No último ano, aumentou o interesse dos investidores norte-americanos pelas empresas europeias. Em consequência, fundos de capital de risco conhecidos, como Sequoia, Sutter Hill Ventures ou Coatue Management, abriram escritórios em Londres para acompanhar o que está a acontecer no velho continente.

A Europa está a assistir a um fenómeno crescente: investidores norte-americanos do setor de tecnologia estão a estabelecerem-se deste lado do Atlântico, atraídos pelas elevadas avaliações que muitas empresas europeias estão a receber com o surgimento da pandemia de Covid-19.

A conclusão é de um relatório recente da CNBC, que analisou alguns dos movimentos mais proeminentes do setor no ano passado. Um dos primeiros a desembarcar na Europa foi o fundo de capital de risco Sequoia, que já investiu em start-ups de gigantes como Apple, Google, YouTube, Instagram, Zoom, WhatsApp, LinkedIn ou PayPal.

No final do ano passado a Sequoia abriu o seu escritório em Londres para ter um contacto mais estreito com o tecido empresarial europeu. “Estar fisicamente no terreno permite-nos mover mais rapidamente e nivelar drasticamente o esforço”, explica Mat Miller, um dos sócios mais antigos da empresa.

“Eu costumava ir a Londres uma semana por mês, mas só se pode ver e fazer uma parte. Pensámos que estar no terreno faria uma diferença substancial na nossa capacidade de encontrar oportunidades com antecedência”, acrescentou.

Outro exemplo é a Sutter Hill Ventures, uma das empresas de capital de risco mais antigas de Silicon Valley, que já realizou as suas primeiras operações europeias no Reino Unido.

Mas não se trata apenas de fundos como o Sequoia ou da Coatue Management, de Nova Iorque – que também prevê expandir-se fisicamente por toda a Europa nos próximos meses -, mas a tendência também se repete entre os investidores privados e nas contratações de grandes empresas de tecnologia.

Por exemplo, Alex Ferrara, sócio da Bessemer Venture Partners que investiu em empresas como o LinkedIn e o Pinterest, confirmou à CNBC que se mudou de Nova Iorque para Londres em setembro passado. Já a Lightspeed Venture Partners (Snapchat e Epic Games) contratou Paul Murphy e Ross Mason, dois reconhecidos business angels do setor, para liderar o escritório do fundo também em Londres.

“Este é o momento para a Europa, existem tantas empresas incríveis a serem criadas neste momento por fundadores incríveis”, disse Murphy recentemente à Forbes.

Outro movimento semelhante foi o do fundo General Catalyst, um investidor da Airbnb e Stripe, que contratou Chris Bichoff, que se encontra na capital britânica como CEO, e Juliet Bailin, como diretora, para também explorar de perto o mercado europeu.

As razões por trás deste “êxodo”
Segundo um relatório da consultora EY, o investimento estrangeiro na Europa caiu 13% em 2020, principalmente devido à pandemia de Covid-19. De acordo com o estudo, 5.578 investimentos estrangeiros diretos foram realizados em projetos europeus; um ano antes, o número era de 6.412

No entanto, os especialistas observam no relatório que “apesar das circunstâncias sem precedentes, as empresas estrangeiras continuam a ver a Europa como uma das regiões mais atraentes do mundo para investimentos de longo prazo”.

Tal deve-se principalmente, salientam, ao facto de possuir “um regime político e regulamentar relativamente estável, uma mão-de-obra altamente qualificada e infraestruturas de transportes, energia e telecomunicações relativamente sólidas”.

Mas, para além do clima de estabilidade e da qualidade das infraestruturas europeias, o que realmente chama a atenção do capital de risco dos EUA são as avaliações extremamente elevadas que muitas empresas europeias estão a receber, frisa o relatório da EY.

Na Europa existem atualmente 131 empresas consideradas unicórnios – empresas avaliadas em mais de 1 milhão de euros -, das quais 61 alcançaram esta avaliação este ano. No terceiro trimestre, até 19 novas empresas foram adicionadas a esta lista, segundo dados do Crunchbase.

Estes dados são o reflexo dos bons tempos que vive a Europa, com empresas que chamam a atenção do outro lado do Atlântico, como o neobanco Revolut, a empresa de entregas alemã Gorillas ou o marketplace francês Mirakl.

Um exemplo de grande sucesso dentro das fronteiras europeias é a Hopin, a plataforma britânica de eventos online que tem apenas dois anos e que atingiu uma avaliação de 7.750 milhões de dólares (cerca de 6.650 milhões de euros) em agosto passado, após angariar uma ronda de financiamento de 450 milhões de dólares (402 milhões de euros).

Outro exemplo é a holandesa ASML, que se tornou na principal beneficiária da atual crise dos microchips que assola o mundo, pois comercializa as máquinas necessárias para o fabrico desses semicondutores. Atualmente acumula uma valorização em bolsa de 300% nos últimos três anos, e uma capitalização de 265 milhões de euros.

Dados do Pitchbook recolhidos pela CNBC, em 2021, concluem que o número de operações europeias de capital de risco em que participaram investidores norte-americanos foi de 1.431. Há uma década, era de 359. O valor destas operações este ano foi de 50,8 mil milhões de euros.

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