A Casa do Impacto assinala amanhã o seu primeiro aniversário e um ano de atividade dominado por muitos projetos de impacto social que se foram instalando neste hub de empreendedorismo. Inês Sequeira, diretora da Casa do Impacto, analisou o percurso do projeto nos últimos meses e revelou ao Link To Leaders algumas das metas que gostaria de atingir.

Instalado no Convento São Pedro de Alcântara, em Lisboa, o hub de empreendedorismo social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa está a celebrar um ano de atividade com casa cheia. Este espaço, que integra escritórios de start-ups de impacto, formação, cowork, experimentação e investimento, assumiu como missão impulsionar e apoiar uma nova geração de empreendedores que está a desenvolver modelos de negócio com impacto social e ambiental positivo.

Um ano depois de ter aberto as portas, a Casa do Impacto acredita que se vive um novo paradigma e que “os negócios terão de passar a ter sempre uma qualquer vertente de impacto social ou ambiental”. Esse será o futuro e é a pensar nele que a Casa está empenhada em criar as condições para acelerar esse futuro, explicou ao Link To Leaders, Inês Sequeira, diretora do projeto.

Um ano depois, que balanço faz da atividade da Casa do Impacto?
Um balanço extremamente positivo. Foi com plena convicção que a Santa Casa da Misericórdia desafiou os parceiros e start-ups de impacto a criar a Casa do Impacto. Um ano depois, sentimos de facto uma comunidade envolvida que precisava de um impulso e de um espaço para colaborar e crescer: com mais de 200 residentes, 34 start-ups incubadas, quatro programas de aceleração, mais de 60 formações, workshops e bootcamps e 1500 pessoas impactadas. Recebemos e organizamos mais de 60 eventos e recebemos a visita de mais de 3000 pessoas. Sentimos que contribuímos para que este ecossistema se esteja a desenvolver muito rapidamente e hoje um ano volvido podemos afirmar que há verdadeiramente uma grande comunidade de impacto social em Lisboa.

Incubadora, aceleradora, investimento…qual destas áreas foi mais bem-sucedida?
A Aceleração e a Incubação são eixos onde o impacto é mais visível e imediato – quando começamos a desenhar a Casa do Impacto, o ponto de partida foi o espaço e a necessidade que sentimos que a área do impacto tinha de ter um espaço para ideias, start-ups e empreendedores focados no impacto social dos seus negócios, mas num sentido holístico. O target da Casa do Impacto não são apenas negócios focados na resolução de um problema social ou ambiental, mas sim de negócios orientados para o exercício de uma atividade com impacto positivo na comunidade onde se inserem, a todos as dimensões da sustentabilidade – económica, social e ambiental. Havia esta necessidade, de espaço e de agregar num mesmo local uma série de valências, os eixos de intervenção da Casa do Impacto – Capacitação, Incubação, Investimento e Avaliação de Impacto – que estão completamente interligados na nossa atuação e projetos.

Depois de estabelecida a Incubação e a Aceleração estamos agora focados nos eixos do Investimento e Avaliação – que vão ter mais novidades no último trimestre deste ano. Para dar este passo tínhamos primeiro de criar e capacitar um ecossistema e a uma comunidade de impacto.

“A nossa maior ambição é criar um grande pipeline de start-ups com impacto social e ambiental alinhados com a agenda 2030 das Nações Unidas (…)”.

A missão a que se propuseram quando lançaram este projeto – de “impulsionar uma nova geração de empreendedores com modelos de negócio com impacto social e ambiental positivo, alinhados com os ODS – está a correr com previsto?
Sim, um dos grandes focos da Casa do Impacto neste primeiro ano de atividade foi a capacitação de uma nova geração de empreendedores que acredita em modelos de negócios de impacto, sustentáveis e alinhados com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Neste primeiro ano de atividade desenvolvemos um novo programa de Aceleração, o RISE for Impact, totalmente direcionado para os ODSs e para projetos em fase de validação da ideia, produto ou serviço e/ou modelo de negócio, que está agora na fase de aceleração até ao final do mês de outubro. Mas recebemos também outros programas de aceleração, formações e workshops, promovidos pelos nossos parceiros, também eles alinhados com os objetivos e missão da Casa do Impacto. No total, recebemos mais de 1500 pessoas em formações, workshops e bootcamps em 60 iniciativas e quatro programas de aceleração.

A nossa maior ambição é criar um grande pipeline de start-ups com impacto social e ambiental, alinhados com a agenda 2030 das Nações Unidas e, fazendo a retrospetiva deste ano, acho que de facto estamos no bom caminho, mas ainda temos muito por caminhar.

Quais foram as etapas mais difíceis na vida do projeto neste primeiro ano?
Criar o primeiro Hub de Inovação e empreendedorismo social do país é um grande desafio, e obviamente que é sempre maior quando há toda uma nova linguagem e uma narrativa que ainda não é “comum” à maioria das pessoas. Quando apareceu a grande moda do empreendedorismo em 2010/2011 em Lisboa, muitos desconheciam sequer o conceito de start-up, quanto mais de unicórnio. Quando criámos a Casa do Impacto, o próprio conceito de impacto social ainda era desconhecido por muitos, por isso eu diria que a criação de uma nova narrativa é sempre um dos maiores desafios.

Em termos mais operacionais a reconversão de um espaço como o Convento São Pedro de Alcântara, com mais de 300 anos, num Hub de Inovação Social para empreendedores e start-ups com necessidades muito próprias e em constantes mudanças foi um dos desafios mais interessantes que abraçamos. Foi difícil dizer que não a alguns projetos, não poder acolher e trabalhar com muitos deles, mas mantemos as portas abertas para as várias iniciativas para a comunidade não-residente e para as oportunidades que estamos a construir no futuro, como a incubação virtual que vamos lançar até ao mês de outubro.

Quantas empresas, e de que áreas, acolhem neste momento e quais são as metas para 2020 em número de incubadas?
A Casa do Impacto acolhe neste momento 34 start-ups de impacto, 200 residentes, de diferentes áreas como educação, empregabilidade, ambiente, saúde, investimento, consultoria, tecnologias, desporto, comércio sustentável, cidadania, entre outras, ligadas a vários ODSs: como erradicar a pobreza e a fome; saúde e educação de qualidade; energias renováveis e acessíveis; trabalho digno e crescimento económico; indústria, inovação e infraestruturas; reduzir as desigualdades; cidades e comunidades sustentáveis; produção e consumo sustentáveis; ação climática; proteger a vida marinha; paz, justiça e instituições eficazes; parcerias para a implementação dos objetivos.

Qual perfil de empreendedores de impacto social que ainda gostaria de juntar neste hub?
Ainda gostaria de aumentar o número de projetos nas áreas que constituem um dos maiores desafios para a humanidade na próxima década, nomeadamente as alterações climáticas, soluções ligadas ao ambiente, saúde mental, envelhecimento, igualdade de género e cidadania são áreas de interesse onde vamos procurar e incentivar a criação de soluções.

Qual o papel dos parceiros da Casa do Impacto neste primeiro ano? Vão reforçar o leque de parceiros?
Os parceiros têm um papel muito importante. Desde o primeiro momento estabelecemos a colaboração com parceiros institucionais e start-ups como prioritária, até mesmo no modelo de governo da Casa do Impacto. Com a evolução e crescimento do projeto temos tido várias solicitações de parceria, que avaliamos caso a caso. Queremos envolver as empresas e a sociedade civil, porque mais do que nunca precisamos de todos – como investidores, mentores, impulsionadores de pilotos ou na transferência de conhecimento. O impacto pertence a todos, e ninguém vai passar ao lado. Queremos criar as ferramentas e o espaço para que a sociedade civil e empresas possam contribuir. Acreditamos que nos próximos anos teremos um novo paradigma a afirmar-se que a  ninguém ficará indiferente, os negócios terão de passar a ter sempre uma qualquer vertente de impacto social ou ambiental. Esse é o futuro e nós apenas estamos a criar as condições para acelerar esse futuro.

“O fundo prevê ser uma ferramenta de auxilio financeiro para o início do ciclo dos projetos, que respondem aos ODS e que já provaram as suas soluções e modelos de negócio (…)”

O já anunciado Fundo de investimento está previsto para quando? 
O Fundo de apoio ao empreendedorismo e à inovação social tem o objetivo de contribuir para a sustentabilidade económica e financeira de projetos que resolvam problemas sociais e ambientais existentes. O fundo prevê ser uma ferramenta de auxilio financeiro para o início do ciclo dos projetos, que respondem aos ODS e que já provaram as suas soluções e modelos de negócio – por forma a aumentar o pipeline de start-ups de impacto e projetos de inovação social e prestando um apoio não financeiro através das ferramentas da Casa do Impacto ao nível de mentores, medição de impacto, gestão de desempenho e networking. Haverá novidades no final deste ano.

“(…) os negócios terão de passar a ter sempre uma qualquer vertente de impacto social ou ambiental incorporada. Esse é o futuro e nós apenas estamos a criar as condições para acelerar esse futuro”.

Qual a proposta de valor que, globalmente, este novo hub empreendedor trouxe ao mercado?
Uma certeza: que os empreendedores de impacto como os da Casa do Impacto respondem às métricas a que todos os outros empreendedores respondem e ainda a mais – as do impacto. Construímos uma casa aberta a todos os negócios que dão respostas aos desafios da nossa sociedade, aos valores intangíveis das parcerias e da colaboração. Acreditamos que nos próximos anos teremos um novo paradigma a afirmar-se que ninguém ficará indiferente, os negócios terão de passar a ter sempre uma qualquer vertente de impacto social ou ambiental incorporada. Esse é o futuro e nós apenas estamos a criar as condições para acelerar esse futuro.

Como evoluiu o empreendedorismo de impacto no plano nacional neste último ano?
Sentimos que cresceu, mas há trabalho para fazer. Precisamos de mais empreendedores e soluções para os vários problemas sociais e ambientais que estamos e vamos enfrentar, de mais investimento e envolvimento da sociedade civil e das empresas.
Havia uma lacuna evidente no início do pipeline, onde o investimento financeiro e não-financeiro eram escassos, onde havia pouca definição no valor que cada Aceleradora trazia e na lógica com que se criavam os projetos. Foi aqui que se posicionou a Casa do Impacto e onde sentimos que contribuímos no último ano. Neste momento criámos as condições para que muitos empreendedores do impacto não tenham que dispor da maior parte do seu tempo em candidaturas a pequenos prémios para se manterem “à tona da água” enquanto poderiam dispor de mais tempo para se forcarem no que de facto é mais importante, criar mais impacto e valor a uma sociedade que tanto precisa.

(…) quando falamos dos empreendedores de impacto, há uma série de preconceitos associados que dificultam ainda mais o acesso a financiamento, especialmente na fase de pre-seed”.

Como é que os investidores estão a olhar para este segmento das start-ups de impacto social?
Um dos maiores desafios de qualquer comunidade empreendedora é a procura de investimento. E quando falamos dos empreendedores de impacto, há uma série de preconceitos associados que dificultam ainda mais o acesso a financiamento, especialmente na fase de pre-seed. Mas sentimos que “os ventos estão a mudar” e onde a Estrutura de Missão – Portugal Inovação Social, as várias calls (agora disponíveis para a região de Lisboa e Vale do Tejo), os seus investidores, e as iniciativas privadas como o fundo da MAZE impulsionaram o investimento e a atenção dada à área.

Há cada vez mais investidores a incorporarem métricas de impacto social e ambiental quando avaliam as start-ups que querem que pertençam ao seu portefólio e isso é um excelente indicador que este mercado de investimento vai crescer muito nos próximos anos.

“O empreendedorismo de impacto reúne uma nova geração de empreendedores muito talentosos que querem contribuir com projetos inovadores, que de facto podem contribuir significativamente para responder aos maiores desafios da humanidade”.

É complicado gerir um projeto desta natureza? Enquanto gestora, que desafios enfrentou neste primeiro ano?
Além dos desafios diários do quotidiano, que são a gestão do próprio espaço, com as limitações arquitetónicas próprias que um edifício com mais de 300 anos enfrenta – uma vez que quando foi projetado foi como um convento de clausura – e onde pretendemos hoje com este novo “uso” que seja um espaço de encontro e de comunidade, diria que de facto o maior desafio de todos foi o trabalho que se fez, e que ainda há por fazer, relativamente à mudança de mentalidades e à desmistificação de preconceitos.
O empreendedorismo social não é o parente pobre do empreendedorismo, nem se reduz a um conjunto de ativistas que têm a ambição de mudar o mundo. O empreendedorismo de impacto é uma nova tendência que veio para ficar. Como disse anteriormente acredito que de futuro todo o empreendedorismo terá de ser social. Nós vivemos numa época em que estão a ser postos em causa pilares fundamentais da nossa sociedade, como sejam a própria democracia, ou o modelo económico capitalista, ou até a sobrevivência do nosso planeta. O empreendedorismo de impacto reúne uma nova geração de empreendedores muito talentosos que querem contribuir com projetos inovadores, que de facto podem contribuir significativamente para responder aos maiores desafios da humanidade. Na minha perspetiva não há unicórnio que consiga competir com o valor que estas start-ups acrescentam ao mundo em que vivemos.

O que gostaria de ver concretizado na Casa do Impacto no segundo ano de atividade?
O desenvolvimento da área do investimento social, com a criação do novo Fundo, que será focado para projetos muito iniciais, que é onde existe maior falta de investimento, uma vez que este investimento é o chamado “Patient Investment” e a maioria dos investidores prefere investir numa fase de maior maturidade do ciclo de vida dos projetos, para não ter que esperar tanto tempo até ver o retorno.

Cremos continuar a fazer este trabalho de criação de maior “awareness”, da sociedade civil, das instituições e das empresas, para a necessidade de apoio e promoção de mais projetos de impacto social, através do estabelecimento de mais parcerias.

Continuar a criar as condições para aumento do pipeline de start-ups de impacto, promovendo mais capacitação e mentoria para novos projetos surgirem, nomeadamente projetos que constituam soluções para os maiores desafios que a humanidade enfrentará na próxima década, nomeadamente as alterações climáticas, soluções ligadas ao ambiente, saúde mental, envelhecimento, igualdade de género e cidadania.

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