O João acaba de decidir deixar a sua empresa, onde trabalha há 16 anos, por se sentir “no limite”, como ele próprio refere. Numa conversa a dois, partilha comigo que começou a ter episódios de pânico de manhã quando conduz para a empresa onde tem trabalhado. Suores frios, tremores, alguma rigidez muscular que, muitas vezes, o fazem parar e equacionar voltar para casa. Nunca o fez. E atingiu “o limite”. Saiu.

Num jantar entre amigos, a Teresa confessa que, para não “dar em louca” na empresa onde trabalha, resolveu “desligar” e apenas deixar passar os dias. Sobrevive durante o tempo que está na empresa e “renasce para a vida” todos os dias quando sai. Aprendeu a proteger-se. Não deixa a empresa, porque não pode.

O Rui entrou há pouco para uma empresa e uma das primeiras coisas que lhe disseram foi para se preparar para as reuniões de direção: é para “levar pancada”, disseram-lhe e, para que não pensasse que está a salvo, acrescentaram que “calha a todos, um dia”… Sente-se desconfortável com o tema. E está mais tenso do que o normal, porque vai começar a participar nestas reuniões na próxima semana.

A Maria é responsável por uma área de negócio numa empresa e desabafava, há alguns dias, acerca do momento que está a viver na sua empresa: “Tenho medo de fazer e medo de não fazer, como se tivesse deixado de confiar no meu valor”.

Há muitos profissionais a sofrer nos seus trabalhos. Sofrem todos os dias, muitos sem o partilharem, porque trabalham em empresas doentes, onde as relações são tensas, as lideranças muito pouco people oriented, os ambientes são tóxicos; e onde as pessoas, para sobreviver, têm de desenvolver mecanismos de defesa, de proteção ou de ataque. São empresas onde se desperdiça muita energia na gestão das relações, energia essa que deveria estar ao serviço da criação de riqueza para todos (clientes, acionistas e colaboradores).

E estas empresas consideram que ter bons seguros de saúde ou edifícios modernos, com condições acima da média, é suficiente para serem vistas como “empresas saudáveis”.

É um engano.

Empresas saudáveis são, em 1º lugar, empresas que respeitam as pessoas. Que desenvolvem ambientes onde cada um pode expressar o que pensa, sem receios. Onde as pessoas se ouvem umas às outras. Onde as novas ideias são bem vindas e incorporadas na cadeia de criação de valor. Onde os erros são oportunidades para melhorar. Onde as pessoas perseguem objetivos que são desafios à sua capacidade de realizar e se ultrapassar. Onde a autonomia e a responsabilidade são fomentadas. Onde o desenvolvimento e o crescimento de cada profissional são uma prioridade. Onde o feedback é verdadeiro, transparente e frequente. Onde os sucessos são festejados.

Utopia? Não! Só precisamos de Líderes “saudáveis”!

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais