Inteligência Artificial começa a dar resultado nas empresas, diz estudo
O investimento empresarial em inteligência artificial duplicou num ano, atingindo 3,3% das receitas. Garantir o controlo e governação da tecnologia é agora o principal desafio das empresas.
Depois de um período marcado pela experimentação, a utilização da IA começa a traduzir-se em resultados concretos de acordo com o estudo “Applied AI Index 2026”, da Boston Consulting Group (BCG). Mais, revela que o investimento nesta tecnologia duplicou num ano e que agora o desafio das empresas está cada vez mais em garantir que a sua utilização é acompanhada pelos mecanismos de controlo e governação adequados.
Baseado num inquérito a 1.330 dirigentes de topo e líderes empresariais, o estudo da BCG mostra que a criação de valor com IA já não está limitada a um pequeno grupo de empresas. Assim, constata-se que as organizações mais avançadas (e classificadas pela BCG como preparadas para o futuro), representam 7,5% das empresas analisadas e que apresentam 2,3 vezes mais retorno total para os acionistas, 2,4 vezes mais crescimento das receitas e 2,8 vezes mais crescimento do EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) face às empresas menos avançadas.
A estas juntam-se 41% das empresas que estão a escalar a utilização de IA e que também apresentam um desempenho superior ao das empresas menos preparadas. No total, os dois grupos representam 48,5% das organizações analisadas, o que mostra que o valor gerado pela IA já ultrapassa um pequeno grupo de pioneiros.
De acordo com o estudo, este avanço é acompanhado por um aumento do investimento porque a despesa das empresas com IA passou de cerca de 1,7% das receitas, no final de 2025, para 3,3% atualmente. Além disso, mais de 80% deste investimento já é realizado fora dos orçamentos centrais de tecnologias de informação (IT) das grandes empresas.
Contudo, perante este cenário também são alguns os desafios que as empresas enfrentam para acompanharem sistemas com cada vez mais autonomia. Até 2030, 42% das empresas esperam atribuir aos agentes de IA autonomia na tomada de decisões. No entanto, atualmente apenas 5% dispõem do conjunto completo de mecanismos de controlo necessários. Entre estes encontram-se mecanismos de supervisão, segurança, auditoria, controlo de custos e possibilidade de reverter decisões ou ações. A BCG estima ainda que os agentes de IA possam representar cerca de 40% do valor total gerado pela IA até 2030.
O mundo do trabalho também não escapa a esta transformação. As empresas esperam uma redução de cerca de 10% a 15% da força de trabalho até 2030, com maior impacto nas estruturas de coordenação e gestão intermédia. Mas apesar desta redução esperada, o estudo sublinha que a maioria das empresas antecipa também a criação de novas funções ligadas à IA. Ou seja, neste ponto, o desafio está mais na requalificação faseada das equipas do que no corte de postos de trabalho. Paralelamente, tem-se vindo a notar que algumas organizações já estão a apostar na adaptação das funções e na requalificação dos seus colaboradores: sete em cada dez empresas mais preparadas para o futuro e em fase de consolidação e expansão já estão a investir na requalificação profissional. As funções dedicadas especificamente à IA deverão também triplicar, passando de 7% da força de trabalho em 2026 para 22% em 2030, revela o estudo.
Esta análise da BCG conclui que as empresas que estão a avançar na adoção de IA partilham várias características. Em vez de tratarem a tecnologia como uma iniciativa isolada, integram-na na estratégia global do negócio, identificam as áreas onde pode gerar maior valor, transformam processos de ponta a ponta e investem em governação e nas competências das “suas pessoas” em paralelo com a tecnologia. Estas organizações acompanham ainda diretamente o impacto da IA nos resultados financeiros, permitindo medir o valor efetivamente criado.
Para as empresas em Portugal, estes resultados globais confirmam uma tendência que já se sente no mercado nacional. A pressão para transformar projetos-piloto de IA em impacto mensurável traz os mesmos desafios de governação e de requalificação da força de trabalho, ainda que com uma escala de investimento distante da dos maiores mercados.







