Opinião

O Acordo UE-Mercosul e a Nova Geopolítica do Comércio: uma oportunidade que Portugal e Brasil não podem desperdiçar

João Antunes, Fieldfisher Portugal, e Roberta Jardim, Cescon Barrieu*
João Antunes, managing partner da Fieldfisher Portugal, e Roberta Jardim, sócia da Cescon Barrieu

O acordo de parceria entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em Assunção a 17 de janeiro de 2026, após 26 anos de negociações, ambiciona criar a maior zona de livre comércio do mundo, com mais de 700 milhões de consumidores. Surge num momento em que o recolhimento dos Estados Unidos sobre si próprios e a emergência da inteligência artificial estão a redesenhar, a velocidade vertiginosa, os modelos económicos, as cadeias de valor e as próprias profissões.

Os números são eloquentes: o comércio entre a UE e a América Latina atingiu 111,2 mil milhões de euros em 2024, e a Comissão Europeia estima um crescimento das exportações europeias até 39% com o pleno vigor do acordo. As resistências de países como a França, a Polónia e a Áustria não travam a oportunidade, antes a ampliam, gerando uma procura crescente de assessoria jurídica e estratégica em áreas como reestruturação de cadeias de abastecimento, M&A transatlântico e conformidade regulatória.

Para Portugal e para o Brasil, o momento tem um significado que transcende a abertura de mercados. Portugal é, por língua, história e posicionamento geográfico, o ponto de entrada natural do Brasil na Europa. O investimento brasileiro em Portugal já atingiu 4,2 mil milhões de euros no terceiro trimestre de 2025, com capital a fluir para fintech, cibersegurança e energia renovável. Empresas como a Embraer reforçam essa aposta.

A União Europeia é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, relativamente a comércio de bens, em 2025, de aproximadamente 100 mil milhões de dólares americanos, variando entre os mais diversos setores económicos que vão de produtos agrícolas até minérios estratégicos, combustível, produtos farmacêuticos e equipamentos industriais.

A entrada em vigor do Acordo de Comércio Provisório a partir de 1º de maio tanto no Brasil como na União Europeia, inaugura uma fase particularmente estratégica para o desenvolvimento de novos negócios e para o aproveitamento das reduções de tarifas.

Nesse contexto, mais do que identificar oportunidades, será essencial compreender com profundidade as regras institucionais, regulatórias e comerciais de cada bloco, bem como estruturar planeamentos jurídicos e económicos consistentes, capazes de mitigar riscos e maximizar ganhos. A realidade é que se abre um leque expressivo de oportunidades em setores estratégicos e no fortalecimento do multilateralismo. A nova ordem mundial está a ser escrita agora. Quem esperar pela estabilidade perderá a janela. Os negócios fazem-se no terreno e agora é o tempo de agir.

*João Antunes, managing partner da Fieldfisher Portugal, e Roberta Jardim, sócia da Cescon Barrieu.

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