Uma das coisas que aprendi quando passei a participar na gestão das universidades em que trabalhei é que há organizações em que há pessoas que são consideradas pessoas de segunda.

Nas universidades, é comum ouvir os professores tratar as pessoas com trabalho administrativo como cidadãos de segunda. Mas não é só nas universidades que isto acontece. Noutras empresas há a distinção entre quem trabalha e quem manda. Também há empresas em que quem trabalha na fábrica ou na rua é pior do que quem trabalha no escritório.

Há uma corrente de investigação em gestão já com muitos anos que avisa dos perigos desta divisão entre pessoas de primeira e pessoas de segunda nas empresas. É a investigação sobre as “armas dos fracos” (em inglês chama-se “weapons of the weak”, se quiser procurar mais sobre o tema).
Estes estudos mostram todo o armamento que as pessoas podem usar quando sentem que são vistas como cidadãos de segunda. Estas pessoas ocupam lugares chaves nos processos mais pesados, mas também mais centrais às atividades das empresas e podem usar essa posição para tornar a vida muito difícil e desagradável as quem as trata de cima para baixo.

Numa das universidades onde trabalhei em Portugal, o diretor da faculdade onde eu estava tratou mal o porteiro. A resposta foi: “sabe professor, eu já vi muitos diretores e ainda estou aqui.” Hoje em dia, o porteiro ainda é o mesmo. O diretor é que não.

Mas a mim não me interessa o perigo que podem representar as pessoas que têm funções de suporte. A mim interessa-me é o enorme potencial que têm as pessoas nestas funções. Nas universidades, a qualidade do serviço depende pelo menos tanto das pessoas em posições administrativas como dos professores. Mais, tanto nas universidades como qualquer outra organização, são as pessoas que estão na fila da frente do mercado, dos processos internos e dos processos de produção que veem com mais frequência e mais clareza as ameaças e oportunidades que são invisíveis para quem manda. Além disso, também são estas pessoas que estão no sítio certo para aproveitar novas oportunidades e responder a problemas inesperados.

Há um enorme potencial estratégico desperdiçado em todas as empresas em que há pessoas que são tratadas como cidadão de segunda. Mas, pior do que isso, há um enorme potencial humano desperdiçado nestas organizações. E não é só o potencial das pessoas que não têm oportunidade de se desenvolverem enquanto profissionais. É também o potencial de quem lidera e quem erradamente se considera de primeira que decide não se desenvolver enquanto humanos.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais