Uma gostava do cheiro. A outra da ação e textura. No entanto, as duas concordavam num ponto: que textura e o odor do creme fosse do agrado de quem usa. Foi assim que surgiu a My.Skinmix, uma start-up que está incubada no Tec Labs, e que aposta na personalização de cremes.

Tem 24 anos, é licenciada em Ciências da Saúde pela Universidade de Lisboa e mestre em Microbiologia Aplicada pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu a tese de mestrado relacionada com a tuberculose.

Durante o seu progresso académico, Ana Prata participou em vários projetos científicos financiados, desde projetos relacionados com doenças infeciosas e estudos epidemiológicos até técnicas de impressão 3D de modelos anatómicos.

Contudo, foi durante a sua única disciplina de empreendedorismo em todo o seu percurso académico que Ana encontrou a sua verdadeira paixão profissional. O empreendedorismo despertou-lhe o interesse pela valorização da ciência nacional e pela inovação, e foi a conjugação destas áreas que acabaram por ditar o início da sua primeira start-up.

My.Skinmix tem como missão criar cosméticos que se ajustem às necessidades e desejos de cada pessoa, tendo vencido a terceira edição do Lisbon Challenge, programa de aceleração de empresas organizado pela Beta-i – Associação para a Promoção do Empreendedorismo e Inovação.

O Link To Leaders falou com a cofundadora e CEO da My.Skinmix para saber mais sobre esta start-up, que conta com mais de 4 mil combinações e que espera agora captar investimento privado.

Como e quando surgiu a My.Skinmix?
A My.Skinmix nasceu de um exercício muito simples, em que duas amigas chegam à casa de banho uma da outra e descobrem que têm o mesmo creme. Começam a comentar e descobrem que têm o mesmo creme por motivos completamente diferentes. Uma explicava que tinha aquele creme porque adorava aquela textura, apesar de nem precisar muito da ação que faz, e a outra porque precisava desesperadamente da ação daquele creme, mas se pudesse tirava o cheiro e mudava a textura. Isto é a base do que motiva esta ideia: mas porque é que as pessoas têm todas de usar o mesmo creme, se não estão todas à procura do mesmo creme? Porque é que têm de se sujeitar ao que já está previamente definido, sem ter uma opção daquilo que gostam e daquilo que precisam.

Este é o início de uma batalha que começou há alguns anos. A ideia foi sendo trabalhada junto das pessoas. Primeiro, tentámos perceber se as pessoas realmente concordavam connosco, se realmente havia aqui alguma coisa que as incomodava como nos incomodava a nós. Na primeira fase, fizemos centenas de entrevistas e percebemos que não estávamos sozinhas neste problema. A primeira constatação é que as pessoas se puderem mudam sempre, porque querem tornar qualquer coisa sua. Tentámos perceber o que é que mudavam, se as embalagens, a cor… e percebemos que eram principalmente três coisas: a textura, o efeito e o cheiro. A seguir, vinham as purpurinas, as cores, e a forma da embalagem também era importante. Isto deu-nos alguma bagagem para começar a trabalhar. Se é isto que as pessoas querem, é isto que vamos tentar fazer. Só nas texturas eu poderia trabalhar 10 anos e, no final, tinha todas as texturas do mundo e não tinha mais nada. O que fizemos foi começar por desenvolver um mínimo que permitisse testar junto de algum público se era aquilo que nós queríamos e aquilo que eles precisavam. Desenvolvemos uma base mais espessa e uma base mais líquida.

Depois desenvolvemos ativos que permitissem responder às cinco principais dores das pessoas e os cinco cheiros mais badalados e que fossem mais distantes, para começarmos a conseguir perceber se era realmente por aqui ou se não fazia diferença. Os primeiros resultados que constatámos junto de muitos voluntários, em mercados e feiras, foi perceber que isto fazia sentido, que as pessoas experimentavam e gostavam de coisas diferentes. Isto foi-nos dando alavancagem para se desenvolver aquela que foi a ideia que depois veio a dar origem ao My.Skinmix, hoje já com mais de 4 mil combinações.

Em que ano é que criaram a empresa?
A empresa foi criada em janeiro de 2016, mas já estávamos a desenvolver as fórmulas há dois anos. As fórmulas foram todas desenvolvidas aqui entre nós, os fundadores, no Tec Labs, tudo em Portugal.

Quantos elementos compõem a equipa?
Somos três sócios fundadores e uma equipa de vendas que oscila um pouco durante o ano, mas que chega às 14 pessoas. Isto deve-se muito à forma como abordamos o mercado, com o processo de chegar ao cliente. A My.Skinmix foi desenvolvendo muito esta questão. Sabíamos que, durante este ano, mais do que testar a qualidade dos produtos que tínhamos estado a validar durante quase três anos a fazer fórmulas, fazer aceleradores, ganhar prémios, falar com as pessoas, voltar atrás, fazer de novo, modelar, tínhamos de tentar perceber, por exemplo, o que as pessoas achavam da qualidade dos produtos. Doía ouvir que a imagem não estava à altura dos produtos. O que fizemos foi parar um bocadinho novamente e pensar.

Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, tínhamos de captar investimento, mas não queríamos ir à procura de investimento só com uma ideia, que foi o que aconteceu no final do Lisbon Challenge. Tínhamos uma ideia muito boa, mas era uma ideia e era difícil provar que isto ia funcionar à escala que nós queríamos, porque nós não queríamos ser as meninas dos cremes. A cosmética tem de ser desmembrada e feita da forma como hoje é possível, por exemplo, numa plataforma online. Hoje é possível que as pessoas possam aceder às 4 mil combinações que temos neste momento e, com um investimento relativamente baixo, conseguirmos chegar aos milhões e milhões de combinações e libertar as pessoas das combinações que lhes impõem. É uma ideia espetacular, mas vender isto enquanto ideia, quando as pessoas sabem que isto não é uma aplicação, que são produtos, que envolve mãos, que envolve experiências e uma série de coisas, não era fácil. Na altura, até houve alguns investidores interessados, mas fizeram algumas exigências que a equipa não quis aceitar. Isso foi ótimo. Hoje acho que foi uma das melhores coisas que nos aconteceu, mas foi muito duro e obrigou-nos a pensar que “eu tenho de provar que isto de alguma forma é possível, tenho de chegar ao pé de alguém e dizer que isto funciona”. Mas como é que eu faço isto?

Porque não há 10 milhões, não há 1 milhão de euros sequer. Já tínhamos estado a trabalhar nas fórmulas e víamos que a ciência por detrás disto era ótima. Sabíamos que a imagem tinha de ser melhorada e que precisávamos de dinheiro para o fazer. Há aqui um ciclo muito difícil de combater e isto combate-se com criatividade e com mãos de ferro. Nós tínhamos um orçamento para a imagem. Não sabíamos como é que ia acontecer, mas não podíamos sair dali. Portanto, a partir do momento em que começássemos a ter alguma coisa, essa alguma coisa tinha de ser para vender imediatamente. Isso é o que se chama um ano em bootstrapping, em que tudo o que se faz entra novamente na empresa. Todos os cêntimos contam nessa fase e foi o que nos permitiu trazer esta imagem toda da My.Skinmix.

Há receio de comprar sem experimentar?
Acontece muito haver pessoas que têm algum medo da mudança e da reação. Foi a pensar nisso que criámos um kit de iniciação que tem 3 bases, 3 ativos e 3 aromas, todos em volume reduzido, mas exatamente com o mesmo princípio, ou seja, os conta-gotas têm o suficiente para vários cremes, têm diferentes texturas, as embalagens até têm por baixo onde apontar o que foi usado para não se esquecer, e é só experimentar.

Qual é o preço habitual de um kit desses?
Estes kits têm um preço fixo de 34,99€. Existem algumas campanhas que vão sendo lançadas esporadicamente, sobretudo online. Existem dois kits, um para peles mais jovens e um para peles mais maduras, exatamente porque respondem a diferentes necessidades. O para peles jovens tem o Antioxidant Bomb à base de framboesa, tem o Sensitive Relief, e tem o Spot Crusher, que é anti-acne e anti-oleosidade. Os cheiros são a papaia, o chá verde e o marinho.

Que garantias é que eu tenho que os produtos da My.Skinmix me dão garantia para eu usar?
O motivo por que levámos mais de dois anos a desenvolver as fórmulas prende-se com o facto de nada ser lançado sequer para teste antes de ser testado por nós, de passar nas certificações todas e de nós sabermos que o que está ali dentro não só é 100% seguro, como 100% fiável. Existem muito produtos que até não são tóxicos, mas depois não fazem efeito. A My.Skinmix procura a eficácia dos seus produtos antes sequer de falar neles e isto para nós é uma diferença que marca. Sempre que saio para fazer algum evento da My.Skinmix, levo comigo dois dossier gigantes de todos os testes feitos aos nossos produtos e nada sai daqui sem estar nesse dossier e de termos a certeza de que o que lá está, está correto.

