O famoso livro Sapiens identifica a capacidade de coordenação e colaboração como o fator chave do sucesso da nossa espécie – homo sapiens – e explica o aparecimento das primeiras civilizações exatamente em torno da necessidade de diferentes povos se juntarem e organizarem para criarem e gerirem soluções para desafios mais complexos, que isoladamente poderiam não conseguir, como foi o desenvolvimento dos sistemas de irrigação e regadio em torno dos rios Tigre e Eufrates, ou do rio Nilo.

A organização das tribos, dos povos e das civilizações foi-se desenhando em torno de conceitos de identidade, assentes na partilha de valores comuns, de linhagens e raças, e na necessidade de organizar a gestão e produção de recursos e conhecimento comuns. As religiões emergiram como as matrizes organizadoras das diferentes civilizações e o fator principal de unificação entre os povos.

As cidades foram o berço do desenvolvimento das civilizações, a pedra angular para o crescimento dos impérios e os pilares para a emergência do conceito de nação. A noção de Estado nasce da necessidade de gerir o “bem comum”, como as empresas emergem da natural evolução da organização das profissões e na gestão dos diferentes interesses privados.

A criação de projetos ambiciosos como a União Europeia, representam uma vontade de se consolidar o conceito de uma comunidade mais alargada em torno de valores mais transversais e universais, como a paz, a tolerância, a cooperação.

A emergência das grandes multinacionais, e dos grandes conglomerados e clusters de inovação, representam também um esforço e uma organização notável dos seres humanos, na criação de valor de forma sustentável e inovadora. A narrativa sobre o futuro, a cultura e os sistemas de valores, bem como as suas competências chave definem em grande parte o sucesso das empresas.

No mundo empresarial, altamente competitivo, temos registado grandes progressos ao nível dos modelos e ferramentas de gestão, no desenvolvimento de novos modelos organizacionais, na criação de novas tecnologias, processos e conhecimento sofisticados.

Por outro lado, a maioria os Estados e Governos têm demonstrado menor capacidade em se reformarem e em desenvolver novos modelos de governança mais descentralizados, mais transparentes, e colaborativos. A maioria dos Governos têm tido dificuldade sequer em criar uma narrativa agregadora e mobilizadora, e vivem cada vez mais agarrados a um discurso do passado, e a política presa no “mundo narcisista das pequenas diferenças”, do que a trabalhar na construção de um futuro comum.

O papel do Estado devia ser cada vez mais o de focar e apostar na criação de uma boa governança, na articulação duma narrativa comum e na coordenação dum plano de ação colaborativo e eficaz. O Estado deveria renovar o que designa por contrato social com os seus parceiros sociais e cidadãos, deveria renovar o conceito de parceria público-privada, apostar na simplificação da regulamentação e no reforço da supervisão. Deveria fazer uma verdadeira reforma do Estado e apostar na definição de objetivos, na gestão e supervisão dos indicadores macroeconómicos.

Deveria focar numa profunda digitalização da administração pública e dos serviços do Estado, focar na aplicação de tecnologia para a entrega dos seus serviços core, alavancar-se em modelos mais abertos de parcerias para a inovação, e apostar numa lógica de experimentação e gestão de inovação do Estado, completamente distinta do procurement tradicional e corrente.

Deveria apostar na transparência do Estado e no combate à corrupção e dos pequenos poderes, através da mediação e visualização de todos os processos de forma digital. Este esforço deveria começar no parlamento e ir até à gestão de todos os municípios e direções da administração pública, deveria reduzir e profissionalizar ainda mais a administração pública.

Deveria repensar a noção de democracia representativa, e criar uma democracia mais participativa e colaborativa, mediada por tecnologia e por novos modelos de governança, capazes de mobilizar e envolver diferentes tipos de pessoas, baseados em conhecimento e competências específicas, e implementar modelos mais holocráticos, capazes de tomar decisões mais rápidas e autónomas, sobre a maioria dos temas, reduzir a burocracia e focar na robotização da maioria dos processos, mediados por inteligência artificial.

O foco do Estado deveria estar na capacidade de identificar os agentes e as regras elementares do sistema e regular de acordo com isso, de forma a não os bloquear, mas sim criar um sistema dinâmico baseado na confiança, na transparência e rastreabilidade, em modelos abertos e mais descentralizados.

Para além disso o estado deveria apostar na simplificação da estrutura do estado, e focar em modelos de governança que permitam mediar e articular de forma mais célere a relação com os múltiplos organismos e subsistemas intermédios. Porque não reduzir o aparelho paralelo do estado e o modelo associativista passadista, quando existem agora arquiteturas (de sistemas) mais eficazes, mais descentralizado e mediados por tecnologia.

Compreender melhor o que é verdadeiro valor socioeconómico das sociedades contemporâneas. Apostar mais na definição de políticas, em supervisão, na avaliação progressiva da implementação das iniciativas planeadas e na correção das mesmas, de forma célere, do que continuar a apostar em modelos pesados e lentos, de planeamento e decisão centralizados.

Para além da gestão interna, o Estado deveria apostar cada vez mais na governança da sua relação com outros países e outros organismos. A começar pela Comissão Europeia, mas também no reforço duma nova dinâmica de cooperação internacional, mais focada nos reais interesses do Estado e alavancando as inúmeras ligações que existem entre os diferentes atores nacionais e internacionais.

