Em períodos de desaceleração económica, o consumo privado e a procura externa retraem-se, os custos de contexto agravam-se, os mercados estão mais instáveis e o acesso a financiamento torna-se mais difícil e oneroso.

Mas as dificuldades servem para aguçar o engenho e, muitas vezes, as grandes oportunidades de negócio surgem em momentos de menor fulgor económico, como o que o mundo está a atravessar. É nestas ocasiões, aliás, que as necessidades do mercado mais se alteram, podendo esta mudança ser aproveitada pelos empreendedores.

No fundo, ter uma ideia de negócio não é muito mais do que identificar um problema e encontrar uma solução para ele. Ora, em conjunturas economicamente complexas, é natural que as pessoas se confrontem com novos problemas no seu quotidiano. Por conseguinte, cabe aos empreendedores procurar soluções para esses novos problemas que sejam exequíveis e, consequentemente, que tenham potencial económico. Isto significa ir ao encontro às necessidades do mercado, com o intuito de as satisfazer através de negócios rentáveis.

Saber antecipar as necessidades do mercado afigura-se, portanto, como um dos principais trunfos de quem investe. O outro é o fator surpresa, cujo efeito se obtém sobretudo quando o mercado está estagnado e a concorrência adormecida. Neste sentido, o investimento em contraciclo não é necessariamente descabido ou imprudente, desde que os empreendedores percebam o funcionamento do mercado e antevejam as atitudes de quem compra.

Há, pois, que ter em conta as mudanças comportamentais num contexto de estagnação económica. Como existe menos dinheiro disponível, os consumidores tendem a ser mais seletivos nas suas compras. Passam a procurar sobretudo bens e serviços de utilidade imediata e durabilidade comprovada, com boa relação preço/qualidade e com capacidade para gerar emoções. Por outro lado, e mais importante ainda, os consumidores privilegiam, nesta sua criteriosa seleção, os bens e serviços que incorporam elementos diferenciadores.

Por isso, não é só preciso saber fazer bem. Tão ou mais importante é saber fazer diferente, o que exige muita criatividade e capacidade de inovação. Em contexto empresarial, a criatividade consiste em transformar capital intelectual (talento, cultura, emoções, arte…) em valor real para o negócio. Quer isto dizer que a criatividade faz gerar ideias e protótipos que, através de um processo de inovação (conversão de conhecimento em valor económico), resultam em novos bens ou serviços. Estes dois conceitos, inovação e criatividade, andam lado a lado e são eles que, em boa medida, determinam a competitividade de um negócio e o tornam potencialmente rentável.

Tudo isto para dizer que, mesmo em conjunturas menos favoráveis, há boas oportunidades de negócio, desde que se saiba compreender a evolução do mercado e encontrar soluções para as necessidades dos consumidores. De resto, nos recentes anos de crise económica em Portugal foram sucessivamente batidos os recordes de criação anual de empresas, abrangendo a generalidade dos setores e em quase todos os distritos do país. Durante o processo de ajustamento imposto pela troika, nasceram não apenas negócios mais tradicionais, mas também start-ups de grande potencial económico, sofisticação tecnológica e vocação global.

Importa também reter que não há fórmulas mágicas para o sucesso nos negócios. Não faltam exemplos de ideias de negócio que se pensaria condenadas ao insucesso, mas que resultaram, e outras que, parecendo fadadas ao êxito, não foram bem-sucedidas. E isto independentemente do ciclo económico que o país estiver a viver.

* Associação Nacional de Jovens Empresários

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Sobre o autor

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José Pedro Freitas é presidente da ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários desde abril de 2019, tendo sido vice-presidente desde janeiro de 2017 e integrado os órgãos sociais da Associação, mais concretamente o Conselho Fiscal, nos mandatos eleitorais precedentes (2009-2013; 2013-2017).... Ler Mais