Entrevista/ “Mais do que digitalizar a indústria portuguesa, queremos ajudar a prepará-la para as próximas gerações de tecnologia”

Afonso Roque, cofundador da Vouga Agency
Foto: Afonso Roque, cofundador da Vouga Agency

“Acreditamos que a verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em adotar inteligência artificial, mas na capacidade de uma empresa se adaptar, integrar e tirar partido das novas tecnologias à medida que estas surgem”, defende o jovem cofundador da Vouga Agency.

A Vouga Agency  é uma jovem start-up fundada no Porto pelos igualmente jovens diplomados em Engenharia de Sistemas Afonso Roque e Miguel Correia, ligados ao ecossistema do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Dois jovens que saíram de uma start-up de IA para construir a sua própria empresa, sem financiamento externo, reunindo uma equipa e indo literalmente porta a porta conhecer a indústria portuguesa, lembra Afonso Roque.

Em apenas três meses passaram de dois recém-engenheiros para uma equipa de seis, já a trabalhar com empresas industriais e com uma parceria estratégica com a Leanked, uma das maiores consultoras tradicionais portuguesas.

O que vos levou a deixar uma start-up de inteligência artificial para criar a Vouga Agency?

A experiência que tivemos na direção de uma start-up de inteligência artificial foi muito importante para nós. Deu-nos contacto direto com o mercado, com a gestão de equipas e com os desafios de construir um negócio tecnológico. Foi também nessa fase que começámos a perceber que existia uma oportunidade interessante em aproximar as novas tecnologias das necessidades reais das empresas portuguesas, sobretudo no setor industrial.

Percebemos também que seria no mercado de serviços, através de uma relação próxima com os clientes e de soluções adaptadas à realidade de cada empresa, que conseguiríamos aplicar o nosso maior diferencial: a capacidade de compreender problemas complexos e transformá-los em soluções tecnológicas com impacto real.
Sempre tivemos vontade de construir algo nosso e sentimos que tínhamos reunido a experiência, a visão e as pessoas certas para dar esse passo. Não saímos da inteligência artificial. Decidimos levá-la para mais perto dos problemas reais das empresas.

Em apenas três meses, passaram de dois fundadores para uma equipa de seis pessoas. O que explica este crescimento tão rápido?

O crescimento explica-se sobretudo pela tração que conseguimos gerar logo nos primeiros meses. Rapidamente percebemos que, para acompanhar o ritmo dos projetos e continuar a desenvolver o negócio, precisávamos de uma equipa capaz de trabalhar em várias frentes ao mesmo tempo, desde a prospeção e o contato direto com as empresas até ao desenvolvimento técnico das soluções.

Mas crescer tão depressa só foi possível porque encontrámos pessoas que acreditaram no projeto desde o início e quiseram fazer parte da sua construção. Procurámos engenheiros com diferentes competências e formas de pensar, valorizando sobretudo a iniciativa, a capacidade de resolver problemas e a vontade de assumir responsabilidades. Hoje, mais do que colaboradores, vemos estas pessoas como parte da equipa fundadora da Vouga. O crescimento trouxe-nos a necessidade de aumentar a equipa, mas foi a confiança destas pessoas na nossa visão que nos permitiu fazê-lo tão cedo.

“Muitas empresas já estão digitalizadas em várias áreas, mas ainda não estão verdadeiramente integradas.”

Quais são as principais dificuldades de digitalização que encontram nas PME industriais portuguesas?

O problema que encontramos com maior frequência não é necessariamente a falta de tecnologia, mas a falta de ligação entre aquilo que já existe. Há empresas com software de faturação, folhas de Excel para gerir a produção, documentos em papel e sistemas diferentes para controlar encomendas ou stocks. Cada departamento acaba por funcionar com uma parte da informação, sem uma visão integrada do negócio.
Isto traduz-se em trabalho administrativo repetitivo, dificuldade em acompanhar custos e decisões tomadas com informação que nem sempre está atualizada.
Muitas empresas já estão digitalizadas em várias áreas, mas ainda não estão verdadeiramente integradas. E essa diferença é fundamental para aquilo que vem a seguir, do qual queremos fazer parte.

A indústria portuguesa está preparada para a revolução da inteligência artificial?

Acreditamos que a inteligência artificial vai transformar profundamente a forma como as empresas operam, competem e tomam decisões. Não vemos esta transformação como uma possibilidade distante, mas como uma realidade para a qual as empresas têm de começar a preparar-se hoje.
O ritmo de evolução tecnológica é cada vez mais acelerado e imprevisível. As empresas que não conseguirem acompanhar esta mudança arriscam-se a perder competitividade em várias frentes, desde a eficiência operacional e capacidade de resposta até à qualidade das decisões e à relação com os seus clientes.

No entanto, continuamos a encontrar muitas PME industriais que ainda estão a consolidar etapas fundamentais da Indústria 4.0, nomeadamente na organização dos processos, integração de sistemas e gestão da informação. E estas bases são essenciais. Não podemos esperar que a inteligência artificial resolva problemas de informação que a própria empresa ainda não conseguiu organizar.

É precisamente aqui que a Vouga procura intervir. Mais do que implementar as tecnologias que existem hoje, queremos ajudar as empresas a construir estruturas sólidas, integradas e, acima de tudo, flexíveis, capazes de acompanhar a velocidade a que a tecnologia evolui. Acreditamos que a verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em adotar inteligência artificial, mas na capacidade de uma empresa se adaptar, integrar e tirar partido das novas tecnologias à medida que estas surgem.
O nosso objetivo é preparar a indústria portuguesa para esse futuro, garantindo que as empresas não ficam dependentes das soluções de hoje, mas estão preparadas para aproveitar as oportunidades de amanhã.

“Aprendemos que uma boa solução tecnológica começa muito antes de escrever a primeira linha de código. Começa por saber ouvir e fazer as perguntas certas”.

Começaram por contactar empresas industriais porta a porta. O que aprenderam com essa experiência?

Começámos por fazer contactos telefónicos, mas rapidamente percebemos que visitar as empresas e conhecer os seus responsáveis nos permitia compreender muito melhor os desafios que enfrentavam. As reações têm sido maioritariamente muito positivas. O que mais nos tem marcado é a surpresa de alguns empresários ao perceberem que, apesar da nossa idade, conseguimos compreender rapidamente problemas operacionais e apresentar possíveis soluções, por vezes através de demonstrações funcionais desenvolvidas em poucos dias.
Também tivemos experiências menos positivas, que nos ensinaram bastante sobre relações comerciais, gestão de expectativas e a importância de construir confiança.
Aprendemos que uma boa solução tecnológica começa muito antes de escrever a primeira linha de código. Começa por saber ouvir e fazer as perguntas certas.

Que soluções desenvolvem atualmente e que impacto concreto têm nas empresas?

Desenvolvemos, sobretudo, plataformas de gestão à medida, integrações entre sistemas e automações de processos, utilizando inteligência artificial quando esta acrescenta valor.
Num dos nossos projetos industriais, por exemplo, encontrámos uma empresa com dificuldades em acompanhar os custos reais de cada obra, porque a informação sobre colaboradores, materiais, ferramentas e faturas estava dispersa. A própria empresa identificava desvios na ordem dos 7% associados a custos que não estavam devidamente refletidos nas obras.

Estamos a desenvolver uma plataforma que centraliza essa informação e permite um controlo muito mais rigoroso dos custos e das margens. O projeto inclui também a leitura inteligente de faturas, com o objetivo de reduzir em cerca de 80% o trabalho manual associado ao seu tratamento.
Estes são objetivos que estamos a trabalhar para concretizar e medir. Mas a transformação que procuramos é muito clara: passar de uma gestão em que é preciso procurar informação para perceber o que aconteceu para uma gestão em que a informação está disponível a tempo de agir.

“A inteligência artificial não deve ser apenas uma ferramenta à qual recorremos pontualmente, mas uma capacidade integrada no funcionamento da empresa (…)”.

Qual é a maior resistência das empresas à adoção de novas tecnologias?

Diríamos que uma das maiores barreiras é a incerteza sobre o impacto real da mudança. Um empresário que gere uma operação há décadas sabe que alterar processos pode trazer riscos, exigir tempo às equipas e interferir com aquilo que já funciona. É uma preocupação perfeitamente legítima.

Também encontramos alguma distância entre aquilo que se comunica sobre inteligência artificial e aquilo que as empresas conseguem imaginar aplicado ao seu próprio negócio. Muitas vezes, a utilização de IA ainda é associada apenas ao uso de LLMs (ex: ChatGPT ou Claude), para ajudar a escrever emails ou resumir documentos. Embora sejam aplicações úteis, estão longe de representar o verdadeiro potencial da inteligência artificial nos processos empresariais.

Quando bem integrada, a IA não precisa sequer de uma interação direta com o utilizador. Pode trabalhar continuamente nos bastidores, interpretar informação de diferentes sistemas, identificar padrões, antecipar problemas e apresentar recomendações ou desencadear ações no momento certo, sem que alguém tenha de fazer uma pergunta.
É esta mudança de perspetiva que procuramos transmitir. A inteligência artificial não deve ser apenas uma ferramenta à qual recorremos pontualmente, mas uma capacidade integrada no funcionamento da empresa, que simplifica processos, melhora decisões e liberta as equipas para tarefas de maior valor. Por isso, procuramos começar por problemas concretos, demonstrar soluções e explicar claramente o que muda na operação.

Que importância tem a parceria com a Leanked para o crescimento da Vouga Agency?
A parceria com a Leanked é um passo estratégico muito importante para nós. Estamos a falar de uma consultora com mais de 17 anos de experiência e mais de 200 projetos na área da melhoria de processos e operações industriais. Existe uma complementaridade muito natural entre as duas empresas. A Leanked traz um conhecimento profundo da realidade operacional da indústria e das metodologias de melhoria contínua. A Vouga acrescenta capacidade de engenharia, desenvolvimento de software, automação e inteligência artificial.

Esta colaboração permite-nos abordar desafios mais complexos e acompanhar empresas de maior dimensão, juntando duas competências que consideramos fundamentais.
A Leanked ajuda a transformar a forma como os processos funcionam. A Vouga desenvolve a tecnologia que permite sustentar e ampliar essa transformação.
Mais do que uma parceria comercial, vemos esta relação como uma oportunidade para construir soluções com maior impacto e aprender com uma equipa que conhece profundamente a indústria portuguesa.

O que distingue a Vouga Agency das restantes empresas que atuam na área da transformação digital?

Acreditamos que o nosso maior diferencial está na capacidade de criar uma ponte entre duas gerações de conhecimento. Por um lado, somos uma equipa jovem, ágil e profundamente ligada às novas tecnologias. Crescemos num contexto de constante evolução tecnológica, acompanhamos de perto os novos desenvolvimentos e estamos habituados a experimentar, construir e adaptar soluções com rapidez. Por outro, trabalhamos com empresas industriais que acumulam décadas de experiência, conhecimento técnico e domínio dos seus processos e mercados. Um conhecimento que consideramos extremamente valioso e que nenhuma tecnologia consegue simplesmente substituir.

É precisamente na aproximação destes dois mundos que vemos a nossa maior oportunidade. Queremos combinar a experiência e o conhecimento acumulado pela indústria portuguesa com a agilidade, a capacidade de engenharia e o domínio tecnológico de uma nova geração.
A nossa abordagem, System first. Technology second., reflete esta visão. Não pretendemos substituir aquilo que as empresas construíram ao longo de décadas, mas compreender esse conhecimento, valorizá-lo e potenciá-lo através das novas tecnologias.

Acreditamos que esta fusão será fundamental para construir um tecido empresarial mais adaptável, resiliente e preparado para a mudança, capaz de acompanhar os novos paradigmas tecnológicos que vão surgir nos próximos anos. Mais do que digitalizar a indústria portuguesa, queremos ajudar a prepará-la para as próximas gerações de tecnologia.

“Uma ideia pode nascer numa sala de aula ou num computador, mas só se transforma num negócio quando alguém está disposto a pagar pelo valor que cria”.

Que conselho dariam a outros jovens que querem criar uma empresa tecnológica em Portugal?

O principal conselho seria não esperar até sentirem que sabem tudo ou que têm todas as condições reunidas. Nós próprios começámos com muitas dúvidas e continuamos a aprender todos os dias. Mas há coisas que dificilmente se aprendem sem sair para o mercado, falar com clientes, ouvir críticas e tentar vender aquilo em que acreditamos.
Também consideramos fundamental rodearmo-nos de pessoas com mais experiência e saber aproveitar esse conhecimento. Ter bons mentores e uma equipa em quem confiamos fez uma diferença enorme. Uma ideia pode nascer numa sala de aula ou num computador, mas só se transforma num negócio quando alguém está disposto a pagar pelo valor que cria.

Quais são os principais objetivos da Vouga Agency para os próximos dois anos?

Nos próximos dois anos, queremos sobretudo consolidar a Vouga como um parceiro tecnológico de confiança para a indústria portuguesa. Isso significa aumentar a nossa carteira de clientes, aprofundar as relações com os parceiros, continuar a reforçar a equipa e, acima de tudo, entregar projetos com resultados concretos e mensuráveis.
Queremos também aproveitar aquilo que aprendemos em cada projeto para desenvolver soluções cada vez mais replicáveis. Há problemas que se repetem em muitas empresas industriais e acreditamos que existe uma oportunidade interessante em transformar esse conhecimento em soluções que possam chegar a mais organizações.
Não temos como objetivo crescer apenas em número de pessoas ou em faturação. Queremos construir uma empresa financeiramente sustentável, com capacidade de inovação e uma equipa que cresça connosco.
A nossa ambição é que, daqui a dois anos, a Vouga seja reconhecida não apenas pela tecnologia que desenvolve, mas pela diferença que consegue fazer nas empresas com quem trabalha.

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