Na altura de obter financiamento por parte de uma empresa de capital de risco corporativo, os fundadores de start-ups tendem a descurar alguns aspetos que, mais à frente, podem revelar-se fatais. São 15 as particularidades de que devem estar cientes antes de aceitarem o apoio financeiro.

É cada vez maior a tendência de investimento por parte do capital de risco corporativo (CVC – corporate venture capital). Só nos EUA, mais de 50 mil milhões dolóres (44 mil milhões de euros) de empresas de CVC foram investidos no exercício de 2018, de acordo com o site TechCrunch. E novos dados indicam que quase metade das rondas de financiamento irá incluir um investidor corporativo. Logo, mais do que nunca, esta é uma realidade sobre a qual os fundadores e executivos de start-ups têm de estar informados.

Um grande investidor de CVC pode representar o melhor dos dois mundos – um grande player corporativo que fornece insights e tem os conhecimentos para ajudar a sua empresa a ter sucesso, e um parceiro financeiro empenhado que fornece o capital necessário para crescer. Mas os CVC não são apenas capital de risco com cartões de visita diferentes.

Encontrar o CVC certo requer a abordagem e a estratégia certas, e colocar o CVC certo ao seu lado pode aportar um valor único e duradouro à sua start-up. Segue-se uma lista dos 15 principais aspetos sobre os quais os fundadores devem estar a par antes de assinar um termo de compromisso com um CVC.

1. Há três grandes tipos de CVC
O que vai determinar em grande medida o potencial da parceria, o profissionalismo no processo de investimento, os recursos que terá à sua disposição quando o investimento for feito, e muito mais:

a) Institucional
Velocidade:
Por norma é tão rápido como o capital de risco.
Diligência:
Financeira + produto.
Condução: Muitos conseguem conduzir rondas.
Equipa:
Profissionais de investimento a tempo inteiro com diferentes níveis de experiência.
Origem do capital:
Fundo dedicado ou dinheiro do balanço.
Apoio estratégico à start-up:
Varia por grupo; alguns são fortes a alavancar o portefólio para um nível corporate.

b) Estratégico
Velocidade:
Por vezes mais lento que o capital de risco tradicional.
Diligência:
Focada no produto, com alguma diligência financeira.
Condução: Alguns conseguem conduzir rondas.
Equipa:
A tempo inteiro ou parcial.
Origem do capital:
Dinheiro do balanço; alguns têm fundos dedicados.
Apoio estratégico à start-up:
Bem alinhado para ajudar a vender/chegar ao corporate.

c) Turista
Velocidade:
É frequente ser bem lento por comparação com o capital de risco tradicional.
Diligência:
Focada no produto, mas varia.
Condução: Não deveria ser permitido conduzir uma ronda.
Equipa:
Por norma montada a partir das equipas das áreas financeira, contabilidade e de produto, e não a tempo inteiro.
Origem do capital:
Tirado de cada vez do balanço com o apoio do departamento financeiro ou o do conselho de administração.
Apoio estratégico à start-up:
Varia muito, e é costume depender de quem está a liderar o investimento.

2. As diferentes estratégias de investimento
 Alguns CVC veem os negócios sob a ótica de: “estou à procura de uma grande equipa, um mercado enorme e uma oportunidade de aportar financiamento e conhecimentos para tornar um negócio o mais forte possível”. Outros veem os seus investimentos como: “estou à procura de uma solução/produto/plataforma que possa trazer para a minha companhia ou usar para expor a minha empresa a um novo mercado ou tecnologia”. Enquanto fundador, é melhor saber qual é o tipo com que está a lidar antes do pitch.

3. Há benefícios além do capital aos quais tem de estar atento
Procure alguém que entenda o seu negócio, que se encontre consigo e decida que há algo mais além do capital que vai ser a base do relacionamento. No atual mercado de risco, os fundadores querem dinheiro e valor. Procure um CVC que tenha experiência valiosa a fornecer, e procure alguém que já tenha sido um operador no segmento ou que tenha uma visão e experiência valiosas para oferecer.

4. Há CVC mais adequados que outros
Tal como acontece com os investidores, alguns vão estabelecer um melhor relacionamento consigo e a equipa de executivos. Mas nos CVC estratégicos a necessidade de um vínculo forte desde o início é ainda maior, pois a sua start-up vai iniciar uma parceria estratégica com a empresa-mãe do CVC.

5. Tal como eles, faça a sua diligência
A melhor maneira de descobrir com que tipo de CVC está a lidar, o que esperar no processo de investimento e se a hipótese de uma parceria pós-investimento é grande é perguntar. Converse com outras empresas do portefólio do CVC ou com fundadores que no passado fizeram pitch ao CVC. Peça-lhes feedback sobre como foi e o que esperar. Não vai arrepender-se de ter mais informação.

