Persistem dúvidas sobre o vírus: a identificação inicial, o perigo e a informação à WHO-World Health Organization e à comunidade científica e médica. Houve transparência e prudência necessárias para permitir que as autoridades dos países tomassem as medidas adequadas de defesa, sem lançar pânico?

Se o alarme viesse com mais antecedência poderia ter ajudado a circunscrever o mal, por exemplo limitando as ligações aéreas ou submetendo à verificação as pessoas transportadas para saber se estavam contaminadas? Talvez muitas mortes se teriam evitado nos EUA, em Itália, na Coreia do Sul …

A China deveria antecipar-se a solicitar uma auditoria às autoridades com credibilidade. Caso contrário, pode persistir a dúvida: escondeu a realidade para tirar partido económico, com risco de contágios e mortes?

Segundo os cientistas parecia haver certa convicção de que os médicos e cientistas da China fizeram bem o seu trabalho de casa, com rigor na colheita de dados, na identificação do vírus, na experimentação de soluções nas pessoas afetadas e, sobretudo, na contenção local do vírus. Isso terá dado material para que os outros países pudessem continuar a ampliar a sua investigação, para encontrar o tratamento ou a possível vacina.

Dos meses que já levamos com o vírus e da quebra de fornecimentos para as cadeias de fabrico de produtos industriais, podem-se antecipar algumas estratégias dos países envolvidos com a China:

1. Ao ter havido demasiada concentração – talvez pelos baixos custos, facilidades de estabelecimento e das condições de trabalho, num país em ditadura – para haver segurança dos abastecimentos, deverá haver produções nos países alternativos.

2. Como os vírus vão e vem, alguns com modificações, nos próximos anos teremos que viver sob o espectro de sucessivos vírus alterados…. Por isso aquela segurança da produção e dos abastecimentos deverá ter em conta longos períodos, sem contar com a China.

3. Alguma indústria voltará ao país de origem do investimento, mesmo com um custo de produção superior, para não haver roturas de stock, em particular de produtos de proteção pessoal dos agentes de saúde (nos hospitais e Centros de Saúde) e de fármacos. Também algum equipamento médico deve voltar a ser fabricado no país.

4. Parte importante da produção irá fixar-se nos países livres, com tradição industrial, e com custos baixos, como é o caso da Índia, do Vietname, das Filipinnas, da Malásia, ou da Indonésia, etc. O governo japonês já trabalha nesse sentido, tendo apelado para a deslocalização para fora da China; e com um incentivo monetário de $2,2 bn para estimular a saída rápida.

5. Se persistir a ideia de que a China não é fiável (não tem imprensa livre, por exemplo), isso levará gradualmente à saída massiva de empresas industriais aí estabelecidas.

6. As tomadas de posição no capital das empresas pelos grupos chineses, estará sob um rigoroso escrutínio, como já se nota nalguns países. A desconfiança leva a ver espionagem em tudo; e na mente dos governantes a “segurança do país”.

7. A deslocalização (saída da China) deverá contribuir para um desenvolvimento mais homogéneo do Sul e Sudeste Asiático, com boa criação de postos de trabalho. Isso levará a melhores condições de vida a muitos paises. Será ocasião para se investir na formação técnica, de skills, dos seus jovens para os tornar mais empregáveis e produtivos.

Esses países estarão atentos e, provavelmente a estudar as melhores condições financeiras e fiscais a oferecer para atrair as indústrias em saída da China.

8. Há na Índia uma grande atividade de projetos para modernos armazéns, nas cidades e nas suas proximidades, onde o ecommerce se afirmou de modo claro, durante o lockdown e estendeu-se para artigos de quase todo o género, incluindo a alimentação. Servirão para ter stocks de garantia de peças para a produção industrial.

8.1. Há a expectativa de que o e-commerce cresça muito, dadas as vantagens que apresenta: não há perdas de tempo em deslocações, nem nas filas de espera e há incentivos: 1. entrega no domicílio, sem custos e 2. promoções frequentes, dadas as grandes quantidades compradas aos produtores com descontos especiais.

8.2. Há previsão da necessidade de pequenos locais ao longo do país para a entrega dos pedidos do ecommerce. As pequenas lojas de esquina, as Kiranas, estão a ser digitalizadas pelos grandes do ecommerce (Reliance, Amazon, etc.), para serem os pontos donde entregar os pedidos feitos ás respetivas plataformas. (são mais de 30 milhões no país).

Isto, sem por de parte a hipótese de que muitas indústrias que saem da China venham a estabelecer-se na Índia, criando ali muitos jobs.

9. A pandemia obrigou a rever os procedimentos habituais de trabalho, agora com ênfase no tele-trabalho, feito de casa. E também com mais intervenção do ecommerce. É de pensar que haja muito mais produção distribuída pelo país criando emprego no artesanato para fabricação de artigos de qualidade. A Fabindia está a fazê-lo, comprando a mais de 70 mil fornecedores, em mais de 17 Centros de Compras. A Fabindia tem lojas de venda nos sítios adequados (freeshops dos aeroportos e nas grandes cidades visitadas por muitos turistas). Com a produção distribuida nas PMEs haverá redução da migração interna na procura de trabalho nas grandes cidades e melhores condições de vida.

 

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak (Índia) e autor do livro “O Despertar da Índia”

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais