Estive recentemente no jantar de Natal de uma das nossas empresas. Durante esta época do ano, normalmente fazemos duas coisas: comemos muito e também tendemos a refletir sobre o ano que passou.

A minha empresa opera em Angola e, como muitas pessoas sabem, Angola está a passar por uma crise financeira há alguns anos. Isto tornou difícil trabalhar no país e, infelizmente, esta crise parece não terminar tão cedo.

É sempre fácil operar durante o boom e os tempos abundantes, mas é muito mais difícil quando os tempos são duros e os recursos escassos. É fácil operar quando o sentimento é positivo, mas muito difícil de sobreviver quando as mentalidades e os sentimentos são negativos. É, por isso, que se costuma dizer: estas são as consequências duras dos últimos anos quando a “merda” atinge a ventoinha e é espalhada por todo o lado.

No entanto, tenho orgulho em dizer que o nosso negócio é seguro e continua a regenerar-se. Tudo graças à nossa equipa. Desde o nosso CEO até à nossa equipa operacional, tem havido um enorme esforço de equipa para reduzir custos e para se tornar mais produtiva, de forma a garantir não apenas a nossa sobrevivência, mas também a preparar o sucesso futuro.

A mensagem de dor e sacrifício foi mostrada pelo exemplo da chefia e foi compreendida e transmitida ao longo do caminho a todos os colaboradores. Vimos como muitos dos nossos concorrentes e clientes, quase mensalmente, levaram muito tempo para se adaptar ou foram incapazes de entender esta nova realidade.

Muitos estavam confortáveis ou tinham muitos maus hábitos ou simplesmente não estavam dispostos a tomar decisões difíceis e os sacrifícios necessários para serem capazes de lutar mais um dia. É difícil abraçar a mudança, não é fácil descer a escala e é ainda mais difícil quando não se faz de cima para baixo. Você não terá sucesso ou não obterá “engagement” de todos os players, se não começar do topo.

Não vou mentir, não foi fácil, não fomos brilhantes a estabelecer um plano estratégico a seguir. Cometemos erros sim, dececionamos e magoámos algumas pessoas e egos ao longo do caminho. Dissemos NÃO com mais frequência e pedimos pagamentos continuamente à medida que o fluxo de caixa foi rei e que alguns seguiram outro caminho.

Cuidei da administração de topo e eles cuidaram da gestão intermédia e, por sua vez, eles cuidaram de todos os outros. Cuidámos uns dos outros e trabalhámos uns para os outros, pelo que estávamos mais próximos e fortes quando a crise começou. Começámos como colegas, mas agora somos família, com um único foco e uma visão. Tornámo-nos mais fortes e melhores do que nunca.

O processo que tinha começado com medo e com redução de custos, rapidamente tornou-se estável assim que nos consolidámos. Era importante deixar ir rapidamente o excesso, a fim de nos concentrarmos no core e na tarefa que tínhamos em mãos.

A atmosfera melhorou rapidamente à medida que todos entendemos que estávamos juntos e que precisávamos de combinar os nossos talentos, se quiséssemos crescer. Trabalhámos duro e ainda trabalhamos, mas agora somos uma família com um objetivo comum e unidos. De cima para baixo, qualquer um que não puxar por si pode sair rapidamente. O negócio agora assemelha-se a um máquina mesquinha de dar porrada.

Criámos mais sinergias e concentrámo-nos ainda mais nos clientes, como se as nossas vidas dependessem deles e, verdade seja dita, aconteceu. Chorámos, rimos, preocupámo-nos e esperámos sempre juntos, pois sabíamos que éramos mais fortes, se agíssemos em união.

Este jantar mostrou-me o quão longe chegámos, e sim, ainda há mais dificuldades pela frente, sem dúvida. No entanto, mostrou-me também que já não estamos ansiosos porque adaptámo-nos e continuamos a adaptar-nos ainda mais para ultrapassar estes desafios.

Fico triste por perdermos os nossos colegas ao longo do caminho, principalmente quando nos despedimos de alguns para sempre ou dizemos até já a outros.  Não é fácil ver a nossa família partir, mas ainda não nos podemos dar ao luxo de ficarmos demasiado confortáveis, pois isso seria perigoso.

