A medicina em Espanha está a ter bastante sucesso na implementação das novas tecnologias. Conheça algumas das histórias de start-ups que estão a dar cartas neste campo, que, segundo especialistas, ainda está muito pouco explorado.

Há algumas semanas a aceleradora Impact, especializada em projetos inovadores e digitais, anunciou o seu primeiro sucesso. Uma das start-ups que fazia parte do seu portefólio foi adquirida pela seguradora Sanitas. A empresa em questão chama-se Healthia, uma espécie de loja online de saúde direcionada para o desporto, que oferece serviços como tratamentos de traumatologia e fisioterapia em clínicas de referência. Operações como esta mostram o bom rumo do mundo ehealth, um setor emergente que abrange as empresas que aplicam a tecnologia na saúde. É certo que os progressos digitais nesta área estão a ser lentos, no entanto, cada vez mais investidores se mostram interessados neste tipo de empresas.

Ignacio Valledor, CEO e fundador da Healthia, conta que financiaram o primeiro protótipo da plataforma com os seus próprios recursos. Embora a necessidade de financiamento seja uma barreira para muitos empreendedores, Valledor reconhece que obtiveram os recursos de que necessitavam rapidamente através do Enisa e de diversas entidades financeiras. “Para a pôr em movimento investimos cerca de 110 mil euros”, conta. As grandes dificuldades foram encontradas na hora de implementar um modelo de negócio. O primeiro ponto de viragem na sua trajetória foi vivido na Impact, onde encontraram a fórmula certa para ganhar clientes: criar pacotes de tratamentos. Agora, com a Sanitas estão envolvidos numa nova etapa que os levou a trabalhar lado a lado com a unidade de desporto do Hospital Sanitas La Moraleja.

Desenvolvimento

Um dos aspetos críticos deste tipo de start-up é impulsionar o desenvolvimento das suas plataformas, pois costumam ser produtos complexos que precisam de pessoal muito qualificado. É por isso que a maioria passa a fazer parte de aceleradoras, incubadoras ou centros de inovação visto que com o apoio destas entidades consegue trabalhar em ideias disruptivas e estabelece contacto com o seu público alvo: seguradoras, hospitais e clínicas especializadas.

Inovação

Segundo a StartupXplore, o setor da tecnologia da saúde é uma das áreas de ponta em Espanha e ainda há muitos nichos por explorar. O uso da inteligência artificial para elaborar diagnósticos mais precisos, a telemedicina para conhecer em tempo real o estado dos utilizadores ou a disciplina do “biotech” são algumas das áreas que mais estão a evoluir.

“A tecnologia está a chegar muito lentamente, porque o setor da saúde tem o segundo maior investimento em I&D em todo o mundo”, lembra Valledor. Juan González, CEO e cofundador da InsightMedi, uma plataforma que permite aos médicos partilharem dados clínicos, comenta que avança a um ritmo mais lento, já que há que ter especial cuidado com os aspetos de segurança e proteção da privacidade dos pacientes.

O Centro Europeu de Empresas e Inovação de Múrcia (Ceeim) tem apoiado algumas das empresas mais disruptivas. Uma delas é a Copcar, que nasceu com um investimento de 500 mil euros. Esta empresa desenvolveu um sistema inteligente que alerta para os enfartes e que já se utilizou na meia Maratona de Múrcia. Além disso, acaba de obter o selo da marca CE, que lhe permite lançar-se definitivamente no mercado. Tomás Vicente, cofundador e diretor clínico da empresa, comenta que “depois de conseguir financiamento do fundo 2UP seed Capital, confrontámo-nos com problemas de certificação próprios do setor e que são necessários para aceder ao mercado com total garantia”.

Profissionais especializados

Na área da saúde é essencial que a equipa esteja muito bem preparada. A VOptica, uma empresa de instrumentos médicos, criada como uma “spin off” do Laboratório de Ótica da Universidade espanhola de Múrcia, refere que ter passado por várias incubadoras lhes permitiu “contar com o apoio e assessoria de profissionais especializados”.

Novos modelos de ensino médico

No setor da medicina os profissionais nunca deixam de estudar. Esta atitude gera múltiplas oportunidades para aqueles que desejem empreender na área da formação especializada no mundo da saúde. Tal como sucede noutros setores, a digitalização abriu um amplo leque de possibilidades. Por exemplo, a Pupilum define-se como uma universidade online para médicos. Nasceu há dois anos e oferece cursos específicos nas áreas da medicina, enfermagem, psicologia, farmácia e outras profissões ligadas ao setor, como fisioterapia e emergências na saúde. Por outro lado, os fundadores da ‘start-up’ InsightMedi lançaram uma plataforma com o objetivo de que os profissionais da saúde interagissem uns com os outros.

O investimento inicial deste projeto foi de 40 mil euros e neste portal os utilizadores partilham casos clínicos baseados em imagens e vídeos, para poderem contribuir para resolver os diagnósticos mais complexos. “Quando criamos a empresa, o uso do telemóvel no ambiente da saúde estava a crescer, mas existiam muito poucas opções para apoiar o processo de consulta entre profissionais. A InsightMedi foi criada para oferecer as mesmas vantagens das redes sociais, como o Instagram, Facebook ou WhatsApp. Temos integrado ferramentas para que a imagem seja anónima antes de ser partilhada”, explica Juan González, CEO e cofundador da start-up. Nesta linha, lançaram o InsightDenti, uma espécie de Instagram focado no mundo odontológico e desenvolvido juntamente com a escola de medicina dentária da Universidade de Temple, Filadelfia (Estados Unidos).

Aumenta o emprego no setor da saúde

Depois de um período de crise, o setor da saúde em Espanha está envolvido numa reestruturação no âmbito público e privado. Diversos fatores como o regresso das concessionárias, as aquisições de grupos hospitalares e o turismo sanitário, juntamente com uma escassez de talento em determinados perfis, fomentam o emprego neste setor. Segundo a Adecco Healthcare, as vagas para cargos na saúde cresceram 40% durante este ano em relação a 2016.

Neste panorama, os perfis mais procurados pelas empresas são os médicos especialistas através do MIR (uma prova de avaliação feita aos aspirantes a médicos especialistas em Espanha), devido ao crescimento da saúde privada, às seguradoras e ao envelhecimento da população. Os dentistas também são muito procurados. Os mais difíceis de encontrar nesta disciplina são os especializados em ortodontia e odontopediatria (especialidade da medicina dentária totalmente dedicada à manutenção da saúde oral das crianças).

Além disso, são pedidos enfermeiros com dois anos ou mais de experiência, através do EIR (o equivalente ao MIR mas realizado por enfermeiros). O aumento de estrangeiros à procura da medicina espanhola também fez com que surgisse um grande interesse por administrativos, auxiliares de enfermagem e enfermeiros com elevados conhecimentos de línguas. Quanto às retribuições, existe uma grande variedade em função da formação dos profissionais. Os médicos especialistas auferem o salário mais elevado, alcançando os 46 mil euros brutos ao ano, em média. Seguem-se os que têm uma licenciatura em medicina, com 31 mil euros. No último lugar, estão os enfermeiros especializados e generalistas com uma retribuição média de 25 e 21 mil euros, respetivamente.

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