A tecnologia é fantástica. Deixa-nos abismados não pela sua intrínseca e intrincada engenharia e a sua capacidade, mas pela veia da nossa imaginação sobre o seu potencial. Mais do que aquilo que ela faz, deixa-nos impacientes e excitados naquilo que pode fazer e, por vezes até mais, do que pode vir a fazer.

Foi talvez por isso que na emergência das redes sociais muitos se levantaram, batendo palmas, e dizendo que o mundo mudou. Basta recuar aos primórdios de uma avalanche. O ribombar no topo da montanha, depois de MiRCs e Fóruns clássicos e outras rupestres bases lapidares – eis então quem pensa numa das realidades que era, à época, impeditiva da ubiquidade das redes – a própria rede, a internet, nem sempre disponível, nomeadamente no mobile. Daí criaram uma rede chamada Twitter, que permitia aos seus utilizadores enviarem um tweet e atualizarem o seu perfil através de uma SMS, para além do meio web.  Estávamos em março de 2006 e Jack Dorsey, Noah Glass, Biz Stone e Evan Williams davam o mote para o que se seguiria.

Youtube já online, depois o Facebook a enterrar o hi5, o crescente uso do Linkedin, a titubeante vida do MySpace, o rompimento do Instagram e do Snapchat e mais ainda dos chats Whatsapp e Messenger…

Todos se voltaram para a web social. A web 2.0. A web participativa, interativa, colaborativa, orientada para o utilizador e omnipresente em cada smartphone.

O que muitas vezes nos esquecemos de olhar é para o fundador do próprio termo “web 2.0” e do que ele queria mesmo dizer com isso. Tim O’Reilly, de seu nome, popularizou o termo “open-source” (código livre de software) e Web 2.0 em 2006 e o foco na interpretação das suas palavras foram mais uma vez a tecnologia e a emergência da web social suportada no fenómeno das redes sociais.

Mas notemos a expressão original de O’Reilly sobre o que traz a web 2.0, onde o que importa não é “nem tanto as mudanças tecnológicas mas as mudanças sociais acumuladas em virtude da web, que se combinaram no tempo tanto para developers como para os end-users, transformando a forma de interagirem entre si através deste meio”.

Há 12 anos e ainda hoje o foco de muita análise continua a estar na tecnologia, quando deveria estar nos impactos dela. Se voltarmos a 1964 e ouvirmos Sir Arthur C. Clark, o mesmo respondia ao seu público na BBC numa das suas aparições semanais, que não importa tanto a tecnologia, mas sim os impactos que a mesma terá nas nossas vidas, nas nossas empresas, nos nossos empregos.

Também aqui na web importa o mesmo.

Para obter uma vantagem competitiva não interessa tanto analisar a tecnologia ‘per se’ e o que a web social é, mas antes como nós seres humanos reagiremos e adotaremos a tecnologia nas nossas vidas e que comportamentos mudarão e se enraizarão – e o que daí poderemos obter de ‘insight’ para integrar a nossa estratégia da empresa.

Basta, no fundo, olhar para trás e ver como éramos há 10 anos. Como comunicávamos entre todos. Como pesquisávamos uma marca. Como decidíamos sobre um restaurante. Como nos apresentávamos ao mundo empresarial. Como era a nossa memória colectiva construída…

O social que importa não é o da web.
É, sempre foi e será o nosso, de seres humanos que juntos sempre utilizarão a tecnologia muito para além do maior dos potenciais para os quais foi originalmente concebida.
Inteligência coletiva. Seguidismo. Irreverência. Criatividade. Comportamento de massas.
É o social. Somos nós. A mais bela e imprevisível tecnologia.

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Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais