Opinião

Já estamos em crise. O que fazer?

Liz Silva, presidente da M2UP – Marketing & Business Association
Foto: Liz Silva

Talvez ainda ninguém lhe tenha chamado oficialmente crise. Talvez continuemos a ouvir que a economia cresce, que o emprego resiste e que Portugal está melhor preparado para enfrentar tempos difíceis. E há verdade nisso.

A Comissão Europeia prevê que a economia portuguesa cresça 1,7% em 2026. Portanto, sejamos rigorosos: Portugal não está, neste momento, tecnicamente em recessão. Mas há uma pergunta que me interessa muito mais do que a definição económica de uma crise:

O que está a sentir quem tem uma empresa aberta todos os dias?

Porque a crise raramente começa no dia em que aparece numa folha de Excel de um organismo oficial. Começa antes.
Começa quando a margem diminui. Quando os clientes demoram mais tempo a decidir. Quando os custos aumentam. Quando os fornecedores apertam condições. Quando aquilo que se vendia facilmente exige agora muito mais esforço comercial.

E existem sinais que merecem atenção.

A Comissão Europeia reviu o enquadramento económico de 2026 num contexto de choques adversos, aumento dos preços energéticos e deterioração do sentimento económico. Para a área do euro, prevê apenas 0,9% de crescimento em 2026.

Em Portugal, o INE revelou que o indicador de confiança dos consumidores diminuiu em agosto e setembro. Também o indicador de clima económico caiu em setembro. Entre as razões apontadas estão perspetivas menos favoráveis sobre a situação económica do país e sobre a situação financeira das próprias famílias.

E isto interessa muito às empresas. Quando uma família começa a sentir insegurança, adia decisões. Quando milhares de famílias fazem o mesmo, o consumo muda. E quando o consumo muda, as empresas sentem.

Há outro sinal que não deve ser dramatizado, mas também não deve ser ignorado. Nos primeiros seis meses de 2026 foram registados em Portugal 1.134 processos de insolvência, mais 52 do que no mesmo período de 2025. É um crescimento de 4,8%. A própria Allianz Trade esclarece que ainda não existem sinais de uma deterioração generalizada do tecido empresarial. Muito bem. Mas o número cresceu.

É precisamente por isso que o empresário inteligente não espera pela palavra CRISE na primeira página dos jornais para começar a agir. Age antes.

Primeiro, tem de conhecer profundamente os números da empresa. Não apenas faturação. Margem. Rentabilidade. Tesouraria. Custos. Prazo de recebimento. Dependência dos principais clientes. Produtos mais rentáveis. Há empresas que faturam muito e ganham pouco. Há empresas que crescem e, ao mesmo tempo, ficam financeiramente mais frágeis.

Segundo: não cair no erro clássico de cortar indiscriminadamente. Quando aparece o medo, algumas empresas cortam primeiro aquilo de que mais vão precisar: marketing, vendas, comunicação, inovação, formação e desenvolvimento comercial. É uma contradição extraordinária. A empresa precisa de clientes e começa por reduzir os instrumentos que a ajudam a conquistá-los.

Terceiro: estar mais próximo do mercado. Falar com clientes. Ouvir empresários. Conhecer novos setores. Perceber mudanças. Criar relações de confiança. Encontrar parceiros. Abrir novos canais comerciais.

É aqui que entra uma questão em que acredito profundamente: num mercado difícil, ninguém deveria gerir uma empresa isolado do resto do ecossistema empresarial. E é precisamente aqui que associações empresariais como a M2UP – Marketing & Business Association podem ter uma responsabilidade muito maior. Uma associação moderna não pode limitar-se a organizar eventos. Tem de funcionar como uma plataforma permanente de inteligência empresarial, conhecimento, ligação entre empresas e geração de oportunidades.

Na M2UP trabalhamos precisamente nesse sentido: aproximar empresários de diferentes setores e regiões, criar relações continuadas e transformar confiança em oportunidades concretas. O próprio posicionamento atual da associação assenta em Conexão Estratégica, visibilidade, inovação e acompanhamento orientado para resultados.

Perante um período económico mais exigente, acredito que há pelo menos cinco áreas onde uma associação empresarial pode fazer a diferença.
A primeira é informação. Um empresário não pode tomar decisões com dados de seis meses atrás. Precisa de perceber o que está a acontecer no mercado, quais os setores que estão a acelerar, quais estão a abrandar, como está a mudar o consumidor e onde estão a aparecer novas oportunidades.

A segunda é conexão empresarial. Não estou a falar de colecionar cartões, seguidores ou contactos. Estou a falar de saber quem pode comprar, vender, recomendar, aconselhar, apresentar alguém ou abrir uma porta.

Foi precisamente por isso que escrevi anteriormente que a confiança é um ativo que uma PME não consegue comprar. O tecido empresarial português é esmagadoramente constituído por PME, e a capacidade de criar relações empresariais sólidas pode tornar-se ainda mais importante em períodos de maior incerteza.

A terceira área é conhecimento aplicável. Vendas. Marketing. Inteligência Artificial. Automação. Gestão. Finanças. Liderança. Não conhecimento para encher uma sala. Conhecimento que, na segunda-feira de manhã, possa ser colocado dentro de uma empresa.

A quarta é tecnologia. A inteligência artificial e a automação permitem hoje a uma pequena empresa fazer aquilo que há poucos anos exigia equipas inteiras. Pesquisar mercados. Produzir conteúdos. Automatizar tarefas. Qualificar contactos. Analisar informação. Apoiar clientes. Mas há uma condição: a tecnologia tem de servir a estratégia e não substituir o pensamento.

A quinta é talvez a mais importante: não deixar o empresário sozinho. Uma decisão errada numa fase de crescimento pode atrasar uma empresa.Uma decisão errada numa fase difícil pode destruí-la. Por isso acredito cada vez mais num novo papel para as associações empresariais: deixar de ser apenas organizações que representam empresários e passar a ser ecossistemas que os ajudam a decidir melhor, conhecer melhor o mercado e encontrar oportunidades mais depressa.

Não prometemos milagres. Nenhuma associação séria deveria fazê-lo. Não podemos garantir vendas. Não podemos garantir que uma empresa sobreviverá a uma crise. Mas podemos aumentar aquilo que um empresário tem à sua disposição para lutar: informação, conhecimento, tecnologia, relações de confiança e oportunidades. E isso, num mercado difícil, pode fazer uma diferença enorme.

Talvez Portugal não esteja ainda numa crise económica formal. Mas muitas empresas já começaram a sentir pressão.
A pergunta, portanto, não é: “Quando chegará a crise?”
A pergunta é outra: “Se o mercado ficar muito mais difícil amanhã, o que estás a fazer hoje para preparar a tua empresa?”

Porque a próxima crise poderá não destruir necessariamente as empresas mais pequenas. Poderá destruir aquelas que demorarem demasiado tempo a perceber que o mercado mudou.

Fontes consultadas: Instituto Nacional de Estatística — Inquéritos de Conjuntura às Empresas e aos Consumidores, setembro de 2026; Comissão Europeia — Spring 2026 Economic Forecast e Economic Forecast for Portugal, maio de 2026; Allianz Trade Portugal — dados de insolvências empresariais do primeiro semestre de 2026; M2UP — informação institucional sobre o seu ecossistema e modelo de atuação; Link to Leaders — artigos de opinião anteriormente publicados por Liz Silva, nomeadamente “A confiança é o único activo que a sua PME não consegue comprar” e “O mundo associativo como pilar de crescimento sustentável”.

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Liz Silva

Liz Silva

Liz Silva é presidente da M2UP – Marketing & Business Association, associação que tem liderado com visão de expansão territorial, inovação e foco em criação de valor para empresários e profissionais de marketing. Anteriormente, foi presidente da AMA – Associação de Marketing Empresarial / Marketing de Aveiro, tendo sido uma das impulsionadoras da sua evolução para uma estrutura nacional com a criação da M2UP. É também empreendedor no setor do marketing estratégico: lidera iniciativas sob a marca “Liz Silva –... Ler Mais..

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