É fácil transmitir essa mensagem a quem não percebe?
Isto é a primeira parte. Depois temos os parceiros que trabalham connosco, para termos a certeza de que isto é realmente certificado, que o que dizemos que está lá dentro é o que era suposto estar. Depois na União Europeia isto é tudo regulamentado. A forma mais fácil de o comum utilizador perceber é que cada uma destas combinações tem de ser testada antes de sair para o mercado. Disse que são mais de 4 mil combinações. Agora imaginem que cada uma delas foi testada e surge uma nova base. Quando tal acontece, tem de se ir testar as combinações dessa base com todos os ativos, todos os aromas e combinações, o que leva o seu tempo e permite à My.Skinmix ter um conceito tão robusto. Depois também estar associado aqui à Faculdade de Ciências e ter o acesso a uma esmagadora rede e bateria de testes e material de laboratório de primeira qualidade, também nos permite seguir esse caminho.

O facto de não usarmos parabenos e sulfatos também é muito importante e já isso dá alguma confiança aos consumidores. Um consumidor de produtos orgânicos sabe como é difícil arranjar estes produtos com real qualidade e sabe o quão difícil é para o produtor fazê-los, porque é mais fácil pegar noutro tipo de produtos que não esses. Só nos associarmos a produtos orgânicos e percorremos esse caminho, porque só queremos o melhor. Estamos até num processo para certificar a My.Skinmix como uma empresa vegan, mais do que orgânica. Só ainda não o conseguimos, porque a cera da abelha que está na base rica que, não sendo de origem animal, envolve trabalho animal e algumas empresas de certificação debatem-se com esse problema. Estamos a trabalhar para perceber se conseguimos alterar as nossas fórmulas, para conseguir certificar com mais este selo, porque, sendo orgânica e sendo destes produtos que evocam muito a natureza, tem um ar de luxo, de escolha a que as pessoas não estão habituadas. Aconteceu-me falar com investidores homens há pouco tempo e um, assim que ouviu a palavra orgânica, disse logo que ia cheirar mal, o que não é verdade. Começámos a seguir a linha de produtos orgânicos, não por agora estarem um pouco na moda, mas porque para nós eram realmente os melhores ingredientes. Fizemos o exercício ao contrário, fomos escolhendo o que era bom ou não, o que fazia sentido e, um dia, um de nós dá conta de que tudo o que tínhamos escolhido era orgânico e foi aí que nos tornámos uma empresa orgânica.

Vendem em espaços físicos ou apenas online?
Vendemos em três canais e foi a isso que nos dedicámos no ano passado. Temos o online, que consegue utilizar já o algoritmo MY.MIX para ir escolhendo a combinação que prefere e que precisa em função das suas necessidades e gostos. Temos uma rede de consultoras que apresentam os produtos fisicamente, um pouco como faz a Mary Kay e a Avon. Foi uma grande ajuda à marca para conseguir chegar a muitas pessoas em pontos diferentes e perceber o que elas pensavam. Neste último ano, foi muito importante para nós perceber que atingem um público diferente do online, normalmente pessoas com mais alguma idade e não tão adeptas de comprar online, ou então que até compram online mas em segundas compras e que na primeira têm de experimentar. O conceito de experimentação na My.Skinmix é muito importante. Tentámos explorar isto com essa rede de consultoras e funcionou. Queremos agora renovar essa rede. Queremos agora criar uma maior e até com contornos diferentes para ser interessante.

Temos estado a trabalhar junto das consultoras, para perceber o que pode funcionar melhor e também aí percebemos que precisamos de fundos. Fazer crescer uma rede destas de forma sustentável é importante, porque há muitas redes destas que rebentam, porque acabam por se associar ao grupo muito depressa e, se a empresa não tem capacidade de responder, é um tiro no pé. Depois ainda temos o conceito das apresentações da empresa em contexto pop-up. O que conseguimos fazer até agora, foi estar presente nos maiores eventos e feiras em Portugal. Em Lisboa, temos feito o Campo Pequeno, Alvalade, algumas coisas no LX Market, e isso permite-nos um impacto para as pessoas nos conhecerem, não é tanto em termos de vendas, mas em termos de marca para primeiras vendas. As pessoas conhecem fisicamente o produto, algumas compram outras não, mas não é esse o objetivo. Por isso, não estamos sempre no mesmo sítio, queremos mostrar e que as pessoas conheçam, que acabam por comprar depois online.

