Opinião

O fim da hipocrisia

João César das Neves, economista e professor catedrático

A liderança das últimas décadas, na economia como na política, tem-se apresentado como especialmente moralista. As empresas apregoam exigentes códigos de ética, anunciam-se responsáveis e sustentáveis, garantindo múltiplas preocupações beneméritas para lá do lucro.

Pelo seu lado, os políticos nunca foram tão desinteressados e altruístas, combatendo as mínimas injustiças sociais e protegendo todos os desfavorecidos, sem aproveitamentos pessoais ou interesses particulares. Nas declarações públicas, os nossos mercados e democracias são os mais virtuosos e elevados da história humana.

Todos sabemos, porém, como a realidade se afasta das proclamações. Apesar das garantias, as coisas continuam a ter perversidades, como sempre. Afinal, a liberdade económica, política e social é o pior sistema, esquecendo todos os outros. Por muito que tenha conseguido, e conseguiu, o nosso regime nunca escapa à acusação de hipocrisia. Isso explica o crescente sucesso de forças antissistema nas empresas e partidos. Abandonando falsos idealismos, estas lideranças radicais denunciam as moralidades postiças e prometem uma gestão e governação realista e pragmática; chamam os bois pelos nomes e gritam que o rei vai nu.

Só que há duas maneiras de eliminar a hipocrisia: largar os vícios ou perder a vergonha; e a segunda via é muito mais barata e segura. Afinal, garantir virtude superior à maldade dos antecessores foi o que fingiram gerações de candidatos. Se, pelo contrário, se gerir e governar descaradamente anula-se a acusação de dissimulação, precisamente aquilo que mais se censurava aos tais antecessores. Continua-se a perseguir, roubar e a abusar, mas sem hipocrisia.

De facto, este remédio é muito pior que a doença. Afinal, quando se trata do mal, a sinceridade agrava as coisas. A ocultação do vício é, em si, positiva, pois a proclamação aberta da iniquidade é apoteose da depravação. Se não se pode ser bom, ao menos haja vergonha. Sendo assim, porque têm tanto sucesso estas propostas? Aquilo que realmente gera o problema é, não o líder descarado, mas as condições socioeconómicas que o levam ao poder. É aí, e não nele, que está o verdadeiro drama.

Jay Gould, Ray Kroc e Pablo Escobar, como Mussolini, Estaline ou Mao, são produto de organizações e sociedades doentes, em geral radicalmente divididas ou gravemente oprimidas, a ponto de se deixarem seduzir pelo encanto do narcisista. Só uma época embriagada de ideais poderia gerar um Robespierre; apenas um militarismo ofendido seria capaz de entronizar Hitler. Só que essas personalidades distorcidas, apesar de todos os seus defeitos, ainda tentavam manter alguma imagem de dignidade. Assim, nunca se viu o nível a que o atual presidente americano tem levado a insolência.

Donald Trump é abertamente corrupto, vingativo às claras, mentiroso sem rebuço, arrogante com brio e descaradamente ignorante, caprichoso e injusto. Ele manifesta, com total candura e limpidez, os traços mais repelentes do seu carácter e as ações mais infames do seu consulado. Podem-se fazer-se-lhe as mais contundentes acusações, mas ninguém o pode apelidar de fingido ou hipócrita. Aliás, a sua popularidade alimenta-se do escândalo que provoca a cada passo nos observadores imparciais. A justificação é que esses, afinal, são meros resquícios do sistema degradado, a tal sociedade moralista que ele veio demolir.

Trump não tem culpa, pois sofre de distúrbio de personalidade. A responsabilidade do delírio do último ano está, não nele, mas no meio que o acolheu e promoveu. Que tempo poderia eleger um especulador cinco vezes falido e apresentador de reality shows? O paroxismo desmiolado do atual POTUS é o produto dos valores Facebook, da doutrina Netflix, da ética Youtube, do credo Google. Assim, até os seus maiores detratores são, de alguma maneira, parte do terreno que gerou MAGA. Vivemos na sociedade mais doente de sempre. Trump é só o seu espirro.

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João César das Neves

João César das Neves

Licenciado e doutorado em Economia, João César das Neves é professor catedrático e presidente do Conselho Científico da Católica Lisbon School of Business & Economics, instituição onde, ao longo dos anos, já desempenhou vários cargos de gestão académica. Também possuiu um mestrado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e um mestrado em Investigação Operacional e Engenharia de Sistemas pelo Instituto Superior Técnico. Ao longo do seu percurso profissional também esteve ligado à atividade política. Em 1990 foi assessor do... Ler Mais..

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