Deveria apostar numa nova abordagem da diplomacia digital, deveria descentralizar verdadeiramente o conceito de Estado (vejam o que fez a Estónia com a descentralização do Estado, que lhe permite passar toda a informação e gestão do Estado para as suas embaixadas em caso de invasão ou de guerra).

Os Governos deveriam criar áreas, ou setores em que deveriam agir de forma essencialmente multilateral e inserida em estruturas de governance globais. Temas como o ambiente, a energia, a economia circular, a água, o espaço, o cérebro, o mar, deveriam ser vistos menos como temas de segurança nacional, mas sim numa lógica de sistemas integrados de resiliência internacionais e globais.

Deveria ser prioridade absoluta para a governança global resolver os desafios base comuns, que afetam a maioria das sociedades, e deveria reforçar muito mais a lógica de clusters e redes de conhecimento globais, descentralizadas e remotas, mediadas por tecnologia e modelos sofisticados de governance, do que perder tempo e energia numa lógica de poder autocentrada e míope, e baseada em modelos de sustentação dos pequenos poderes.

Os novos Estados e Governos modernos deveriam focar-se em narrativas poderosas de futuro, mais viradas para uma lógica, consciência e atuação global, e menos na defesa das idiossincrasias nacionais. Parte do sucesso dos Governos modernos deveria estar focada na capacidade de desaprender e desligar-se dos seus atavismos e focar na capacidade de ser parte integrante de um mundo aberto e plural.

A Governança da Comissão Europeia e a ONU deveriam ser revisitadas, deveríamos criar uma nova governança mundial mais plural e inclusiva. Para isso, precisamos de apostar numa verdadeira educação para a cidadania, apostar numa sociedade e educação baseada nos afetos, para além de apostar em tecnologia e digitalização.

Ao mesmo tempo apostamos em mais tecnologia e conhecimento artificial, deveríamos apostar em mais autoconhecimento e na nossa dimensão emocional e espiritual. Apenas seres humanos verdadeiramente conscientes, evoluídos e empáticos serão capazes de lidar com os desafios complexos que temos pela frente.

Deveríamos olhar para o potencial do bio-hacking de forma séria, e usar a tecnologia, a psicologia, os pharma, a meditação, o desporto, a arte, a dança, o som, a combinação do conhecimento ancestral e moderno para criar uma nova estirpe humana. Temos que perder o medo e os preconceitos sobre certos temas, largar antigos costumes, abrir-mo-nos a novas experiências, a abraçar o poder transformativo que temos à nossa disposição para erradicar boa parte do vício ruminante das nossas mentes e crenças.

Precisamos de criar uma nova identidade humana e global, precisamos de transcender a própria noção do ego, e fomentar a prática de experiências mais transcendentes e integracionistas. Precisamos de novas condutas sociais, de redefinir a noção de respeito, de apostar em modelos de comunicação mais eficazes e não violentos, de desligar o ser do ter do fazer.

Precisamos de mais exemplos de heróis globais que pensem e atuem à escala global, pois precisamos de estórias ficcionais poderosas para criar uma comunidade e identidade global. Precisamos de mais Elon Musks a tentar salvar-nos deste planeta, e resolver os desafios da energia, mobilidade ou inteligência virtual, de mais Bill Gates a resolver de forma cooperativa e através da tecnologia, os desafios do saneamento básico mundial, eliminando a pólio e a disenteria.

O lançamento do Space-x não é muito mais do que um triunfo individual, ou um grande feito tecnológico, e a criação de uma nova geração planetária e a consolidação de uma nova consciência humana global. Temos que ir para além da religião e da filosofia para conseguirmos abarcar um novo conhecimento sobre nós próprios e todo. Precisamos de novos conceitos, novas formas de aprender e de desaprender, e de nos conectarmos uns aos outros, em novos conceitos de comunidade, identidades ou pertenças.

Estamos próximos de mais umas eleições legislativas, enquanto esperamos um desfecho para o tema do Brexit, e assistimos passivos à iminência de mais uma crise internacional. A União Europeia é uma comunidade, porque é feita por um conjunto de pessoas com princípios e valores comuns, que pretendem criar algo de maior, e não se ouvem vozes novas suficientes, para reconstituir o tecido humano europeu, muito menos uma narrativa unificadora sobre o ser humano e o nosso futuro coletivo.

Os budistas constroem grande parte do seu sistema em torno da capacidade de conquistar do nosso medo sobre a nossa própria morte, pois só aí nos libertamos. No passado, a maioria dos grandes líderes era capaz de morrer pelas suas causas e era isso em parte que nos mobilizava e apaixonava. Não precisamos de voltar a morrer pelas nossas causas, mas também não precisamos de passar a vida a assistir a este concurso incessante pela pequena conquista sobre o outro.

Podemos e devemos querer ser cada vez mais capazes de saber identificar o que nos une e identifica, e de construir um novo modelo de governança global que nos permita trabalhar em conjunto naquilo que é de facto essencial.

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Pedro Rocha Vieira é cofundador, presidente e CEO da Beta-i, uma organização de promoção de empreendedorismo e inovação, responsável por iniciativas como o Lisbon Challenge, Beta-Start, Beta-Innovation e Lisbon Investment Summit. É também codiretor e mentor do Seedcamp Lisboa, facilitador... Ler Mais