Numa sociedade rural, em geral pobre, tanto nos países ricos ou emergentes, o desejo de melhorar a vida, ganhando mais com o trabalho, é uma necessidade óbvia.

Por isso, as novas variedades a plantar, o modo de cultivar e adubar são facilmente absorvidos, sobretudo quando os efeitos não demoram a aparecer. O conhecimento difundido e o acesso aos meios de financiamento, podem ser importantes para o progresso da vida rural.

Com a escolaridade obrigatória, as crianças poderão ser o factor de rápida transformação social, ao darem sentido prático ao que ouvem, notando as diferenças de rendimento entre as variadas culturas agrícolas e fixando-se nas que criam mais riqueza. Mas é importante que os seus professores estejam preparados, com conhecimentos práticos e claros, e sejam dedicados para provocar interesse por aquilo que ensinam.

Até 1961 não havia nada organizado em Goa em matéria de pecuária, criação de frangos para ovos ou carne, de porcos, etc. Havia produção caseira, de dimensões exíguas, artesanais, sem recursos, nem conhecimentos, sobretudo, em casos de doenças, e, de vez em quando, os frangos morriam todos.

Nessa altura, um jovem que trabalhava na função pública decidiu deixá-la, para espanto de muitos, e inscreveu-se num curso de treinamento de quatro meses, para a criação de frangos (poultry), na cidade de Pune. Era bem organizado, com parte teórica e outra, mais longa, prática, com todas as etapas da vida da criação e os cuidados a ter: a defesa contra as doenças, a vacinação e medidas de prevenção, etc. Ele classificou-se em primeiro lugar nesse curso.

Voltou para Goa e lançou a sua atividade, com um pequeno empréstimo do banco e vendendo algo que possuía. Ela foi crescendo, devido à sua dedicação e às suas sucessivas iniciativas [2]. À sua volta, com a admiração que causava o seu desempenho, várias pessoas entraram nessa atividade, quase sem dinheiro, partilhando o jovem empreendedor o seu saber de pecuária, das doenças e vacinas, remédios e rações, enquanto a atividade de cada um dos vizinhos era de pequena dimensão para trabalhar com autonomia.

Tempos depois, com o gradual crescimento do turismo e o impulso da construção hoteleira, toda a Goa foi tendo uma variedade de pequenas ou médias explorações, que hoje são mais de 350, com prosperidade e atrativo para quem entra na atividade. Note-se que hoje Goa é dos Estados com uma densidade elevada de turistas, internos e externos (em 2016 foram, no total, mais de 6,3 milhões). Conta com uma boa infraestrutura hoteleira com grande concentração de hotéis de 5 estrelas, mais de 23 numa área de 3.700 km2. Eles representam 11% dos hotéis de 5 estrelas da Índia toda.

É o modo natural como surgem os clusters: muitos a exercerem uma mesma atividade, fisicamente próximos uns dos outros, atividade que pelos resultados que dá, origina o aparecimento de novos fornecedores de produtos ou serviços, como os pintos a criar, as vacinas, remédios, rações, etc. E faz com que na região se estabeleça uma forte “indústria” agro-pecuária que vai aprendendo e melhorando, e criando trabalho.

As atividades ligadas à alimentação, quer da criação de animais, ou de plantação de vegetais de consumo direto ou transformados, merecem a pena cursos de alguns meses, para treino dos interessados, nalguma estação agronómica ou veterinária onde possam receber, aplicar e entender os saberes e familiarizar-se com a prática. São atividades que, quando baseadas no conhecimento da realidade e feitas com empenho, são bem rentáveis.

Há oportunidades ainda por descobrir. Especialmente do que não se faz no local e que noutros sítios não só tem sucesso, mas onde desenvolveram algum saber. Via, como exemplo, a produção de variados tipos de mel de abelhas, em sintonia com as plantas que crescem nessa zona e cujas flores alimentam as abelhas com o néctar que utilizam para fabricar o mel.

Identicamente, com a produção de espécies vegetais: quase todas elas se podem trazer e plantar em zonas que não tinham tradição, porque parecia não ser o seu habitat. Há tempos iniciou-se a plantação de oliveiras no deserto de Rajhastan, com altas temperaturas, clima seco, mediante a rega gota a gota.

Também a tâmara, sempre vista como fruta da Arábia Saudita, dá-se bem em qualquer local com temperaturas altas, produzindo anualmente apreciáveis quantidades de tâmara. É sabido que a tâmara é um alimento muito completo, por isso acessível nos desertos, onde pouca coisa mais existe. É preciso pôr a imaginação a funcionar para ir melhorando os rendimentos da terra e dos agricultores. Já há locais onde ao longo do ano se plantam três espécies vegetais, que se vão alternando, de acordo com a temperatura, a humidade, etc. e que pela sua variedade recompõem o solo com os nutrientes, sem nunca os esgotar.

Muito interessante ainda é que algum dos operadores, com mais visão, iniciem também alguma exportação para locais que não têm tradição de produção vegetal ou pecuária, como no Médio Oriente, comprando também aos outros produtores locais, para aumentar a sua exportação. Ou que formem uma associação de produtores locais, para poderem desenvolver novas ideias, custearem investigação sobre produtos, para a sua melhoria, sobre as rações para a criação, etc.

[2] Estou a pensar no meu amigo John Valadares, de Nagoá, o pioneiro da Agro-Indústria em Goa.

*Professor da AESE-Business School; do IIM-Rohtak (Indian Institute of Management de Rohtak) e Dirigente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia

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Sobre o autor

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais