Muito se escreve sobre igualdade de género no empreendedorismo e a necessidade de eliminar desigualdades que se verificam, nomeadamente a nível de acesso a recursos e em particular os financeiros.

Este é um assunto que preocupa mesmo grandes organizações para o desenvolvimento económico como o Banco Mundial e até a própria Comissão Europeia. Eu própria já escrevi sobre este tema aqui na Link to Leaders, dando até um conjunto de pistas para ajudar as empreendedoras a ultrapassar as dificuldades mais frequentes. Se tiver interesse, pode encontrá-lo aqui.

Como mulher com longos anos de carreira, que já enfrentou uma série dessas situações (umas mais cliché outras algo rebuscadas) sinto-me à vontade para partilhar uma visão que pode não ser a mais confortável, mas na qual acredito profundamente: as mulheres vão ter que ultrapassar a barreira psicológica da tecnologia, se quiserem continuar a progredir na igualdade de oportunidades a nível profissional, sob pena de ficarem em campos de especialidade que não são os de grande crescimento nem de grande investimento.

Explico: as grandes tendências de inovação e desenvolvimento envolvem tecnologias que são já incontornáveis para o sucesso seja de startups ou de negócios maduros. Vão ser, ou são já, fundamentais os profissionais que sabem integrar estes novos desafios nas suas atividades de dia a dia, seja em que setor económico for.

A procura de recursos humanos com grande literacia tecnológica já aumentou, e esta é uma tendência completamente neutra em termos de género pois as organizações estão já muito sensibilizadas para o interesse de ter equipas diversas e inclusivas. A menos que, por escolha individual, se gere uma força de trabalho desequilibrada. Aí, não haverá qualquer alternativa…

Há cinco grandes tecnologias que estão a mudar organizações e a dar vida a modelos de negócio completamente novos, que é preciso conhecer:

– Computação em núvem (Cloud computing)
– Internet das Coisas (IoT)
– Big Data
– Inteligência Artificial
– Blockchain (e a tecnologia financeira que daí decorre)

Sem pelo menos perceber os princípios destas tecnologias, o que fazem e o seu impacto sobre a forma como as empresas operam na generalidade dos setores económicos nenhum(a) profissional de gestão estará preparado para o futuro que – sejamos realistas – já chegou.

A computação em nuvem veio democratizar o acesso a capacidade de processamento de uma forma inédita, por custos cada vez mais baixos.

A instalação de sensores com capacidade de leitura e de emissão de dados em objetos até agora inanimados tem mudado completamente a forma como se organizam as cadeias de valor, como se gerem operações industriais e até como se criam modelos de negócio.

De repente, multiplicou-se a quantidade de informação que cada organização gera – como organizar e analisar esses dados? Surgem novas funções nas organizações, como “data scientist” e “data engineer”.

Através de “machine learning” e inteligência artificial toda esta informação pode passar de uma função apenas descritiva para a função preditiva – de repente o passado pode ajudar a prever o futuro e com esta informação as empresas podem tomar decisões com um perfil de risco alterado para melhor e uma estrutura de custos também muito diferente.

Blockchain … Não é uma realidade fácil, admito. Mas entender os princípios básicos do seu funcionamento ao distribuir a informação por diferentes locais e o que traz em termos de impacto potencial para vários setores, o financeiro obviamente (quem não ouviu falar de criptomoedas?) mas não só, em termos de gestão da informação e segurança dos dados e das transações, será fundamental para entender o mundo que se está a criar enquanto conversamos.

Mas, voltando ao início, por que é que é fundamental que as mulheres profissionais e as empreendedoras estejam por dentro destas tecnologias?

Porque são estas tecnologias que vão determinar a inovação nos produtos, serviços e modelos de negócio que são a base das start-ups. Porque são estes os profissionais que vão ter maior valorização no mercado de trabalho do futuro. E porque é aqui que vai estar o capital disponível para investimento nas próximas décadas.

Como documento do que aqui afirmo, desafio-a a entrar no portal do Comissão Europeia e ver as prioridades definidas para o Horizonte Europa e as áreas de atividade empreendedora que têm portas abertas a candidaturas a fundos europeus. Está aqui o link.

E depois, vale a pena ver a página do European Innovation Council, onde as imagens mostram claramente o público que desejam inspirar: aqui.

Este é o manifesto que lhe deixo: A igualdade de género no empreendedorismo tem a sua solução na tecnologia!

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Sílvia Taveira de Almeida é cofundadora e CEO da Business Angels Universidade Católica, é Investor in Residence, e ainda docente na cadeira Entrepreneurship & Innovation na CATÓLICA-LISBON SBE. Colabora com a Fábrica de Startups em projetos de inovação corporativa e é formadora em vários programas de aceleração.
Nos tempos livres, é mentora de start-ups, todas elas com mulheres nas equipas fundadoras. Antes disso, trabalhou durante mais de 20 anos em reconhecidos grupos multinacionais como UBS, General Electric e Cofidis, bem como em grupos portugueses como a EDP e Millennium BCP. É licenciada em Economia pela CATÓLICA-LISBON SBE e tem um MBA pela Kellogg School of Management. Também é membro da Associação Portuguesa de Business Angels (APBA) – agora Investors Portugal – e do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG).

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