Entrevista/ “Investir bem não é um exercício de velocidade, é um exercício de método”

Bruno Janeiro, cofundador do Grupo Air Trading

“Num setor onde muitas vezes se vende a ideia de rapidez, facilidade ou ganhos imediatos, mantemos uma abordagem muito orientada para a educação financeira, para a gestão de risco e para a consistência. Queremos que os nossos clientes percebam o que estão a fazer, porque o estão a fazer e quais os riscos envolvidos”, afirma Bruno Janeiro, cofundador do Grupo Air Trading.

Desde 2019, o Grupo AIR Trading tem vindo a consolidar-se como uma referência na formação em mercados financeiros em Portugal. Fundado por Bruno Janeiro e Bernardo Barcelos, nasceu da experiência de ambos em projetos de formação iniciados em 2015 numa instituição financeira, mas com uma missão clara: ajudar investidores a “Aprender, Investir e Rentabilizar” — a filosofia que dá nome à sigla AIR.

Ao longo dos anos, a AIR Trading evoluiu para um grupo com três áreas de negócio distintas — AIR Trading, AIR Mentoring e AIR Corporate —, adaptando-se às necessidades de investidores particulares e empresas. Com formações certificadas, acompanhamento contínuo e soluções corporativas, o Grupo aposta numa abordagem estruturada, defendendo que investir é uma maratona e não um “sprint”.

Recentemente, o lançamento de um departamento de Research veio reforçar a ambição da empresa de integrar análise técnica e fundamental de forma sistemática, oferecendo aos clientes uma visão estratégica para a tomada de decisão nos mercados financeiros.

A AIR Trading nasceu em 2019. Olhando para o vosso percurso, como avalia a evolução da empresa até se tornar o Grupo AIR Trading?

A evolução tem sido muito positiva e, acima de tudo, muito consistente. A AIR Trading nasceu em 2019 com uma missão clara: ajudar as pessoas a compreender melhor os mercados financeiros e a investir com mais conhecimento, método e disciplina. Ao longo destes anos, fomos percebendo que havia uma procura crescente não apenas por formação teórica, mas também por acompanhamento prático, apoio contínuo e soluções adaptadas a diferentes perfis de investidores.

Foi precisamente essa evolução natural da procura, e também da nossa própria visão, que levou à transição para Grupo AIR Trading. Hoje, somos uma estrutura mais completa, com diferentes áreas de negócio, capazes de responder tanto ao investidor particular, independentemente do seu nível de experiência, como a empresas e instituições que procuram desenvolver competências financeiras nas suas equipas. Mais do que crescer em dimensão, o nosso objetivo sempre foi crescer em relevância, qualidade e capacidade de gerar impacto real.

“Acreditamos que a rentabilidade sustentável só faz sentido quando assenta em conhecimento e em processo”.

A sigla AIR traduz “Aprender, Investir e Rentabilizar”. Como é que esta filosofia continua a guiar a vossa abordagem aos mercados financeiros?

Continua a ser a nossa base. Acreditamos que a rentabilidade sustentável só faz sentido quando assenta em conhecimento e em processo. Por isso, a ordem das palavras não é por acaso: primeiro aprender, depois investir e só então procurar rentabilizar. Num setor onde muitas vezes se vende a ideia de rapidez, facilidade ou ganhos imediatos, mantemos uma abordagem muito orientada para a educação financeira, para a gestão de risco e para a consistência. Queremos que os nossos clientes percebam o que estão a fazer, porque o estão a fazer e quais os riscos envolvidos. Essa filosofia está presente em tudo o que fazemos, desde os cursos à mentoria, passando pelo trabalho com empresas. O foco nunca é a promessa de resultados rápidos, mas sim a construção de competências que perdurem no tempo.

 No ano passado, a empresa lançou duas novas áreas: AIR Mentoring e o AIR Corporate. O que levou à criação destas duas novas áreas de negócio e qual o objetivo de cada uma?

