Mariana Pires apresentou ontem em Lisboa a nova coleção da Lipscani. Com os olhos postos no mercado norte-americano, a fundadora traça planos para o futuro.

Um dia depois do relançamento da marca em Portugal, Mariana Pires, fundadora da Lipscani, avança em entrevista ao Link To Leaders que “temos uma equipa dedicada a implementar a marca em Portugal e fazer da Lipscani uma referência no nosso país”.

Apesar de confessar que “ser empresário é dos caminhos mais difíceis que uma pessoa pode escolher”, Mariana acredita que é também aquele que “nos leva a lugares e conquistas fantásticas”.

Como surgiu a Lipscani?
A Lipscani foi criada, inicialmente, em 2010, como um projeto familiar. Queríamos um nome que não tivesse nenhum significado associado e que fosse facilmente reconhecível, um nome único. Foi quando viajei para a Roménia, um país entre o Oriente e o Ocidente, com influências turcas, soviéticas e latinas, que a ideia para a marca surgiu, e foi em homenagem a essa estadia que decidimos dar um nome de origem romena a este projeto.

O nome é romeno, mas a marca é bem portuguesa. Como é possível combinar elementos da arquitetura portuguesa com a multiculturalidade?
O nosso próprio país, antigo império, é uma mistura de todos os países por onde Portugal passou, deixando uma marca aqui. Queria criar uma marca exuberante que retratasse o nosso passado colorido, rico e diverso. Daí o estilo Arte Nova característico da Lipscani. Uma marca sem medo da cor, de ornamentos, do exagero, de um estilo marcante que permitisse às pessoas sonhar de novo e mostrar toda a magia que já existe no mundo.

Temos orgulho em ter sempre um cunho e inspiração portuguesas, mas, à medida que nos vamos internacionalizando, vamos também criando edições inspiradas em outros países e outras culturas.

O que distingue a coleção “Villas Operárias”? Em que se inspiraram?
A coleção “Villas Operárias” surge como um revisitar da nossa primeira coleção – que tinha portas e janelas portuguesas -, mas, desta vez, imbuída num contexto inserido nos valores da marca.

Inspirada num mundo em mudança, esta coleção é um tributo à arquitetura do tempo em que nos estávamos a tornar numa sociedade industrializada que trouxe imensas evoluções, em termos de estética, que permitiram a criação dos estilos (Art Deco e Art Nouveau) em que nos inspiramos. Este é o ponto de partida para a história da Lipscani.

Porquê relançar agora a marca no mercado português?
A marca tinha mesmo de ser relançada, porque durante muito tempo esteve apenas comigo a trabalhar e a implementar todo o projeto. Quando decidi ir para os Estados Unidos e arriscar, também tomei a decisão de que tinha de ter uma equipa em Portugal. Agora somos uma equipa bastante maior e a marca terá uma dinâmica como nunca teve antes.

Quais as maiores dificuldades que encontram no mercado e o que é preciso para as solucionarem?Nesta fase, estamos a pensar em termos globais. Estando agora a viver em Nova Iorque, onde a concorrência é desafiante, é preciso uma injeção de capital enorme para entrar neste mercado – seguido de ter vários influencers e pessoas conhecidas internacionalmente a usar a marca. Ao avançarmos para este ponto, estamos a competir com os melhores do mundo. Precisamos de ter, a meu ver, mais acompanhamento nesta parte e de tentar recorrer a algum fundo, para ter uma equipa e estrutura suficientemente sólida para alcançarmos uma boa implementação nos Estados Unidos.

O que foi fundamental para o crescimento da Lipscani?
O fundamental para a marca crescer foi a resiliência e uma grande vontade de analisar, ajustar, refletir e resolver problemas. A marca já teve vários momentos em que teve grandes obstáculos para o crescimento e foi a vontade de os contornar que nos manteve até agora em crescimento.

Contaram com investimento próprio ou capitais privados?
Contamos apenas com capitais próprios.

Quanto tempo demora a criar uma coleção?
Em termos de produção, leva cerca de três a quatro meses a prepararmos tudo. Em termos de inspiração, é difícil medir, porque muitas vezes tenho ideias que podem ficar um ano guardadas, até chegar o momento em que se aplicam ao conceito que estamos a trabalhar.

Onde podemos encontrar a Lipscani?
Podemos encontrar a Lipscani online em www.lipscani.pt e, futuramente, em vários pontos de venda espalhados pelo país.

Em que fase de internacionalização da marca estão neste momento?
Estamos numa fase de prospeção de mercado, em que estou a analisar os custos que iremos ter para implementar a marca e também toda a componente legal e fiscal. O próximo passo será determinar a melhor maneira de obter financiamento para realizar este projeto.

Qual a maior aposta: mercado português ou internacional? Porquê?
A aposta será em ambos. Temos agora uma equipa completamente dedicada a implementar a marca em Portugal e fazer da Lipscani uma marca de referência no nosso país. Se vamos vingar lá fora, precisamos, mais do que nunca, de todo o apoio e força das pessoas em Portugal. Entretanto, estou a tratar de toda a parte do design e internacionalização.

Que conselhos dá aos jovens designers que querem criar a sua marca? E internacionalizar-se?
Em termos de conselhos que possa dar, enumero os seguintes, para quem começar do zero:

  • Fazer dinheiro – não importa se for a vender ou a ter dois ou três trabalhos. Ao começar uma marca, todo o dinheiro é preciso, para se ter liberdade de investir, tempo. Ou pedir a alguém que faça as coisas por nós.
  • Se não se tem ninguém para começar, mais vale começar sozinho. Vejo muitas pessoas no mundo das start-ups que falam e “encontram” parceiros e mentores, mas a verdade é que estes apenas começam a aparecer quando conseguimos provar a nossa ideia. Vale a pena desenvolver a ideia primeiro e esperar até que mais pessoas queiram fazer parte do projeto e venham até nós. É importante ter uma equipa motivada que acredita na causa.
  • Perder a vergonha, pedir ajuda e seguir sempre em frente. Não nos deixarmos levar pelas rejeições e objeções iniciais – tudo leva o seu tempo e cada pessoa tem um caminho diferente.

Para internacionalizar, ainda teremos de esperar mais uns anos, para poder dar bons conselhos!

É fácil ser-se jovem empresário?
Antes acreditava, de uma forma mais ingénua, que qualquer pessoa jovem conseguia, se lutasse. Ainda acredito, mas, ao ver projetos a nascer e a fechar – muitos deles com grande potencial -, vejo que é preciso ter um conjunto muito específico de circunstâncias para singrar. E vejo muita gente com talento que dificilmente terá hipóteses, por via das suas circunstâncias. Nos últimos 50 anos, a sociedade democratizou muito as oportunidades e acessos a investimento, mas, mesmo assim, continua a ser um campo por vezes muito injusto. Gostaria de, no futuro, ajudar pessoas neste sentido. A verdade é que ser empresário é dos caminhos mais difíceis que uma pessoa pode escolher – mas que também nos leva a lugares e conquistas fantásticas.

Projetos para o futuro da Lipscani…
Para nós, o maior projeto para o futuro é o agora. Todos os dias temos de trabalhar ao máximo, para realizarmos o sonho da Lipscani ser uma marca internacional.

Respostas rápidas:
O maior risco: Não vender
O maior erro:  Duvidar
A melhor ideia: Ser original
A maior lição que a Lipscani pode ensinar: Observar a beleza do mundo
A maior conquista da Lipscani: Ser uma marca que se expandiu além-fronteiras.

 

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