Tenho tido oportunidade de observar várias empresas de boa longevidade e com uma invejável trajetória de crescimento, criando riqueza e empregos. A boa tentação é de querer encontrar a razão desta prosperidade.

Numa empresa que estudei, nascida em circunstâncias muito difíceis para os empreendedores indianos, mas sempre fiel aos princípios norteadores do grupo fundacional, encontrei alguns aspetos que merecem reflexão.

Estou a referir-me à empresa de tecnologias de informação Infosys, com sede em Bangalore, criada em 1981 por sete engenheiros que trabalhavam na mesma empresa do setor. Um deles teve o papel aglutinador e decidiram que todos teriam o mesmo capital. Entretanto, definiram o que teria de específico e diferenciador, na empresa nascente: a empresa deve merecer o respeito de todos os seus stakeholders (dos portadores de interesse: os trabalhadores, os clientes, os acionistas e a sociedade envolvente…).

Para começar, sete pessoas em sintonia e decididas a avançar com a ideia bem amadurecida e assumida representa uma enorme força e é mais difícil de desfalecer face às dificuldades, do que sendo uma empresa de uma pessoa só. A razão de ser da empresa é prestar um serviço, mas a Infosys queria fazê-lo em condições especiais, ganhando o respeito de todos os grupos intervenientes.

Naturalmente, o primeiro grupo a quem ganhar respeito é o dos clientes. E é onde dedicaram tempo para encontrar soluções práticas, cuidadas e eficazes. Muitas vezes notavam, nos primeiros tempos, que tinham muito trabalho, mas com poucas receitas.Talvez a busca desse respeito levasse a esmerarem-se, com um trabalho de grande qualidade, no qual também adquiriam saber e competência. Como já teriam apresentado o orçamento, não poderiam cobrar todas as horas dedicadas. Contudo, o investimento de tempo na qualidade das soluções criavam uma procura cada vez maior, dadas as boas referências de quem tinha tido trabalhos com a Infosys.

Na Índia ainda se vivia o “socialismo” com dificuldades para viajar, para importar tecnologia, para movimentar fundos, e quase até para exportar. Isso foi a grande escola de pensar para sortear dificuldades. Alguns anos mais tarde ao dar-se a abertura económica, em 1991, tudo lhes parecia fácil e simples.

A procura dos seus trabalhos, que ia em grande aumento, obrigava a investimentos em Centros de Desenvolvimento, com os seus equipamentos, para responderem aos clientes dos Estados Unidos. Então tomam a decisão de pedir admissão na Bolsa de Bombaim, pois estando cotados seria fácil obter o capital necessário para crescer. De facto fazem-no em 1993, mas em condições que não podiam ser piores: a entrada em Bolsa dá-se algumas semanas depois de atos de terrorismo que assolam a cidade de Mumbai. Um péssimo momento para atrair investidores, mas seguem em frente. Mais tarde, em 1999, começou a ser cotada na Nasdaq, sendo a primeira empresa de base indiana a fazê-lo, pois teria mais visibilidade para os investidores estrangeiros.

O crescimento do trabalho faz crescer o número de colaboradores, primeiro com certa lentidão e depois, ao ser mais conhecida, com aumentos na ordem dos 30 a 60% anuais. É quando decidem investir num Campus na Cidade Electrónica, em Bangalore, e, logo a seguir, na aquisição de terreno e construção de um Centro de Formação em Mysore, para todos os novos colaboradores e reciclagem para os antigos. Estes, na passagem das suas responsabilidades atuais para outras de direção de equipas de trabalho, de projetos, de liderança de grupos, etc. O Centro de Mysore, a 180 Kms de Bangalore, tem capacidade residencial para grupos de 14.500 pessoas, em instalações de altíssima qualidade e beleza, com salas de aula, bibliotecas, zonas de desporto, jardins, piscinas e refeitórios de comida muito variada.

Foi a primeira empresa indiana que criou um Stock Option Plan para premiar os trabalhadores que desenvolviam ideias de interesse para o futuro da organização. Muitos deles são milionários devido à forte valorização das ações da Infosys.

No que toca a ganhar respeito da sociedade, a Infosys cria elevado número de empregos e os Centros de Desenvolvimento têm um apurado gosto na sua urbanização e com edifícios assinados por arquitetos de nomeada, num ambiente cuidado, muito verde de arvoredo e relvado, fontes e passeios, piscinas e campos de desporto, carros elétricos para deslocações internas. Os centros utilizam apenas energia renovável do sol, sem poluição e reciclagem de tudo quanto é possível.

A Infosys criou uma Fundação para poder apoiar populações rurais mais pobres, no seu ensino e utilização de computadores nas escolas das aldeias.

Como é natural, teve situações de grandes dificuldades, mas com tranquilidade e uma visão de longo prazo nunca desistiram de fazer sempre o que era correto e mereceram redobrada confiança de todos os interessados (stakeholders) na empresa.

Como resultado dos princípios que norteiam a Infosys e da atuação no respeito a eles, a Infosys tem atualmente mais de 225 mil trabalhadores intelectuais e o seu valor em Bolsa supera os $45.000 milhões, com vendas anuais superiores aos $11.000 milhões. Cada ano recebe mais de 1 milhão de pedidos de jovens recém-formados para preencher as suas cerca de 20 a 30 mil vagas.Os clientes são de grande estabilidade e a maior parte são de longa repetição, durante muitos anos.

*Dirigente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia. Autor do livro “O Despertar da Índia”

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Sobre o autor

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais