USSD (Dados de Serviços Suplementares não Estruturados) é o jargão que representa a tecnologia arcaica que usamos nos nossos telefones sempre que marcamos *XYZ#. Pode dizer-se que o USSD é uma alternativa às mensagens de texto (SMS) que tem como base menus. É uma tecnologia que possibilita a troca de dados em tempo real sob o formato de sessões, o que a torna uma solução mais ágil e com uma multiplicidade de usos.

É verdade que aparentemente se trata de algo completamente ultrapassado, quando o que parece estar na moda é ter um iPhone11 ou um Samsung S10. No entanto, os smartphones, mesmo que de gamas mais baixas, estão longe de se tornar o standard no continente africano. Embora a taxa de penetração de smartphones tenha apresentado um crescimento considerável nos últimos anos, como consequência da queda do custo destes aparelhos, esta métrica não transmite uma noção real. A África Subsaariana mantém uma percentagem de utilização de internet via telemóvel de 23%. Tendo em consideração o segmento populacional de baixo rendimento, os custos de dados são proibitivos, e o número de pessoas capaz de usar as potencialidades dos smartphones é ainda reduzido.

Relativamente ao USSD, o que torna as aplicações nesta tecnologia do século passado em soluções com um potencial gigante, é o facto de serem compatíveis com todo o tipo de telemóveis (GSM), serem de uso corrente de todos os utilizadores, independentemente do seu extrato social, e serem relativamente simples de se desenvolver.

Embora o USSD seja usado na maioria das vezes para a consulta de saldo ou outros serviços das operadoras móveis, tem-se constatado que a sua relevância no contexto do continente africano tem vindo a evidenciar-se cada vez mais pela diversidade de serviços que apresenta.

Em 2007, no Quénia, surgiu o primeiro serviço de carteira móvel, o M-Pesa, que gera atualmente, cerca de 2 mil milhões de transações e processa mais de 29 mil milhões de euros por ano, ligeiramente abaixo da metade do PIB deste país. Após a expansão do M-Pesa para outros países africanos, a popularização deste serviço e o crescimento exponencial dos valores transaccionados, fez com que a banca, rapidamente se tornasse um dos maiores clientes da tecnologia USSD. As aplicações permitem ver extratos, consultar saldos e até mesmo fazer transferências.

Para além do contributo para a inclusão financeira, as aplicações em USSD evidenciaram-se noutras áreas de âmbito social. Novamente no Quénia, em 2010, a MFarm foi lançada para solucionar um problema comum dos pequenos produtores agrícolas, permitindo-os agrupar a sua colheita num local específico, para poderem vendê-la a compradores por atacado. Em Moçambique, o USSD foi usado pelo aplicativo biscate.co.mz para fazer a ponte entre trabalhadores de baixa renda (ex: carpinteiros, serralheiros, canalizadores, etc) e clientes de classe média e média-alta, com o objetivo de contribuir para a criação de emprego. Outras utilizações de destaque desta tecnologia incluem educação, saúde e engajamento do cidadão.

Apesar do seu potencial, teria de haver uma mudança brusca no paradigma atual para que a inovação em USSD assumisse o protagonismo na resolução de problemas nas mais diversas áreas. As operadoras móveis ainda operam numa lógica de 80/20, na medida em que o custo de acesso só é acessível para 20% das empresas que lhes atribuem 80% dos lucros, factor que inibe a maioria das start-ups de fazer uso desta tecnologia.

As operadoras devem redefinir os seus modelos de negócio e os reguladores devem tornar o processo de obtenção de shortcodes mais simples para start-ups, e certamente que o USSD irá revolucionar o acesso à informação para as massas e tornar-se no verdadeiro impulsionador da indústria de serviços móveis do continente africano.

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Frederico P. Silva, atualmente CEO da Talento Moçambique, é também um empreendedor social na área das tecnologias de informação e comunicação para o desenvolvimento (ICT4D) e cofundador da UX, uma start-up premiada internacionalmente, que desenvolveu, entre outras plataformas, o maior... Ler Mais