Portugal é um país avesso ao risco e os nossos empresários são vistos como pessoas que não gostam de arriscar em projectos sem garantia de êxito.

Esta insegurança foi imposta, ao longo de décadas, por uma cultura de desincentivo à criação de empresas em detrimento do reforço de um estado assente numa administração pública dominante.

Não interessava promover a criação de empresas pois isso acarretaria riscos desnecessários que um emprego público nunca teria.

Este estado de espírito é a antítese do empreendorismo pois o risco é parte integrante de uma sociedade empreendedora.

No entanto durante a crise de 2008, os decisores políticos aproveitaram para criar novas oportunidades fazendo nascer políticas para impulsionar e promover o empreendedorismo.

Mas para haver sucesso na formulação deste tipo de políticas é fundamental controlar o panorama das motivações empresariais analisando as características e ambições dos indivíduos que iniciam negócios em Portugal.

Todos os empreendedores têm em comum o desejo de autonomia. Mas para além desta motivação existem outras que podem ter forte impacto num novo projeto ou negócio.

Alguns empreendedores querem acumular riqueza. Outros têm como inspiração o desejo de enfrentar e vencer um desafio social. Outros recorrerem ao empreendedorismo para promover o seu emprego. E outros seguem o caminho empresarial para continuar um legado de negócios de família.

Avaliado este panorama e com caminhos definidos, é essencial que os empreendedores sejam alimentados e recompensados ​​de acordo com o seu esforço e risco, caso contrário a dinâmica empreendedora abranda tal como está já a suceder em Portugal.

A confirmar esta tendência temos o relatório “Startup Ecosystem Rankings 2020”, da StartupBlink, que avalia a evolução dos ecossistemas de Startups ao nível global.

Este relatório confirma que Portugal está em queda, quando falamos de países com ecossistemas favoráveis ao empreendedorismo e criação de Startups. Portugal saiu do Top 30 mundial e 2020 não parece melhorar, descendo duas posições ao nível global.

Mas o cenário piora quando olhamos para o ecossistema de startups ao nível das cidades uma vez que Lisboa não conseguiu alavancar de forma a tornar-se uma das 50 principais cidades, caindo 18 posições este ano, para 85º lugar. A queda é acompanhada também pelo Porto, Braga, Coimbra e Leiria.

A principal crítica que este relatório faz ao ecossistema empreendedor de Portugal é o facto de não ter conseguido aumentar a qualidade e robustez das suas startups, apesar de ter um apoio considerável do setor público.

A StartupBlink sugere que se avalie a estratégia e se repense a forma de alocar recursos de apoio às startups e aos empreendedores, criando políticas fiscais mais estáveis, atraindo investimento e eliminando a forte burocracia.

De 2008 para a frente tivemos um período de crise que empurrou muitos para a emergência de criação de autoemprego. Foi um momento em que o mercado de trabalho não dava perspetivas, mas foi também a melhor fase de empreendedorismo nacional.

Porém, com a recuperação da economia, muitos voltaram a integrar o mercado de trabalho, apostando em ofertas mais seguras, fugindo ao risco de criar empresas, enfraquecendo a dinâmica empreendedora.

Agora importa realinhar as prioridades nacionais com as necessidades das empresas e dos empreendedores.

Nesta fase de pós-pandemia Portugal poderá receber 30 mil milhões do Quadro Financeiro Plurianual, mais 15,5 mil milhões do Fundo de Recuperação e mais 11 mil milhões sob a forma de empréstimos.

Esta “bazuca” de recursos financeiros tem de ser bem gerida, beneficiando o crescimento da economia e preparando Portugal para enfrentar uma severa recessão.

Para ajudar a este propósito surgiu mais uma boa noticia por estes dias. A Comissão Europeia propôs aos Estados-membros uma nova alteração às regras de apoios estatais, sugerindo alargar os apoios para PME’s e startups e incentivar os investimentos privados.

A Comissão Europeia propõe passar a “apoiar (…) empresas, incluindo startups que já se encontravam em dificuldade antes de 31 de dezembro de 2019”, quando as atuais regras apenas permitem ajudas a empresas com contas saudáveis à data de 31 de dezembro.

É agora a vez dos Estados-membros apresentarem observações sobre o projeto de proposta da Comissão para o melhorar e avançar rapidamente com a sua implementação.

Portugal não pode desperdiçar estas oportunidades e tem de ultrapassar as adversidades, convertendo-as em estímulos ao empreendorismo e à iniciativa privada, que são forças essenciais para o crescimento e sustentabilidade de Portugal.

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Rodrigo Gonçalves nasceu em 1974, em Lisboa. Gestor de Negócios, empresário, consultor em liderança e gestão de equipas e um empreendedor apaixonado e resiliente. Licenciado em Ciência Política pela Universidade Lusíada, Mestre em Ciência Política, Cidadania e Governação pela Universidade... Ler Mais