A criação destas duas áreas resulta, acima de tudo, de uma necessidade de clarificação da nossa oferta, especialmente após a certificação dos nossos cursos por parte do regulador. Esse passo foi determinante para posicionar a marca AIR Trading como associada à formação certificada, o que exigiu uma separação mais clara entre as diferentes vertentes do que já fazíamos.

No caso do AIR Mentoring, o formato de acompanhamento contínuo já fazia parte da nossa realidade há vários anos. O que fizemos foi estruturar melhor esse serviço e distingui-lo claramente da formação. O objetivo é simples: separar aquilo que é aprendizagem de base, mais conceptual e certificada, daquilo que é acompanhamento prático e contínuo, onde o investidor trabalha a execução, a consistência e a tomada de decisão em contexto real. Já o AIR Corporate surge com o propósito de levar o nosso know-how a empresas e instituições, com soluções ajustadas às suas necessidades específicas.

Como tem evoluído o número de formandos nas vossas formações nos últimos anos? Pode partilhar algum indicador de crescimento ou tendência que considere relevante e o que tem contribuído para isso?

Temos assistido a um crescimento consistente, mas há um indicador que consideramos particularmente relevante: a taxa de renovação dos nossos serviços, que se situa em torno dos 70%. Num mercado tão exigente e volátil como o financeiro, este nível de continuidade diz muito sobre a perceção de valor por parte dos nossos clientes. Além disso, observamos uma correlação clara entre os resultados das pessoas e o tempo que permanecem connosco. Quanto maior a exposição ao método, maior tende a ser a consistência. Isso reforça a ideia de que este é um processo de aprendizagem progressivo, e não algo imediato.

“Os mercados trazem pressão emocional, incerteza, volatilidade e necessidade de decisão. É precisamente aí que o acompanhamento contínuo ganha valor”.

O AIR Mentoring foca-se no acompanhamento contínuo. Que diferença faz para um investidor ter este acompanhamento personalizado em comparação com a formação tradicional?

Faz toda a diferença. A formação tradicional é fundamental para construir bases, mas saber a teoria não significa automaticamente saber aplicá-la em contexto real. Os mercados trazem pressão emocional, incerteza, volatilidade e necessidade de decisão. É precisamente aí que o acompanhamento contínuo ganha valor.

No AIR Mentoring, ajudamos o investidor a transformar conhecimento em execução. O acompanhamento permite corrigir erros mais cedo, consolidar boas práticas, adaptar a metodologia ao perfil de cada pessoa e trabalhar aspetos que raramente são desenvolvidos numa formação puramente teórica, como a disciplina, a gestão emocional e a consistência. Em muitos casos, a diferença entre um investidor que evolui e um que desiste está precisamente nesse suporte contínuo.

No AIR Corporate, trabalham com empresas e instituições. Que competências financeiras têm sido mais valorizadas por estes clientes?

Depende muito da natureza de cada projeto. O que temos verificado é que os nossos conhecimentos de mercados financeiros acabam por ter aplicações em várias áreas, não apenas na componente financeira mais tradicional. Temos, por exemplo, projetos ligados à agropecuária onde ajudamos empresas a otimizar custos através de uma melhor leitura de mercados e de variáveis externas. Por outro lado, em contextos mais financeiros, o foco passa muitas vezes pela otimização de rentabilidades de portfólios e pela melhoria da tomada de decisão. Existe uma complementaridade interessante que permite adaptar o nosso trabalho a diferentes realidades empresariais.

Continuam a falar em “maratona e não sprint” quando se trata de investir. Que conselhos daria aos novos investidores para manterem disciplina e consistência ao longo do tempo?