Agradeço-vos por todo o vosso empenho, estou muito orgulhoso de todos e sei que a nossa família é forte e unida para percorrer o caminho que temos pela frente.

Ao olhar para os outros mercados nos quais estamos envolvidos, questiono-me quanto tempo levará para que façamos tudo isto novamente numa outra empresa, num outro país? O que é confortável agora pode tornar-se num desafio amanhã. Está na hora de estar preparado, de retirar o excesso e de começar a escolher a sua família porque mais uma vez apenas aqueles que se adaptam sobreviverão.

Dos colegas à família, que privilégio tem sido desempenhar um papel na história!

 

Versão do texto em inglês

From co-workers to Family

I was recently at our Christmas dinner for one of our companies. During this time of the year you normally do two things, you eat a lot and you also tend to reflect over the past year. My company operates in Angola and as many people know Angola has been in a financial crisis for a few years now. This has made it quite difficult to operate and unfortunately this crisis doesn’t seem to be ending anytime soon.

It’s always easy to operate during the boom and plentiful times but it’s much harder when times are tough and resources are scarce. It’s easy to operate when sentiment is positive but very difficult to just survive when mentalities and feelings are negative. That’s why they say that the tough get going when the shit hits the fan and the shit has been flying the last few years.

Nevertheless, I am proud to say that our business is safe and continues to strengthen and this is thanks considerably to our staff. Right from our CEO to our ground staff it’s been a huge team effort to slash costs and become more resourceful in order to ensure not just our survival but also preparing for future success. The message of pain and sacrifice was delivered by example from the top and it was understood and transmitted all the way to the bottom. We watched as many of our competitors and clients folded one by one almost monthly as they took too long to adapt or where unable to understand this new reality. Many were to comfortable or had too many bad habits or were just not willing to make the difficult calls and sacrifices needed to be able to fight another day. It’s tough to embrace change, it’s not easy to down scale and it’s even more difficult when you don’t do it in a top down manner. You will not succeed or obtain engagement from all the players if it doesn’t start from the top.

I won’t lie, it wasn’t easy, we weren’t brilliant by setting out a strategic plan to follow, no, we made mistakes and yes we disappointed and hurt some people and egos along the way. We said NO more often and asked for payments continuously as cash flow was King and free riders were let go. I looked after the top management and they looked after the middle management and in turn they looked after all the others. We looked after each other and we worked for each other, soon we were tighter and stronger than when the crisis began. We started as colleagues but now we were family, with a single focus and a common vision to get through this and become stronger and better than ever before.

The process that had started with fear as we had slashed costs had quickly turned stable as we consolidated with all the remaining staff. It was important to quickly let go of the excess in order to focus on the core and on the task at hand.

The atmosphere quickly improved as we all understood that we were in this together and needed to combine our talents if we wished to flourish. We worked hard and still played hard but we were now a family with a common goal and united going forward. From top to bottom anyone who didn’t pull his weight would quickly get off, the business now resembled a mean and lean kick ass machine.

We created more synergies and focused further on clients, as if our lives depended on them and the truth be told, it did. We cried, laughed, worried and hoped always together as we knew we were stronger as one.

This dinner has shown me how far we have come, and yes, there are still more difficulties ahead no doubt. It has however also shown me that we are no longer anxious as we have adapted and still adapting further to overcome these challenges. It makes me sad to see us loose our colleagues along the way as we say goodbye to some forever or just see you later to others. It’s not easy to see our family go but still we don’t have the luxury to get too comfortable as that would be dangerous.

I thank you for all your commitment, I am so proud of you all and know our family is strong and united for the road ahead.

As I see the other markets we’re involved in, I think to myself how soon till we do it all over again to another company in another country? What is comfortable now can become challenging tomorrow. It’s time to get prepared by shedding the excess and start choosing your family as once again only those who adapt will survive.

From colleagues to family what a privilege it’s been to play a role in the story.

 

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Tim Vieira é empresário em Angola desde 2001, país onde possui, juntamente com o seu sócio Nuno Traguedo, um dos mais relevantes grupos de Media – a Special Edition Holding –, que emprega mais de 500 colaboradores e detém algumas... Ler Mais