Estive recentemente no Dubai e na Índia (bem, numa ínfima parte desta!…). Dois mundos distintos, entre si e cada um deles do que é hoje Portugal. Duas realidades de um mesmo mundo. Cada vez mais conectado!

No âmbito do Gitex / Gitex Future Stars, fui jurado do Supernova Challenge, no Dubai. Foi incrível ver o que o 5G proporcionará com a “fusão” do que vivemos real e virtualmente, o nível da inteligência e “humanização” dos robôs, as soluções suportadas em Inteligência Artificial, ano para ano mais potentes e as motas voadoras que em breve povoarão as nossas cidades, entre as mil novas tecnologias presentes todos os anos nesta gigante feira. Mas também ali se antecipa a “sociedade perfeita”, em que tudo é possibilitado e controlado pela tecnologia! Uma sociedade de cidadãos “exemplares”, onde a ideia do ser humano possuidor de qualidades e defeitos, que aprende com os seus sucessos e falhanços, parece algo distante.

Na Índia intui-se todo um mundo de oportunidades e, no meio de muita pobreza, uma dignidade e positiva ingenuidade num povo que nos cativa. A Índia surge-nos como um país/mundo que primeiro choca, depois se estranha e finalmente se entranha deixando-nos com muita vontade de lá voltar.

Em ambos, Dubai e Índia, conheci empreendedores. Se no Dubai impressiona a qualidade, alcance e escalabilidade de algumas das startups avaliadas, na Índia maravilha – a força dos sonhos, de gente que, mais que empresas, cria projectos de vida. Alguns não deixarão de ser pequenos e muito dignos empresários e outros, não tendo sido esse o seu objectivo, irão muito provavelmente criar grandes empresas e contribuir decisivamente para o bem-estar de muitos dos seus concidadãos.

Em ambas as geografias confirma-se que o talento está, felizmente, bem distribuído. O “state of art” tecnológico é a razão de ser do GITEX. Entre muitos e bons projectos, venceu o Supernova Challenge, e arrecadou 100.000 USD, a Key2enable, que com a sua tecnologia inovadora abre todo um mundo de oportunidades de aprendizagem e capacitação a crianças com fortes deficiências, físicas e mentais.

Mas, se no Dubai “vi o futuro”, foi principalmente na Índia que assisti à construção de um presente que me deixa optimista em relação à humanidade. Ali conheci o Murthy Megavan, que fundou a Covelong Point Social Surf School, na praia de Kovalam, Tamil Nadu. Jovem pescador que sonhou uma escola de surf para possibilitar um projecto de vida a miúdos da sua aldeia e que, com determinação, bondade e simpatia, atraiu o patrocínio do TT Group e cativou o interesse de gente de todo o mundo. Hoje gere uma escola com dezenas de miúdos a trabalhar, alguns quartos e um restaurante com vista para o mar, e delicioso peixe! Organiza The Covelong Point Surf Yoga Music festival, o “Asia’s biggest surf and yoga festival”, e coordena uma excelente equipa que pro bono limpa a praia e, nos dias mais movimentados organiza vigílias e salva vidas. Não o fez nem o faz para ter uma grande empresa, mas algo me diz que um dia vai acordar com uma. Grande empresário já ele é. Para além de boa pessoa!

Conheci outra boa pessoa, o Apollo Kumaresan, também ele filho e irmão de pescadores, apaixonado pela leitura e pelos livros, que sonhou e concretizou a “Apollo Books – Exchange & Library”, em Mahabalipuram, Tamil Nadu, território património da UNESCO, onde se podem comprar e trocar livros em muitas línguas, permitindo a que, independentemente dos rendimentos, todos que o queiram possam ler. A sua livraria, onde cada pessoa que lá passa se torna num amigo, é a prova que não há contexto certo para empreender. O que há são pessoas e os seus sonhos. Pessoas que contra todas as probabilidades os concretizam.

Com a minha família, numa viagem de autocarro, conhecemos uma família de quatro, em que as filhas Divya e Vinita, vieram todo o caminho a perguntar-nos tudo que se lembravam, sobre Portugal e sobre o que gostámos da Índia. Na senda do “Our guest is our God”, muitas vezes ouvido, tudo fizeram para que nos sentíssemos bem. No final, após umas fotos em família e conexão via redes sociais, disseram que terem-nos conhecido foi para elas um dos acontecimentos do ano. Como em muitos indianos, há nelas uma bonita ingenuidade, uma positividade e alegria de viver que nos faz acreditar neste nosso mundo.

Há grandes diferenças entre países e regiões, seja eles os EAU/Dubai – Portugal – Índia ou outros, como também há hoje muitas coisas que nos unem. A internet e os smartphones conectaram-nos, juntando-nos! Mas a identidade e cultura de cada um, felizmente, ainda nos faz diferentes. Se formos inteligentes e tolerantes, podemos conviver, potenciando o que nos une e maravilhando-nos com o que nos é diferente!

Há algo que tenho como certo, e confirmo de cada vez que viajo. O mundo enfrenta grandes desafios, mas para a generalidade da população mundial está cada vez melhor e abre diariamente novas e entusiasmantes possibilidades. A nós, os que no ocidente vivemos melhor, faz-nos bem visitar in loco países como a Índia para percebermos o quão ridículas são algumas das nossas queixas. A nós todos, eu incluído! Namastê!

Nota: Este artigo segue a antiga ortografia por vontade expressa do seu autor.

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Sobre o autor

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Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores, e Vogal do Conselho Fiscal da 321 Crédito, Instituição Financeira de Crédito. É ainda Presidente Emérito da Invicta Angels, a Associação de Business Angels do Porto, da qual foi fundador, e Board... Ler Mais