível fazer mais com cada vez menos recursos?
A digitalização é a transformação de toda a tecnologia em tecnologia de informação. A inteligência artificial, por exemplo, transforma a experiência de uma empresa em processos eficientes, para que os funcionários possam  concentrar-se no que é importante: relação com o cliente e inovação. O computador é a primeira máquina sem um propósito único. Você pode moldá-lo para ser uma máquina de escrever, uma estação de jogos ou uma TV. Com um novo software, você pode melhorar a sua produtividade sem energia adicional ou outros recursos. É claro que a produção de dispositivos e energia pode ser percebida como um desperdício, se ignorar as vastas melhorias que isso possibilita.

O que o fez tornar-se num business angel?
Se quer fazer uma pequena fortuna com start-ups, só precisa de investir uma grande fortuna. A maioria dos investidores sabe disso. Funciona mais como uma aposta recreativa para a maioria. Mas há uma boa razão: conhecimento. Não existe melhor maneira de ficar à frente de um negócio do que ser um business angel na fronteira de diferentes economias futuras.

“Investi no TenX, o principal sistema de cartão de crédito com moeda criptográfica de Singapura, que permite que se faça pagamentos em qualquer lugar do mundo”.

Que tipo de investimentos tem em mãos?
O meu foco de investimento é em coliving, Blockchain e incineração de resíduos nucleares. Investi no TenX, o principal sistema de cartão de crédito com moeda criptográfica de Singapura, que permite que se faça pagamentos em qualquer lugar do mundo. E tenho muito orgulho da Braveno, sediada em Portugal. Eles implementaram o IBO, que é o Initial Bottle Offerings para o vinho do Porto e muito mais.

Que tipo de start-ups e indústria mais o atraem?
Hoje, precisamos de décadas e milhões para criar novos medicamentos e materiais. A produção de fertilizantes usando o processo haber-bosch alimenta mil milhões de pessoas, mas consome quase 2% da energia do mundo. Porque não calculamos a procura por novos ingredientes ativos e processos no computador? Porque mesmo num computador convencional do tamanho de todo o nosso planeta seria muito lento. Ainda não temos essa tecnologia digital. Mas temos um nome para isso: computação quântica que poderia resolver os problemas da humanidade. Mas não se preocupe: surgirão ainda novos problemas.

“Os business angels podem muito bem ser o último tipo de investimento clássico não marginalizado pelas plataformas de crowdfunding”.


Como vê o seu futuro como business angel?

O kickstarter e companhia são já uma das fontes de financiamento mais importantes para as start-ups do que os venture capitalists. Os consumidores fiéis aceitam o tempo de espera de entrega em troca de descontos e, assim, substituem os venture capitalists. As plataformas de crowdfunding são a democratização do capitalismo. O investimento de business angels não se resume apenas a dinheiro, mas a expertise. Como business angel, não só compro ações da empresa, como também trabalho. Os fundadores trocam ações pelo compromisso de um especialista que não podem comprar por dinheiro. Portanto, os business angels podem muito bem ser o último tipo de investimento clássico não marginalizado pelas plataformas de crowdfunding.

Qual é a melhor forma das start-ups chegarem até si?
Eu uso o método de investimento de Silicon Valley. Eu sei onde os fundadores moram. Além disso, sou acessível via LinkedIn e nas conferências em que dou palestras. Claro que só invisto, se melhorar os meus conhecimentos.

Como o blockchain pode mudar o mundo?
70% dos proprietários de terras em todo o mundo não têm registo das suas terras. Se eu vendo bananas no mercado da África – ou café -, não há problema. Mas se eu quiser investir, preciso de crédito. E os bancos precisam do registo de terras como garantia. O meu governo diz: “Eu sei, esta é a sua terra. Mas, no meu papel, diz que pertence ao meu amigo que paga as minhas férias de Natal”. A fraude no registo de terras está entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento. Honduras, Gana, Bielorrússia e muitos outros iniciam registos de terras resistentes à corrupção, recorrendo ao blockchain.

Qual o melhor conselho que você já recebeu?
Em primeiro lugar, entenda a crítica como uma oportunidade de melhoria.

Dicas para uma empresa portuguesa implementar uma boa sociedade orientada para os dados?
As boas empresas prosperam quando apoiam a vida, a liberdade e a procura da felicidade para os seus clientes. Se gosta dos seus funcionários e clientes, o que poderia dar errado?

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