O primeiro conselho é perceber que investir bem não é um exercício de velocidade, é um exercício de método. Quem entra nos mercados à procura de resultados imediatos tende a tomar más decisões, porque passa a agir mais por impulso do que por estratégia. Depois, diria que é essencial definir regras claras antes de investir: quanto se está disposto a arriscar, que critérios justificam uma entrada, em que condições se sai da posição e qual o horizonte temporal. A disciplina nasce muito dessa preparação prévia. E, por fim, é importante aceitar que perder faz parte do processo. O objetivo não é evitar totalmente o erro, mas sim impedir que um erro isolado comprometa o percurso. Consistência constrói-se com gestão de risco, repetição de um método e humildade para aprender continuamente.

“Um dos erros mais comuns, sobretudo no trading, é a definição de estratégias de entrada sem um plano claro de saída. Muitos investidores preocupam-se bastante com o “onde entrar (…)”.

Quais são os erros mais comuns que observa hoje em dias nos investidores particulares portugueses?

Um dos erros mais comuns, sobretudo no trading, é a definição de estratégias de entrada sem um plano claro de saída. Muitos investidores preocupam-se bastante com o “onde entrar”, mas negligenciam o “quando sair”, que é igualmente importante. Sem um plano de saída bem definido, seja em termos de gestão de risco ou de objetivos, o investidor fica exposto a decisões emocionais.

Também vemos muitos investidores a confundirem informação com estratégia. Hoje existe um enorme volume de conteúdos sobre mercados, mas isso não significa que exista um plano de investimento. Saber muitas notícias não substitui ter método. E, por fim, há um erro muito humano, mas muito penalizador: deixar que a emoção domine a decisão, seja por medo, euforia ou frustração.

Com a introdução do departamento de Research próprio, como vão integrar análise técnica e fundamental para apoiar os clientes na tomada de decisão?

A nossa visão para o departamento de Research passa precisamente por integrar essas duas dimensões. A análise fundamental ajuda-nos a perceber o contexto, a qualidade dos ativos, os temas estruturais e as tendências de médio e longo prazo. A análise técnica, por sua vez, ajuda-nos a identificar timing, zonas relevantes, pontos de entrada e gestão do risco. A combinação das duas permite uma leitura mais completa do mercado. Não vemos a análise técnica e a análise fundamental como abordagens concorrentes, mas como ferramentas complementares. O objetivo é fornecer aos clientes uma visão mais robusta, mais contextualizada e mais útil para a tomada de decisão, seja numa ótica de investimento, seja numa ótica de trading.

O recurso a algoritmos e inteligência artificial no trading tem vindo a crescer. Como vê a adoção dessas tecnologias pelos investidores individuais e quais os cuidados que devem ter?
A inteligência artificial tem um potencial enorme, sobretudo na capacidade de processar grandes volumes de informação e apoiar a análise. No entanto, há limitações importantes que os investidores devem compreender. Grande parte dos modelos atuais, como os LLMs (Modelos de Linguagem de Grande Escala), dependem de bases de dados extensas e estruturadas. No contexto dos mercados financeiros, muitos dos fatores que realmente fazem a diferença são qualitativos e difíceis de quantificar — como a visão de um CEO, a cultura de uma empresa ou a capacidade de execução de uma equipa de gestão. Estes elementos nem sempre são capturados de forma eficaz por modelos de inteligência artificial.

Por isso, vejo a inteligência artificial como uma ferramenta de apoio, mas não como um substituto do pensamento crítico e da experiência. Especialmente quando falamos de investimentos em empresas mais disruptivas ou em fases iniciais de crescimento, onde a componente qualitativa é determinante, o fator humano continua a ter um papel central.

“A volatilidade traz oportunidades, mas também aumenta significativamente o risco quando não existe controlo na gestão das posições e alinhamento com o contexto de mercado”.

A volatilidade dos mercados, especialmente em ativos como criptomoedas, continua a ser um desafio. Que abordagem recomenda para investidores que querem explorar estas oportunidades sem assumir riscos excessivos?

A volatilidade traz oportunidades, mas também aumenta significativamente o risco quando não existe controlo na gestão das posições e alinhamento com o contexto de mercado. Mais do que o ativo em si, é fundamental perceber o regime de volatilidade em que estamos. Por exemplo, um investidor habituado a negociar ouro ou prata pode aplicar estratégias de swing nesses ativos, mas no início deste ano, com níveis de volatilidade bastante acima do normal, a abordagem teria necessariamente de ser diferente. Isso tem impacto direto não só na análise técnica, mas sobretudo na forma como se dimensionam posições, se definem stops e se gere o risco. Ou seja, não é apenas o “o que” negociar, mas em que contexto e como ajustar a execução a esse contexto.

Olhando para os próximos anos, quais são os grandes projetos do Grupo AIR Trading e que novos serviços poderemos esperar?
Os próximos anos serão de consolidação e expansão. Queremos reforçar a nossa posição enquanto referência na formação e no acompanhamento em mercados financeiros, mas também alargar a nossa capacidade de resposta através de novas soluções.
O desenvolvimento do departamento de Research é um passo importante nessa estratégia, porque nos permitirá aprofundar a análise, gerar mais valor para os clientes e criar novos formatos de conteúdo e apoio à decisão. Ao mesmo tempo, queremos continuar a investir na área corporate, fortalecer a componente de mentoria e desenvolver serviços cada vez mais personalizados, sempre com a mesma base: educação, método e proximidade com o cliente.

“A formação em mercados financeiros não é apenas uma questão técnica, é também uma questão de autonomia, confiança e responsabilidade”.

Já acompanha clientes há mais de 8 anos. O que o inspira a continuar a inovar na área da formação em mercados financeiros?
O que mais me inspira é perceber que esta área pode realmente transformar a forma como as pessoas se relacionam com o dinheiro, com o risco e com o seu próprio futuro. A formação em mercados financeiros não é apenas uma questão técnica, é também uma questão de autonomia, confiança e responsabilidade.

Continuo a inovar porque vejo diariamente o impacto que um bom acompanhamento pode ter na evolução de um investidor. E porque acredito que esta é uma área onde ainda há muito por fazer em termos de literacia, exigência e qualidade. Enquanto sentir que podemos ajudar as pessoas a tomar melhores decisões e a evitar erros que tantas vezes custam caro, haverá sempre espaço para inovar.

Que mudanças vê no perfil do investidor português nos últimos anos? E no europeu?

O investidor português está hoje mais curioso, mais informado e mais aberto a procurar alternativas de investimento. Existe uma nova geração com maior proximidade aos mercados, mais exposição a conteúdos financeiros e maior vontade de assumir um papel ativo na gestão do património. Ao mesmo tempo, ainda existe um défice importante de literacia financeira, o que faz com que essa evolução nem sempre venha acompanhada da preparação necessária.

No contexto europeu, vemos um investidor tendencialmente mais habituado à diversificação, com maior sensibilidade para temas como ETFs, planeamento financeiro, gestão passiva e alocação estratégica. Em muitos mercados europeus, a cultura de investimento já está mais enraizada. Em Portugal, sentimos que estamos num momento de transição: há mais interesse do que no passado, mas ainda há muito caminho a fazer na parte da formação e da maturidade do investidor.

Se pudesse dar um conselho a alguém que quer transformar-se no seu próprio gestor de carteira, qual seria?

Diria para começar pela base: aprender antes de agir. Ser o próprio gestor de carteira dá liberdade, mas também exige responsabilidade. Não basta querer investir, é preciso perceber como funcionam os ativos, como se gere risco, como se constrói uma estratégia e como se lida com as próprias emoções em momentos de maior pressão.

Ser o próprio gestor de carteira não significa fazer mais, significa decidir melhor. E isso só acontece quando existe método, disciplina e uma visão de longo prazo. Quem conseguir desenvolver essas três dimensões estará muito mais preparado para investir com consistência e autonomia.

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