Com exceção das empresas que no dizer dos analistas “já nascem internacionais” ou com vocação para tanto, é pela exportação que a maior parte das empresas locais começa a ensaiar a sua presença em mercados externos.

Vimos no primeiro e segundo artigos anteriores que alguns analistas propunham uma nova visão conceitual da internacionalização, que consiste no “abandono do conceito operacional e na adoção do conceito estrutural, baseado no investimento direto estrangeiro (IDE) como parâmetro de referência, uma mudança paradigmática que constitui um verdadeiro salto quântico, pois só a existência de um IDE permite à empresa dispor de uma estrutura transnacional própria e a sua transformação numa empresa multinacional” (Boelter, 2020).

Esta análise de Boelter e seus seguidores parece-nos dever considerar como excessiva, ao só admitir o IDE como a modalidade de presença em mercados externos para que se possa falar em internacionalização.

De facto, com exceção das empresas que no dizer dos analistas “já nascem internacionais” ou com vocação para tanto, é pela exportação que a maior parte das empresas locais começa a ensaiar a sua presença em mercados externos, até para aferir da sua viabilidade nesses mercados e poderem transformar essa prática numa estratégia consistente e com carácter de permanência.

À medida que essa estratégia se consolida, pelos resultados obtidos, e algum ou alguns desses mercados atingem relevante importância, é natural que a forma como a exportação se desenrola sofra alterações: de exportações indiretas a exportações diretas, do tipo de intermediários utilizados, da importante seleção dos canais de distribuição, passando de um agente a um distribuidor exclusivo, etc.

É natural ainda que, a dada altura, a importância dos mercados justifique outras formas de presença, nomeadamente pelo recurso a formas contratuais, como o licenciamento e o franchising, e mais tarde, a um IDE, seja constituindo uma joint-venture com parceiros locais, seja constituindo uma empresa subsidiária, com domínio do poder de decisão.

Esse será aliás um caminho lógico no processo de internacionalização de muitas empresas, o culminar da estratégia prosseguida, mas insuficiente para que, científica e tecnicamente, se considere que só nessa altura se possa falar em internacionalização, a qual, para muitas delas, começou lá bem atrás com umas exportações para um ou mais mercados.

O “pecado” de Boelter e seus seguidores é considerar a imprescindibilidade de uma empresa se constituir numa multinacional para se poder considerar internacionalizada, o que constitui um enviesamento de análise, devido fundamentalmente à consideração de um mercado de origem de grande dimensão, como é o Brasil. Ora, mesmo atendendo às exigências da Globalização, há espaço para outras empresas e outros países se internacionalizarem fora deste “novo” paradigma.

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Tito Ferreira de Carvalho é Licenciado em Economia (ISEG), Mestre em Gestão Internacional (UML) e Doutor em Ciência Política (ULHT). A sua carreira docente reparte-se por Portugal, Brasil e Cabo Verde, destacando-se a sua ligação ao Instituto Superior de Gestão, desde 2010, onde é atualmente Professor Catedrático convidado. Exerceu funções de administração de empresas e de formador, sendo igualmente consultor e palestrante.

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