A Covid-19, além de doença, eu designo-a como um fenómeno que marca o início de um longo processo de transformação estrutural que a sociedade vai observar nos próximos tempos. Esta transformação ocorrerá em várias áreas da sociedade, mas destacaremos algumas tais como a económica, política, social, laboral, religiosa e cultural.

Mas sabendo que a sociedade teve sempre mudanças estruturais, não será essa mais uma ou tem alguma especificidade? Podemos dizer que tem especificidades na medida em que ocorre em direto (live), de forma interativa e com data de início: em direto porque na era das tecnologias de informação e comunicação em que vivemos, a informação ocorre à velocidade da luz; com data de início porque podemos considerar a data da comunicação da OMS como sendo pandemia (11 de março de 2020) como o início destas transformações.

A partir deste fenómeno, a vida em sociedade já não será a mesma, e o que vier a seguir já foi chamado de nova normalidade, no pressuposto de que as medidas sanitárias de distanciamento social permanecerão por muito tempo devido às dificuldades no processo de desenvolvimento, aprovação e aplicação de uma vacina no curto prazo.

É desta forma que o caminho para esta nova normalidade precisa de ser construída, mediante as escolhas que a sociedade e seus decisores farão.

Contexto
Esta pandemia veio mostrar a importância de estarmos atentos a novos riscos que estarão surgindo. Efetivamente, os riscos têm aumentado nas últimas décadas em várias esferas da sociedade; riscos cibernéticos, riscos climáticos, riscos de saúde pública, riscos económicos, riscos para a própria democracia, etc.

E, voltando um pouco para a história, vemos, por exemplo, que a partir de 2001 houve uma mudança de paradigma na aviação comercial que afetou a forma como viajamos, no sentido de mitigar os riscos. Também a partir de 2008, na sequência da crise financeira internacional, o sistema financeiro foi alvo de profundas reformas no sentido de mitigar os riscos de novas crises e ganhar resiliência.

Assim, desde que foi declarada a pandemia, e apesar da novidade e rapidez dos eventos, várias medidas já foram tomadas ao nível sanitário, económico e social no sentido de mitigar a situação. E como referimos no artigo anterior, a pandemia provocou não apenas a crise sanitária, mas a crise económica e a crise social.

Mitigação de riscos
As transformações que referimos no início do artigo serão resultado das escolhas políticas, sociais e económicas que a sociedade fará no sentido de mitigar os riscos, ganhar resiliência e, a partir daqui, construir um novo normal.

Sendo assim, destacaríamos algumas áreas em que tais transformações ocorrerão:

  1. Sanitária
  2. Económica
  3. Social
  4. Laboral
  5. Governação

Por hoje começaremos por analisar a parte sanitária e retomaremos as restantes na parte 2 do artigo.

  1. Sanitária

Até a chegada desta nova pandemia, julgo não errar se disser que não tínhamos a verdadeira noção de como crises sanitárias provocariam crises económicas, pelo menos na história recente. Geralmente, as crises económicas desenvolvem-se através de fatores endógenos à própria economia (taxas de juro ou inflação, consumo, produção, especulação, crédito), e mesmo a grande depressão não foi diferente.

Sendo assim, ficou evidente que surgiu um novo risco para a economia, risco esse que precisa ser mitigado com o reforço das medidas e políticas públicas sanitárias:

  • Algum reforço tanto em quantidade como em qualidade nas infraestruturas de saúde (sem descurar a capacitação dos RH), pois ficou evidente que a preocupação de todos era evitar a rotura dos sistemas de saúde, ou seja, evitar que houvesse muitos contágios e pouca oferta de unidades de cuidados, e esse aspeto foi determinante para as políticas, nomeadamente o confinamento;
  • Aumento considerável no investimento na investigação e desenvolvimento nas áreas de ciências da vida e da saúde e da biotecnologia;
  • Possível mudança de paradigma, de serviço nacional para sistema nacional de saúde;
  • Aumento da atenção à biossegurança por parte dos poderes públicos.

(Continua no próximo artigo)

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Sobre o autor

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Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária... Ler Mais