No total qual foi o investimento que fizeram desde o início?
A empresa foi criada com 10.500 euros dos três sócios fundadores.

E preveem captar investimento privado?
Estamos agora no processo de arranque dessa nova fase. Sabíamos que tínhamos de provar que não era só uma ideia. Conseguimos e testámos três canais de venda diferentes e conseguimos vender pelos três. Mas também conseguimos perceber que precisamos de pessoas a trabalhar connosco. Quando, de certa forma, estão otimizados todos os recursos que se tem e percebemos que para crescer se precisa de dinheiro, percebemos que precisamos mais do que isso. Uma coisa que percebi ao longo do ano foi que, mais do que dinheiro, eu preciso de ajuda. Aceitámos esta ideia de ir à procura de investimento. Sabíamos que esse dia ia chegar, mas queremos mais do que investimento, queremos pessoas que venham para cá, porque acreditam no projeto e porque têm alguma coisa para nos dar e ajudar.

Estamos sobretudo a falar com business angels e é nesse regime que gostávamos de ficar. Não tenho propriamente muita experiência neste processo de lidar com vários investidores diferentes, mas tenho comigo pessoas que já o fizeram durante o que é uma vida e que já me ensinaram lições muito valiosas sobre o que fazer e o que não fazer. Por isso é que digo que não passei pela experiência oposta, mas acredito piamente que, mais do que dinheiro, eu preciso de ajuda. Essa ajuda vem normalmente de pessoas que acreditam no projeto e que acabam por investir em grupos. É difícil arranjar em Portugal alguém que invista sozinho, mas existem alguns grupos e estamos a conseguir chegar-lhes.

Como é que fizeram essa incursão para chegar a esses grupos de investidores?
Em primeiro lugar, acho que os aceleradores todos pelos quais passámos, os grupos todos a que nos associámos e os eventos todos em que participamos dão-nos alguma bagagem para já ter à priori esses contactos. Depois o facto de estarmos incubados no Tec Labs, da Faculdade de Ciências e da Universidade de Lisboa, ajuda-nos muito, porque há sempre algum evento, alguma coisa que faz gerar, como o dia aberto do Tec Labs, em que cá trouxeram investidores e uma série de pessoas muito interessantes, o que também nos traz energia. São os contactos que já temos, o sítio onde estamos e depois é mandar emails e contactos que têm contactos. É um bocadinho assim. É difícil ir à procura a gritar aos sete ventos que precisamos de dinheiro.

O que vai ser decisivo para esse investidor entrar na My.Skinmix?
Na decisão do grupo vai pesar o gostarem projeto. Acredito que, se vêm cá meter o dinheiro, é porque gostam minimamente para estar dispostos a correr o risco de pôr cá o dinheiro. Fui descobrindo com alguma surpresa que há alguns investidores que têm uma maneira de estar muito complicada e que não é muito compatível com empresas como esta. Pode funcionar em aplicações, em que metem 5 ou 10 mil euros e eles conseguem rentabilizar aquele dinheiro, mas uma empresa destas consome mais, é um perfil um bocadinho diferente. Acima de tudo, tem de ser uma pessoa que nos consiga trazer conhecimento que nós ainda não temos. Por exemplo, uma das nossas grandes dores é faltar-nos na equipa uma pessoa que consiga compreender isto. Ter um investidor que perceba esta necessidade de que esta empresa pode funcionar online e a sua grande força pode ser estar no online é para nós um grande fator. Uma das coisas que aprendi foi que, da mesma forma que não posso mudar de direção cada vez que um cliente diz que gostava de ter um creme de mãos ou um creme de cutículas, também não posso mudar a direção da empresa cada vez que um investidor diz que gostava mesmo era que apostássemos nisto ou naquilo.

Não posso fazer isso e há uma tendência muito grande para isso acontecer. Acho que temos de adaptar o nosso projeto a quem quer investir nele, porque precisamos e porque essa pessoa tem alguma coisa para nos ensinar, mas tem de ter um foco muito preciso e quem não acredita nele e no caminho que queremos seguir, se calhar é uma pessoa que ainda não pode fazer este caminho consigo, para o bem e para o mal, porque, se quiserem caminhos completamente diferentes, vai chegar a um ponto em que vai correr mal. Uma coisa que nunca fizemos na My.Skinmix foi mudar o rumo que queríamos dar à empresa em função do que as outras pessoas queriam que nós fizemos.

Este investimento será aplicado em quê?
Esse dinheiro será aplicado em produção, mas muito no marketing e branding. Percebemos que conseguimos chegar muito longe em termos de formulação, porque é a nossa base, é o nosso trabalho, mas agora precisamos de agarrar nisto e mostrá-lo ao mundo e isso não se consegue em bootstrapping em tempo útil. Foi aí que percebemos que temos de pedir ajuda, pedir dinheiro sim, mas, acima de tudo, pedir ajuda e que sejam pessoas muito boas a fazer isto.

Qual foi o maior desafio que encontrou neste projeto até agora?
Não o considero um entrave, mas o maior desafio foi ter-me feito crescer muito a nível profissional e isso se refletir diretamente na empresa. Quando criamos a My.Skinmix ou quando a ideia cresceu ainda estava na faculdade e passei de terminar a tese para este mundo do empreendedorismo, sem nada a que me pudesse agarrar em termos profissionais. Houve alturas em que achei que isso era mau. Agora considero que foi muito bom, porque ganhei uma perspetiva muito diferente. Mas isto fez com que, muitas vezes, acabasse por ser sempre eu a ficar mais tempo dedicada ao projeto, e agora a tempo inteiro. Uma das sensações mais angustiantes que se pode ter, é sentir que tem de dar mais e tem de arranjar forma de ser mais para aquele projeto, o que me fez crescer muito e perceber que a minha formação, para estar à frente de uma coisa destas, tinha que ser muito mais do que os diplomas.

É preciso ir pesquisar coisas que nunca se imaginou, treinar-se em coisas que nunca se pensou vir a treinar e isso fez com que visse o desafio de quanto mais eu me levasse, mais longe conseguia levar a My.Skinmix. E isso viu-se, porque só quando meti na cabeça que conseguia, é que as coisas aconteceram e isso refletia-se muito na equipa. Tinha a sorte de ter uma equipa que sempre me disse que éramos capazes e que eu havia de ser capaz e que havia de arranjar uma forma, mesmo quando mais ninguém acreditava, e isso foi muito importante e continua a ser.

Em termos de vendas, quanto já venderam?
Posso dizer-lhe que andamos na casa de milhares de euros com um ano de existência e consideramos que essas vendas são o reflexo de provar que o conceito funciona, são vendas protótipo com as quais a empresa se sustenta. Estivemos um ano em bootstrapping, mas essas vendas permitiram-nos pagar as compras, pagar esta mudança toda na imagem e estar a testar tudo o que queríamos testar. Acaba por ser sempre um balanço positivo mostrar que existem centenas de pessoas que acreditam neste projeto. Existe já uma centena de pessoas que voltaram e isso para nós é muito importante e é a esses números que nos agarramos.

Como vê o futuro da cosmética em Portugal?
Não consigo separar o futuro da cosmética em Portugal do da cosmética mundial. Começámos em Portugal por dois motivos: porque estamos cá todos e porque por cá se vive uma onda frenética do empreendedorismo. Costumo dizer que sou o babyboom do empreendedorismo, porque, se há pessoa que nasceu na altura em que isto estava a fervilhar, sou eu que comecei em 2014 e acho que foi a primeira grande rampa de lançamento. Posso dizer que, quando comecei a trabalhar na My.Skinmix, era muito estranho na cabeça dos meus amigos e das pessoas com quem eu lidava falar de uma incubadora, do conceito de start-up, de investidor, de break-even.

Hoje já é completamente diferente e nem quatro anos passaram. Já tenho amigos que falam da ideia de criarem um negócio e sabem o que são estes conceitos. Como é que eu vejo isto, a mudar completamente a forma como as pessoas veem a cosmética? Já há sinais de que a cosmética está a mudar. A verdade é que as pessoas querem cada vez mais personalizar os seus produtos. Isto não acontece só na cosmética mas em tudo, dos ténis aos carros, aos telemóveis, ao que se quiser. A cosmética não é a exceção a esta regra.

Ainda se vê muito que o que é personalizável na cosmética, é muito pouco ou é muito pouco e muito caro. É tido um pouco como o premium, de centenas de euros para cima. Isso vai ter de mudar, porque, se há coisa que tenho visto em diferentes mercados, é que, quando há uma necessidade, as opções vão aparecendo e a cosmética não vai poder, pelo menos enquanto massa, a continuar a comportar-se como aqueles cremes que estão no mercado sem mudar há 80/90 anos. Quando isso acontece, é sinal de que há um monopólio e, se há coisa que as start-ups gostam de fazer, é quebrar monopólios.

Não sei se será a My.Skinmix a conseguir fazer isso, gostava muito, mas o que sei é que o que estamos a fazer é único e dá uma luta e um prazer diário incrível. Saber que se está realmente a tentar mudar alguma coisa, é indescritível, mas é duro. Não tenho dúvidas de que o mercado da cosmética vai mudar e que vai ter a ver com esta questão da personalização. A My.Skinmix não está dois passos à frente, está uma maratona e meia, porque é todo um novo nível e, quando vemos estas coisas, vemos que estamos no caminho certo, porque, se até os gigantes têm a necessidade de mostrar às pessoas que os cremes não são todos iguais, que um é melhor do que o outro por algum motivo em particular, então, se calhar, estamos no caminho certo.

A questão da personalização dos cremes já vem muito de trás, desde a altura em que, sobretudo as mulheres começaram esta questão do tratamento de pele e de associar determinado cheiro a determinado creme. Via-se muito, por exemplo, em França, adicionar alguma coisa àquele creme para o tornar especial. Isto é uma tendência natural no ser humano. O que acho que veio bloquear este processo foi a questão da segurança. Fazermos os nossos produtos em casa tem vários riscos associados e é por isso que a cosmética na União Europeia é tão regulamentada. Às vezes, não temos a noção do quão protegidos estamos, mas, se formos por exemplo ao Brasil, percebemos que misturar cremes com partes de plantas e dar às pessoas já não é comum, mas continua a ter o seu quê de habitual.

Porque é que isto está como está, com um monopólio? Porque é muito mais fácil ter uma prateleira cheia de 4 mil cremes todos iguais, do que ter 4 mil combinações todas diferentes. É muito mais fácil, em termos de vendas, de manutenções, de custos e isto cria uma ideia de que quanto menos tivermos de trabalhar nesta parte melhor, tendo apenas de convencer as pessoas de que aquilo é bom para todos. É um exercício muito complicado. Uma das questões mais difíceis que tive aqui na My.Skinmix é a dos cremes de dia e dos cremes de noite, porque a indústria alimentou de tal forma este conceito, que há pessoas que não vivem sem isso. E há algumas que vêm ter connosco e perguntam se é mesmo preciso isso. O que respondemos e transmitimos às consultoras para responderem é que depende daquilo que a pessoa quer e precisa. Não é por se ter um creme de dia e um de noite que a pele é mais saudável, há é pessoas que têm diferentes necessidades que gostam de colmatar de dia e de noite.

Há pessoas que querem acordar, pôr o creme e sair a correr de casa e não querem perder tempo para a pele absorver o creme, e para isso temos a base mais líquida, quase em gel; e depois à noite gostam de ter o creme a ser absorvido e a atuar. Isso pode, por exemplo, ser a diferença entre um creme de dia e um creme de noite. Não quer dizer que tenha menos ou mais efeito, porque está a ter dois cremes diferentes. Depende daquilo que quer e daquilo que precisa. É uma mensagem que tentamos passar de forma muito clara às pessoas.

O futuro da My.Skinmix passa pela internacionalização? Em que mercados?
Sempre. Em primeiro lugar, o mercado europeu tem uma particularidade que não se vê em todos os mercados que se estudam. O mercado europeu está avaliado em valores superiores aos da Ásia e da América, se bem que a Ásia agora, a Coreia em particular, está a ter um boom inacreditável na cosmética. Mas a Europa e, dentro desta, escolhendo países como a França, o Reino Unido, a Alemanha que também tem um bom consumo de cosméticos, e a Itália. O Reino Unido, em termos de produtos orgânicos, é uma loucura. Aqui em Portugal o orgânico está na moda sim, as pessoas gostam sim, mas é difícil encontrar uma marca que grite na sua cara que é orgânico. Em Londres, há cadeias de fastfood que anunciam que são orgânicos, feiras de produtos orgânicos por todo o lado, é um mercado em que realmente se deve apostar.

Até agora, não tínhamos a capacidade de dirigir o nosso foco para tantos mercados diferentes, mas a verdade é que pela vertente online já fizemos exportações, com encomendas internacionais, inclusive para o Brasil.

Comentários