6. Entre no relacionamento com ideias de como o CVC pode apoiar
Vê a possibilidade de feedback de produto? Novos canais de distribuição? Uma potencial aquisição no futuro pela companhia-mãe? Não tenha receio de partilhar a sua visão com o CVC durante o pitch e debata como e se essa visão pode ser realizada.

7. Espere um produto mais profundo e diligência técnica
 Os CVC têm especialistas técnicos, de produto e de mercado à sua disposição; portanto, o nível de diligência em produto é tipicamente mais rigoroso que o tradicional capital de risco. Esteja preparado para passar por um interrogatório com especialistas no assunto. Por outro lado, este processo de diligência fornece-lhe a exposição a potenciais clientes e parceiros na companhia, logo, use este tempo a seu favor.

8. Tenha em atenção a informação que revela durante a diligência
 Lembre-se de que está a partilhar informação confidencial com uma grande empresa. Se permanecer atento e for estratégico no que partilha, e determinar se o CVC está realmente interessado em fazer um acordo antes de lhe fornecer dados financeiras, técnicos e competitivos, não haverá problema. Não se apoie muito nos acordos de confidencialidade – estes só o protegem até certo ponto.

9. Faça perguntas durante as negociações
Eles querem conduzir a sua ronda? Querem um lugar no conselho de administração? Percebem a sua estratégia de captação de recursos para o futuro? Estarão a usar advogados experientes para fazer o negócio? Estas questões são importantes no processo de negociação, e as respostas serão reveladoras.

10. Defina regras claras sobre percentagens de propriedade com antecedência
Por regra, não permita que nenhum CVC detenha mais de 19,9% da sua empresa. Se detiverem mais, a companhia-mãe do CVC provavelmente vai precisar de consolidar os seus dados financeiros nos relatórios anuais e trimestrais. Se tal acontecer, ser-lhe-á solicitada uma auditoria dispendiosa, que cumpra prazos rigorosos de reporting, e que invista em planeamento e projeções financeiras, tudo aspetos que podem prejudicar os seus resultados.

11. Certifique-se que o CVC renuncia aos requisitos de auditoria
 Mesmo! Faça tudo o que puder para evitar quaisquer obrigações neste sentido. As auditorias são notoriamente demoradas e caras. Embora muitos acordos de direitos do investidor “exijam” uma auditoria, o capital de risco tradicional costuma dispensar este requisito para evitar que os fundadores desperdicem tempo e dinheiro. Vai desejar que um investidor de CVC faça o mesmo.

12. Nunca dê ao CVC o direito de preferência
Em nenhuma circunstância deve permitir que um CVC obtenha direito de preferência, o que daria à empresa-mãe o direito de “vencer” outros potenciais compradores se e quando tentar vender a sua start-up. Na prática, o direito de preferência significa que ninguém de entre a concorrência da companhia-mãe tentará adquirir a sua empresa porque sabem que o braço corporativo do CVC será capaz de chegar e roubar o negócio.

13. Esteja ciente do risco de mudança de regime
A rotatividade de pessoal é uma realidade que os CVC enfrentam tanto como qualquer outra grande operação empresarial. Pergunte ao CVC que lidera o seu investimento quem irá apoiar a empresa se ele ou ela sair. O que acontecerá com o CVC se a pessoa que lidera a área do investimento se for embora? A empresa continuará a fazer pro rata se houver mudança de pessoal? E quanto aos relacionamentos comerciais que resultam do relacionamento? Tem o direito de saber o máximo possível no início, embora no futuro as coisas possam mudar.

14. Pode ter de lidar com questões regulatórias
A companhia-mãe do CVC pode estar sujeita a regulamentação governamental. Por exemplo, os bancos têm regulamentos diferentes daqueles que se aplicam às grandes empresas de tecnologia. Lidar com estas leis pode ser dispendioso e demorado; esteja ciente daquilo em que se está a meter antes de assinar, e discuta como a sua start-up e o CVC podem evitar colidir com obstáculos regulatórios.

15. Saiba que pode ter de enfrentar desafios no relacionamento ao longo do tempo.
Enquanto as start-ups prosperam sem ter hierarquia, ao perseguirem a inovação e com o dinheiro contado, as grandes empresas operam a um ritmo e sob um paradigma diferentes. As mudanças são mais lentas, as decisões geralmente envolvem mais partes, e algumas unidades de negócio têm prioridades diferentes das outras. Como fundador, ficará encarregue de lidar com a companhia-mãe do CVC para maximizar o valor da parceria.

São muitos os benefícios em aceitar investimento do CVC. Muitos investimentos de CVC levam a aquisições e, mesmo que a negociação com um CVC desmorone, a sua reunião pode resultar em apresentações valiosas que geram novas relações comerciais. A crescente tendência CVC oferece todo um mundo aos empreendedores. Se conhecer as regras do investimento CVC, pode vir a conseguir uma parceria que beneficie os dois.

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