Rola a bola no Mundial. E que bem que sabia dizer isto em outras ocasiões. Aquela emoção com tudo o que circundava a competição. Os cromos, as apostas, os programas, o desporto, os amigos, o hino, as vuvuzelas. Mas desta vez não sabe ao mesmo, porque aquele evento que fora outrora distração dos problemas para tantos, tornou-se agora ele próprio num problema, numa rajada fria cruzada que abala o nosso (já desorientado) cata-vento.

Estranhos estes tempos que temos vivido. Se alguém me dissesse em 2018 ou 2019 que em menos de três anos passaríamos por uma pandemia à escala mundial, que estalaria uma guerra na Europa que iria abalar toda a geopolítica internacional, que o Capitólio seria invadido, que o Reino Unido saíria da União Europeia, que um(a) primeiro(a) ministro(a) duraria apenas 44 dias no poder (qual D.Pedro IV qual quê), que um ex-presidente corrupto saíria da prisão para voltar a ser presidente, que os preços da energia disparariam extraordinariamente ao ponto de cortarmos na luz ou no aquecimento, que teríamos uma inflação galopante como há muito não se via, que um dos melhores jogadores do mundo de futebol estaria em litígio absoluto com um clube e com um processo de quasi-despedimento, que um ator agrediria outro em plena cerimónia de Óscares, que teríamos um mundial de F1 decidido na última volta da última corrida, que um dos melhores jogadores de ténis de sempre se reformaria em lágrimas de mão dada com o seu maior rival, ou que um mundial de futebol seria circundado com uma imensa polémica relacionada com direitos humanos, eu provavelmente diria que estaríamos num excelente livro de ficção, pleno de imaginação apocalíptica.

E no entanto tudo isso aconteceu, quase ao mesmo tempo, sem aviso, sem que estivéssemos preparados. Aconteceram muitas coisas más, mas aconteceu também tanta coisa boa, às vezes menos exuberante, com menos cobertura, mas tão igualmente importante ou merecedor de destaque. Somos invadidos diariamente com informação a um ritmo alucinante, que mais parecemos cata-ventos a tentar perceber o que se passa.

Poderia falar sobre qualquer um destes temas, mas no domingo arrancou o Mundial, e isso fez-me refletir sobre a polémica em que está envolto, o que levou a isso e acima de tudo no percurso que o desporto tem feito e na sua importância para o crescimento, desenvolvimento e estabilidade das pessoas, dos profissionais, das empresas e dos países.

Confesso que sempre que recebo um CV ou entrevisto alguém, a primeira coisa que procuro é a secção dos chamados “interesses e atividades extracurriculares”, nomeadamente o desporto (olímpicos ou não olímpicos, perceberão a ideia). E faço-o porque acredito que o desporto é das coisas mais importantes no desenvolvimento pessoal e profissional.

É em primeiro lugar pela componente de disciplina, motivação, persistência, compromisso que o desporto requere. Os melhores do mundo não o são só porque têm um talento acima da média. São-no porque são disciplinados, focados, motivados por fazer sempre melhor. Às vezes é curioso notar que os melhores alunos nas escolas, nas faculdades, e até os outperformers nas empresas, são precisamente aqueles que têm menos tempo disponível porque fazem desporto – muitas vezes de competição – e outras atividades. Puro acaso? Acho que não.

É em segundo lugar pela vertente da competição e competitividade. Desde que saudável, a competição é fundamental para o crescimento e para a melhoria contínua enquanto pessoas, enquanto profissionais, e até enquanto entidades corporativas ou países. Não será por acaso que as empresas sem competição (os chamados monopólios) tendem, no longo prazo, a definhar e a perder os incentivos em oferecer um serviço de excelência, acabando eventualmente por ser ultrapassadas quando menos esperam. Muitas vezes desvalorizamos aquela máxima do “o que interessa é participar”, mas se a parafraseássemos para “o que interessa é competir” talvez nos apercebêssemos da sua importância.

