Investir em empresas brasileiras que querem expandir os seus negócios para a Europa. É esta a missão da COREangels que procura start-ups que tenham “um produto validado no mercado brasileiro” e os olhos postos na expansão internacional. O Link To Leaders falou com Cíntia Mano, sócia e diretora desta rede internacional de grupos profissionais de business angels, sobre os objetivos para este ano e as empresas que estão a apoiar.

“Quantas vezes eu já não me encantei por uma start-up e depois mudei a minha opinião após ouvir comentários de outros business angels? O contrário também acontece. Não via muita oportunidade naquele negócio e depois de conversar com “um anjo” mais experiente naquele mercado, mudei de ideia”, afirma Cíntia Mano, cofundadora da COREangels, sobre os riscos que os investidores enfrentam.

A investidora começou a sua caminhada no universo das start-ups ainda no Brasil, depois de uma carreira profissional ligada a grandes empresas. Em 2020, a Sifted identificou-a como uma das oito investidoras portuguesas que tem contribuído para dinamizar o panorama nacional.

Atualmente é sócia e diretora da rede internacional COREangels e investidora da COREangels Atlantic, um grupo de business angels que investe em start-ups brasileiras em expansão para a Europa. E conta com um portefólio de mais de 30 investimentos, uma função que concilia com a de diretora de Negócios na OilFinder.

A COREangels é uma rede internacional de grupos profissionais de Business Angels que começou a funcionar em 2019. Passados estes anos, como avalia o trabalho desenvolvido e o impacto provocado no ecossistema?
Estes primeiros anos foram dedicados a estabelecer e a solidificar o nosso modelo em grupos de diferentes perfis e países. E este trabalho continua. Cada grupo COREangels reúne business angels que investem juntos num único portefólio, e que contam com gestores dedicados para construir e acompanhar este portefólio.

Em termos de setores de atividade, qual o foco de investimento da COREangels? Saúde, ambiente…
Cada grupo é autónomo para gerir os seus investimentos e, portanto, escolher as start-ups em que vai investir. No entanto, desde a fase de planeamento, que fazemos juntamente com os líderes de cada grupo, é definida uma tese de investimento.

Os grupos podem ser geográficos (focados num determinado ecossistema), verticais (focados num segmento ou indústria) ou cross-border (grupos que investem em start-ups que já demonstram tração num mercado e que estão prontas a expandir para outros mercados).

“É preciso ter um produto validado no mercado brasileiro, ou seja, com clientes e faturação, e com características que permitam um adaptação ao mercado europeu”.

A COREangels Atlantic continua a investir apenas em empresas brasileiras que querem vir para a Europa ou expandiu o leque de atuação? Qual é o foco atual?
O foco permanece o mesmo –  investir em empresas brasileiras que querem expandir os seus negócios para a Europa. Neste caso, a tese de investimento é agnóstica em relação ao setor de atuação, mas bem definida em relação ao momento da start-up. É preciso ter um produto validado no mercado brasileiro, ou seja, com clientes e faturação, e com características que permitam um adaptação ao mercado europeu.

O facto de se estar integrado no grupo de business angels (BA) é mais tranquilizador para um investidor quanto à questão do risco?
Eu considero que é um dos fatores mais atraentes para alguns business angels. Há uma questão de investir com outras pessoas, com diferentes backgrounds e isso não só tem potencial para melhorar as decisão de investimento, como também aumenta significativamente a qualidade de acompanhamento e apoio que o grupo pode dar às suas investidas.

Além disso, há também a questão da conveniência, receber oportunidades já analisadas e filtradas, não precisar de tratar de toda a documentação de investimento, perceber as diversas cláusulas contratuais, etc.

Quais os riscos, ou não, para um BA que atua sozinho?
Quando se investe sozinho é muito mais fácil estar suscetível aos seus próprios vieses. Isso é perigoso. Quantas vezes eu já não me encantei por uma start-up e depois mudei a minha opinião após ouvir comentários de outros business angels? O contrário também acontece. Não via muita oportunidade naquele negócio e depois de conversar com “um anjo” mais experiente naquele mercado acabei por mudar de ideia.

Outra questão é a diversificação. Investir num grupo, num mesmo portefólio, significa poder investir em muitas start-ups, o que para alguns “anjos” não é possível. E ter um portefólio com start-ups variadas e riscos distintos reduz o risco médio da carteira. Além disso, o business angel sozinho tende a ter mais dificuldade de contribuir para a start-up, seja por uma limitação de conhecimento ou mesmo de relacionamento.

Sendo brasileira, com é que a Cíntia lida com as diferenças culturais entre os países e com as diferenças na forma de fazer negócios?
Eu aprendo todos os dias. Às vezes aborreço-me, outras vezes divirto-me. Mas conviver com diferentes culturas é o normal na COREangels, pois temos pessoas da equipa, business angels, founders e líderes de diferentes países. O importante é sempre o que nos une e focarmo-nos nisso é um exercício diário.

Uma das lacunas muitas vezes apontadas ao mercado português é a lentidão na maneira de fazer negócios. Enquanto investidora, como é que vive essa realidade?
É uma questão que impacta muito as start-ups investidas, especialmente as que trabalham para médias e grandes empresas. Uma start-up não pode esperar seis meses (às vezes mais tempo) para fechar um contrato. Ela pode morrer antes disso. As empresas grandes e médias ainda acham que estão a fazer um favor ao se relacionarem com as start-ups. Mas cedo ou tarde percebem que não é assim. Na minha opinião é uma questão de seleção natural, quem se adaptar vai sobreviver. As empresas que ainda estão a desenhar programas de inovação para colocar no relatório dos acionistas no final do ano, vão sofrer.

A COREangels assume-se como uma network de pessoas com paixão por ajudar os empreendedores a lançar negócios inovadores.  Há talento no ecossistema empreendedor português?
Creio que sim, talento e vontade de pensar grande e de ir para o mundo. As histórias das unicórnios portuguesas inspiram os jovens talentos e precisamos de mecanismos que os impeçam de desistir ao longo do caminho. As questões relativas à saúde mental, o acesso a funding, o acesso a outros mercados são muito importantes para que a juventude portuguesa entenda que é possível empreender no país e fora dele e que esta pode ser sim uma aventura feliz.

“Bom, quando comecei no mundo das start-ups no Brasil ainda não se usava este termo e era tudo muito difícil. O acesso a funding era precário, recebíamos contato de investidores que sabiam que queriam investir”.

A Cíntia começou a sua caminhada no universo das start-ups ainda no Brasil, depois de uma carreira profissional ligada a grandes empresas. Como  olha para a evolução do mercado das start-ups nestes últimos anos no Brasil e em Portugal?
Bom, quando comecei no mundo das start-ups no Brasil ainda não se usava este termo e era tudo muito difícil. O acesso a funding era precário, recebíamos contato de investidores que sabiam que queriam investir, mas não sabiam muito bem como – às vezes estavam mais perdidos do que nós.

As instituições governamentais tentavam ajudar, mas ainda não estavam minimamente organizadas. E dados do setor, então, nem sequer existiam. Hoje ambos os mercados, o brasileiro e português, evoluíram muito. O empreendedorismo ganhou uma importância na economia, na academia e até mesmo nas grandes empresas, que ainda tem muita dificuldade em absorver o mundo das start-ups e todo o seu contributo.

No Brasil as start-ups ainda são muito voltadas para o mercado interno (o que é compreensível, dado o tamanho do mercado brasileiro) e em Portugal já se nasce a pensar global. Uma coisa que me surpreendeu em Portugal foi o esforço das universidades em fazer este mundo entrar no meio académico, ao provocar os alunos a pensar em soluções para o mundo e como estas soluções precisam de ser financiadas, planeadas e testadas.

Ainda faltam BA mulheres? Porquê na sua opinião? São mais avessas ao risco?
O número de BA mulheres está a aumentar, mas muito lentamente. Ainda somos muito poucas. Não sei se mais avessas a risco, porque há mulheres a depararem-se com o risco ao investir na bolsa, cripto, fundos diversos. Mas perceba que estes são investimentos solitários, sem exposição. Talvez as mulheres não se aproximem tanto dos clubes e grupos de business angels porque há alguma perceção (alimentada por programas de televisão e outras media) de se tratar de um ambiente hostil, com negociações agressivas e clima pouco amistoso. E isso gera conflitos com o modo de fazer negócio da maioria das mulheres, especialmente as mais experientes já não tem paciência para certas coisas.

Claro que não podemos generalizar, mas tenho percebido este tipo de preocupação por parte das mulheres que me procuram para saber sobre esta atividade. A minha experiência pessoal não tem qualquer relação com este imaginário. Tem sido mesmo ótima. O clima é muito bom, ambiente nada hostil e aprendemos juntos. Além de diversificar o portefólio, ter uma diversidade de “anjos” no que toca à experiência, idade, género, origem, é muito importante para as decisões de investimento e para os contributos que podemos dar às start-ups.

“À medida que homens e mulheres mais jovens se tornam business angels (e eu acredito que há empreendedores jovens com potencial incrível para serem BA), o ambiente deve melhorar e as mulheres devem se interessar mais”.

Os homens vão continuar a dominar este setor de atividade ou a nova geração de mulheres investidores/empreendedoras está a mudar este cenário?
Acho que os homens vão dominar este setor durante muito tempo. À medida que homens e mulheres mais jovens se tornam business angels (e eu acredito que há empreendedores jovens com potencial incrível para serem BA), o ambiente deve melhorar e as mulheres devem se interessar mais pela função.

Quais as ambições da COREangels para 2022? Expansão geográfica?
A expansão geográfica é um objetivo para 2022 e vai acelerar em 2023. Temos sido procurados por pessoas em todos os continentes para criar um grupo profissional de business angels, seguindo nosso modelo. E estamos a construir uma comunidade muito interessante. Isto leva-nos a outro objetivo fundamental: o de fortalecer a nossa comunidade. Há muito potencial a ser trabalhado em coinvestimentos e operações intergrupos e estamos a construir soluções para isso.

Comentários