É ao competir que nos testamos, que exigimos mais de nós próprios, que somos desafiados pelos outros a sermos ainda melhores. É a competir que aprendemos a ganhar, mas acima de tudo a perder, a cair e levantar para tentar mais uma vez. No meio de tanta polémica nem se deu a devida importância à campanha absolutamente fantástica da Louis Vuitton, que juntou Messi e Ronaldo numa fotografia, replicando um jogo de xadrez que curiosamente (ou não) acabou empatado. Se não fosse o outro, nenhum destes jogadores teria chegado ao patamar que chegou. É por isso que nas empresas devemos também procurar trabalhar sempre com os melhores, para que sejamos também constantemente desafiados a evoluir.

É em terceiro lugar pela vertente social e relacional, tanto em desportos individuais como coletivos. É também no desporto que aprendemos verdadeiros valores de companheirismo, de esforço pelo próximo e pela equipa. É difícil explicar a alegria partilhada na celebração de um golo ou de uma vitória, seja enquanto jogador ou enquanto adepto. Da mesma forma é difícil explicar que, por exemplo, Sebastian Vettel, no fim de semana da sua despedida, tenha convidado todos os seus oponentes para jantar e todos tenham aparecido. Individualmente ou em equipa, o desporto desenvolve as competências sociais, de respeito e de companheirismo, tão importantes na vida pessoal e profissional. Para haver uma equipa, não basta haver um grupo de pessoas ou profissionais.

E finalmente, pela vertente física. Corpo são, mente sã. E numa altura em que finalmente começamos a normalizar os problemas do foro psicológico, damos cada vez mais importância à parte física.

É por olhar para o desporto desta forma, por acreditar que ele deve ser sempre obrigatório no crescimento e que deve ser altamente facilitado e promovido no seio das empresas e da sociedade, que fiquei desiludido com o arranque deste mundial.

Desiludido com quem permitiu que ele se desenrolasse desta forma em prol de interesses financeiros, deixando para segundo plano valores humanos básicos e a própria essência do desporto (não fosse por isso, no campo poderia ser só futebol e desporto, em perfeita comunhão com as bancadas e com os povos). Para dar um exemplo, o Inglaterra-Irão, que até foi um grande jogo de futebol, no final do dia foi tudo menos um jogo de futebol. É pena, e até chocante, que isso seja necessário.

Ainda mais desiludido por não ser a primeira vez. Basta lembrarmos que o último mundial foi na Rússia e os últimos Jogos Olímpicos de Inverno foram na China, países que não respeitam igualmente muitas liberdades individuais. Talvez desta vez tenha havido mais mediatismo por coincidir com momentos determinantes para o futuro da humanidade – guerra, COP27, G20 informal, etc.

De algum modo desiludido também com nós todos, países, Europa e Mundo, por não sermos capazes de “walk the talk”. O Qatar investiu mais de 200 mil milhões na preparação deste campeonato, e tendo em conta que não tem indústria própria, foi com exportações/importações também dos mesmos países que agora condenam a sua organização. Isso significa que agora não devem condenar? Claro que não, significa apenas que temos que ser capazes de traduzir em ações aquilo que defendemos, através dos vários stakeholders da sociedade.

Mas acima de tudo desiludido porque o desporto deveria ser sempre estandarte consistente de bons exemplos para a sociedade e para os jovens que veem nos seus intervenientes os seus ídolos. É pena. Perde o desporto, perdem os jovens, perdemos todos.

Uma nota para a nossa seleção nacional de futebol. Que leve na camisola também o espírito da seleção de rugby, que mostrou que com muito trabalho e dedicação tudo é possível. E já agora, como nota de reflexão, se fôssemos tão exigentes com os nossos governantes como somos com o selecionador, e tão exigentes com o nosso país como somos com a nossa seleção, seríamos dos melhores do mundo no desporto da competitividade económica e social.

Enquanto não o fizermos, o nosso cata-vento continuará desorientado. Até porque “não há vento favorável para aquele que não sabe para aonde vai”.

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